Aos poucos, Europa está se cansando do turismo

Clarissa Neher (de Berlim)

Berlim, Veneza, Amsterdã, Roma: moradores veem qualidade de vida ser reduzida com o crescente fluxo de turistas, e cidades são obrigadas a buscar alternativas para não perder identidade.Uma multidão se aglomera em frente à Fontana di Trevi, em Roma. Chegar perto exige paciência e esforço para romper a barreira formada por turistas. Quando a aproximação é bem-sucedida, fica impossível admirar com calma a beleza de uma das principais atrações da capital italiana.

Situações assim são rotina em várias partes da Europa. E, há alguns anos, vêm começando a incomodar moradores, diante de um processo conhecido como turistificação – o processo de transformação espacial e socioeconômica de regiões em detrimento do interesse turístico.

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Moradores veem sua qualidade de vida sendo reduzida ao serem obrigados a conviver com turistas, muitas vezes barulhentos e que não respeitam as regras locais. Em diversas regiões, a turistificação provoca a expulsão de habitantes devido à explosão nos preços dos aluguéis.

Veneza é um dos exemplos mais gritantes. A cidade italiana perdeu praticamente a metade de sua população em apenas 30 anos. Estimativas apontam que, se esse desenvolvimento seguir o ritmo atual, pode ocorrer a "extinção" dos venezianos na cidade.

Não somente moradias foram destinadas ao turismo, mas também muitas lojas locais. A estrutura da cidade sofre ainda com a circulação de cruzeiros na região, que danificam mais as já fragilizadas fundações dos prédios locais, feitas de madeira sobre um terreno pantanoso.

Outras cidades europeias, como Lisboa, Berlim, Madri, Amsterdã e Dubrovnik, sofrem problema semelhante. Na capital da Islândia, Reykjavík, de 122 mil habitantes, os números dão uma dimensão do fenômeno: em 2008, recebeu 450 mil visitantes; uma década depois, a cifra passa de 2,5 milhões.

Em Barcelona e em Palma de Mallorca, o descontentamento levou moradores a protestar em meados do ano passado contra o turismo de massa. Os manifestantes levavam cartazes com os dizeres "o turismo mata" e chegaram a comparar a atividade com o terrorismo.

Cidades buscam limite

Em 2017, o turismo internacional movimentou 1,3 bilhão de pessoas pelo mundo, um aumento de 7% em relação ao ano anterior. O maior aumento (8%) foi registrado na Europa, que recebeu 671 milhões de visitas. A Organização Mundial de Turismo (OMT) prevê a continuação deste crescimento, que deve chegar a 1,8 bilhão em 2030.

"O grande desafio neste cenário é garantir um crescimento sustentável, incentivando mudanças no comportamento dos turistas, encorajando práticas sustentável e minimizando qualquer efeito adverso que o desenvolvimento da atividade possa causar nos destinos", afirma Sofía Gutiérrez, do Departamento de Desenvolvimento do Turismo Sustentável da OMT.

Diante dos atuais problemas e da perspectiva de crescimento, algumas cidades europeias procuram caminhos para conter o turismo de massa e, ao mesmo tempo, promover a atividade de uma maneira sustentável.

"As cidades querem o turismo, mas perceberam que há um limite e agora buscam soluções para conduzir a onda de turistas sem acabar com a atividade", acrescenta Frank Herrmann, autor do livro FAIRreisen - Das Handbuch für alle, die umweltbewusst unterwegs sein wollen (Viagem justa – Manual para todos que querem viajar com consciência ambiental, em tradução livre).

Entre quem buscam dar um alívio ao problema está Veneza. Em novembro do ano passado, a cidade proibiu, a partir de 2019, a circulação de grandes cruzeiros no centro.

Já Amsterdã anunciou, em outubro de 2017, a proibição da abertura de novos estabelecimentos comerciais voltados para turistas no centro da cidade, como lojas de suvenires e restaurantes fast-food. Além disso, já havia banido a circulação de ônibus turísticos e cruzeiros na região central, além de proibir a construção de novos hotéis.

Guerra contra Airbnb

A capital holandesa, assim como Barcelona e Berlim, adotou ainda regras para banir o aluguel temporário de moradias e conter desta maneira a explosão nos valores dos aluguéis. A ascensão de plataformas digitais, como Airbnb, facilitou esse tipo de negócio, tornando essa disponibilização de moradias muito mais lucrativo do que o convencional em cidades com intensa movimentação turística.

Gutiérrez destaca que, com a revolução tecnológica, esses modelos de negócios continuarão se expandindo e, por isso, é necessário que os destinos entendam as realidades deste novo mercado e regulamentem suas operações caso a caso.

Amsterdã está entre os destinos pioneiros que investiram na regulamentação do serviço. A cidade estipulou que proprietários de imóveis podem disponibilizar apartamentos em plataformas digitais, como Airbnb, por apenas 60 dias, e a partir de 2019, somente por 30 dias.

Em Barcelona, o governo congelou a concessão de licenças para novos hotéis e trava uma batalha contra o aluguel ilegal de apartamentos. Em dezembro de 2016, a prefeitura chegou a multar o Airbnb em mais de 600 mil euros por disponibilizar no portal moradias que não estavam legalizadas.

Na capital alemã, uma legislação proíbe desde o ano passado esse tipo de negócio sem a autorização prévia da prefeitura. A proibição, porém, enfrentou resistência do Airbnb e de donos de imóveis que entraram na Justiça contra a medida. Berlim voltou atrás e aprovou nesta semana o aluguel temporário de apartamentos inteiros sem legalização junto à prefeitura por até 60 dias por ano. O aluguel de quartos é permitido sem restrições.

Além disso, oito cidades – Madri, Barcelona, Amsterdã, Bruxelas, Paris, Cracóvia, Viena e Reykjavík – se reuniram no início deste ano contra plataformas de aluguel e pedem que a Comissão Europeia obrigue esses serviços a revelarem a identidade dos inquilinos e a compartilhar esses dados.

Ao tentar evitar a turistificação com medidas que pretendem reduzir o acúmulo de turistas em determinadas regiões e preservar o bem-estar dos habitantes locais, as cidades europeias expressam também o desejo de promover um turismo de maior qualidade e proporcionar aos viajantes a autenticidade que procuram nas férias.

Turista sustentável

Um turismo sustentável, no entanto, não depende somente dos destinos, mas de todos seus atores. "Quem viaja barato, viaja ao custo do meio ambiente e dos moradores do local de destino", destaca Herrmann.

O especialista ressalta que o turista também deve contribuir para diminuir os impactos negativos de suas férias. Questionar a necessidade de uma viagem aérea, optar por não comprar pacotes turísticos com tudo incluso, usar o transporte público local, contratar guias da região e comprar lembranças produzidas no país são algumas das atitudes que fazem bem ao meio ambiente, às cidades turísticas e a seus moradores.

"Além disso, se as pessoas se comportassem nas férias como se comportam em casa também já ajudaria muito. Por exemplo, os alemães levam sacolas de pano para fazer as compras na Alemanha e evitar assim o uso de sacolas plásticas, isso também deveria ser feito quando eles viajam", acrescenta Herrmann.

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