Opinião: Zuma personifica década perdida da África do Sul

Claus Stäcker (as)

Ele foi um equívoco e deixa um amontoado de cacos como herança política. Seu sucessor sabe o tamanho da tarefa que o espera e será impiedosamente avaliado pelos sul-africanos, afirma o jornalista Claus Stäcker.Tudo já foi dito e escrito sobre Jacob Zuma. Ele foi um equívoco. Ele deixa um amontoado de cacos: serviço público corrupto e ineficiente, economia com péssima avaliação de crédito, endividamento recorde, sistemas de saúde e educação lamentáveis, lideranças incompetentes em todos os níveis.

Zuma personifica uma década perdida para a África do Sul, um país que, em 1994, sob a liderança de Nelson Mandela, havia iniciado de forma promissora uma nova era. Por um instante ele até pareceu ser um contraponto popular ao seu antecessor, o incorrigível e inacessível Thabo Mbeki.

Zuma parecia ser alguém que sabia ouvir as massas, alguém que, com seu currículo interiorano e longe dos bancos escolares, simbolizava os esquecidos. Alguém que, com suas danças, costumes e canções tradicionais e sua poligamia desavergonhada, falava aos instintos daqueles que ficaram para trás.

O Congresso Nacional Africano (CNA), um partido comprometido com o progresso e que desfrutava de apoio internacional, deixou-se enfeitiçar e acabou envolvido pela onda populista. O CNA subestimou a esperteza interiorana e a astúcia de Zuma e foi, em poucos anos, completamente usurpado.

E por uma pessoa que não representava nada nem ninguém, salvo inescrupulosidade na manutenção do poder e enriquecimento próprio, da família e dos apoiadores. Zuma usou o arsenal que recolhera nos tempos da resistência: como organizador do serviço secreto, ele recolhera meticulosamente fatos sobre inimigos e amigos. Quando colocou o serviço secreto e as autoridades investigativas sob seu controle, passou a ter algo para usar contra quase todos e jogou friamente com os adversários. Ele não conseguiu incorporar a Justiça e a mídia, mas o serviço público é impregnado com pessoas ligadas a Zuma.

Tudo isso evidencia a tarefa gigantesca que Cyril Ramaphosa tem diante de si. A África do Sul, que um dia foi a locomotiva econômica e esperança de todo um continente, praticamente deixou de ser levada a sério na África. Trata-se de um caso único, com sua história interminável de apartheid e sua eterna dicotomia. Amorfa na política externa, hoje em dia imprevisível. Investidores já optaram há muito tempo por outras regiões. Conglomerados sul-africanos tornaram-se multinacionais e levaram seu dinheiro para outros países.

O novo líder, Ramaphosa, mantém um silêncio suspeito por estes dias. Até agora ele não deu nenhuma declaração enérgica na televisão, nenhum alarido de triunfo, nenhuma malícia e fanfarronice.

Ramaphosa possivelmente sabe o que o espera, o tamanho do estrago causado por Zuma. A oposição exige com razão uma nova eleição, que provavelmente seria inoportuna para Ramaphosa. Ele quer mostrar serviço para melhorar sua posição na eleição marcada para 2019. Ramaphosa quer evitar que o CNA se divida, reformá-lo e conduzi-lo à vitória na próxima eleição.

Para isso, ele será obrigado a fazer concessões a apoiadores de Zuma, as quais poderão desagradar outros eleitores. Afinal, os seguidores de Ramaphosa esperam que ele faça uma limpa, que ele reconstitua a confiança na Justiça, nas autoridades e na Constituição e que Zuma e sua trupe sejam levados à Justiça. Que servidores do Estado sirvam ao Estado e não a si mesmos. Apenas se a sua liderança lograr um retorno coletivo a esses fundamentos da democracia poder-se-á dizer, em retrospectiva, que a década passada talvez não tenha sido de todo perdida.

Mas isso será um teste difícil para Ramaphosa, que sem dúvida possui competências excepcionais. Afinal, esse industrial e multimilionário não representa o povo simples, mas a elite vencedora. E, com seus 65 anos, a velha geração dos libertadores do apartheid, para quem os jovens dão cada vez menos crédito. A sensacional ascensão do partido populista de esquerda Economic Freedom Fighters (EFF), liderado pelo antigo chefe da juventude do ANC Julius Malema, mostra que o partido de Mandela praticamente perdeu a nova geração.

Este conflito de gerações é algo que a África do Sul compartilha com os demais países do continente. A confiança nos velhos desaparece com cada fracasso, com cada promessa quebrada. O novo gabinete de Ramaphosa certamente será mais competente que os governos de diletantes montados por Zuma. Mas ele será, também, impiedosamente avaliado pelos seus resultados: crescimento econômico em vez de apadrinhamento, empregos em vez de palavras vazias, perspectivas em vez de promessas. Já em 2019, quando houver eleição, o CNA reformado de Ramaphosa receberá sua primeira nota.

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