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As digitais de Moscou no ataque ao ex-espião russo

Roman Goncharenko (md)

23/03/2018 10h59

Especialistas afirmam que origem do composto usado no envenenamento de Serguei Skripal pode ser claramente identificada, o que explica convicção dos britânicos ao incriminar o Kremlin.A controvérsia internacional sobre o envenenamento do ex-agente duplo russo Serguei Skripal e sua filha Yulia cresce a cada dia. O Reino Unido acusa a Rússia, e a União Europeia (UE) se solidarizou com Londres. Moscou, porém, refuta as acusações, e exige provas. Tais provas – ou melhor, indícios –, Londres apresentou até agora só a seus aliados mais próximos – Estados Unidos, Alemanha e França –, que logo se colocaram ao lado do Reino Unido.

Inicialmente, a primeira-ministra britânica, Theresa May, delineara duas opções possíveis: uma ação direta da Rússia ou uma perda de controle do Kremlin sobre armas químicas. Mas desde que Moscou ignorou um ultimato britânico para esclarecer a questão, o governo britânico está considerando apenas a primeira opção. Num discurso no Parlamento, a premiê disse que a Rússia produziu e ainda é capaz de produzir o veneno usado; que costumava praticar "assassinatos patrocinados pelo Estado" e que Moscou considerava "alguns desertores alvos legítimos de assassinatos".



Tiro de pistola

Skripal e sua filha podem ter sido envenenados por um tiro de uma espécie de pistola que é carregada com duas ampolas que contêm substâncias relativamente inofensivas, mas cuja mistura origina o agente nervoso Novichok. "Mesmo sem atingir o alvo, o tiro seria suficiente para intoxicar o ar. Eles sequer teriam percebido", disse o químico russo Vil Mirzayanov, de 82 anos, à DW. Radicado nos EUA há mais de 20 anos, foi ele que, em 1992, tornou pública a existência do Novichok, num artigo de jornal.

Mas por que os britânicos têm tanta certeza do envolvimento russo? Especialistas afirmam que é possível detectar a origem do veneno usado no ataque.

Nos círculos especializados ocidentais, o Novichok é conhecido no mais tardar desde as revelações de Mirzayanov. Um livro sobre armas químicas publicado nos Estados Unidos em 2000 o descreve como "um dos químicos mais tóxicos conhecidos", mas observa que não há informação suficiente disponível. Em 2008, Mirzayanov publicou um livro sobre o assunto, no qual também divulgou parcialmente as fórmulas – mas sem detalhes mais específicos.

Mas pesquisadores altamente especializados nos EUA e no Reino Unido poderiam não só conhecer a fórmula exata do agente nervoso como também ter suas próprias amostras, segundo um toxicologista alemão que prefere ficar no anonimato. "Presumo que quantidades mínimas tenham sido produzidas para testar as propriedades físico-químicas e toxicológicas e para ter substâncias comparativas para a analítica química moderna", acrescenta.

No caso de Skripal, a análise foi realizada no laboratório de química de última geração da instalação militar de Porton Down, perto de Salisbury. "Se o Reino Unido é capaz de identificar a estrutura molecular da substância usada e também os subprodutos, a origem dessa substância pode ser claramente identificada", explica o toxicologista.



"Impressão digital"

"Na síntese do Novichok tem que haver um catalisador: uma reação entre dois componentes começa e para imediatamente se não houver esse terceiro componente", ressalta Mirzayanov. "Os ingleses parecem conhecer esse catalisador, o chamado Produto 33, uma variante russa do gás VX. Muito provavelmente esse catalisador foi usado no Novichok. Ele é como uma impressão digital."

Isso também foi confirmado pelo perito em armas químicas Ralf Trapp, numa entrevista ao canal de televisão público alemão ZDF. "Há impressões digitais, assinaturas que vêm das matérias-primas e dos produtos intermediários utilizados na produção desse agente de guerra química. Essas podem ser tanto distribuições de isótopos como contaminações que podem ser encontradas no agente. Se você tem acesso a essas matérias-primas, é possível comprovar que se trata de um agente químico oriundo de um determinado laboratório", explica.

O toxicólogo alemão afirma que, em princípio, não é difícil identificar o Novichok, que não é gasoso, mas sólido. "A substância deve ter sido liberada no ar como pó ou ter sido pulverizada sobre a pele no formato de uma solução", diz. O composto é muito estável. "Certamente foram encontrados resíduos suficientes sobre as roupas ou os objetos próximos dessas pessoas", avalia. Além disso, o veneno pode ser detectado no corpo da vítima.

Erro do Ocidente

Em declaração conjunta, o Reino Unido e seus aliados instaram a Rússia a cooperar com a Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq) e divulgar seu programa de Novichok. Mas por que ele é secreto?



A União Soviética agiu que essa substância não fosse incluída nas negociações de desarmamento da Convenção sobre Armas Químicas. Entre a conclusão das negociações e a entrada em vigor do acordo, em 1997, houve uma pausa. Durante esse tempo, a existência do Novichok se tornou conhecida. Mas ele não aparece na lista de substâncias proibidas. Assim, o Novichok não viola o texto, mas atenta contra o espírito da convenção.

"O Ocidente fez vista grossa para muito do que aconteceu na Rússia – e perdeu", opina Mirzayanov. Para ele, os russos conseguiram ludibriar o Ocidente. "O Ocidente pensava que na Rússia estava sendo estabelecida uma ordem democrática, uma sociedade aberta, e que o problema iria se resolver por si só. Eles subestimaram o caráter do regime russo, que não quis divulgar os segredos do Novichok. Era a primeira vez que eles desenvolviam seu próprio agente de guerra química e se orgulhavam disso." Todos os outros agentes nervosos, como sarin ou VX, foram desenvolvidos no exterior.

Agora seria necessário obrigar a Rússia a incluir o Novichok na lista de substâncias proibidas pela Opaq, propõe Mirzayanov. Isso demoraria anos, mas os governos ocidentais poderiam ter sucesso na empreitada.

Caso a Rússia realmente esteja por trás do ataque, fica a pergunta do porquê de ter sido usado um veneno que pode ter a origem detectada. "Era óbvio que a substância seria identificada", diz o toxicólogo. "Talvez a intenção fosse mandar um recado, do tipo 'podemos nos permitir agir também em outros países contra cidadãos renegados de nosso país'", diz. Para ele, essa seria uma explicação.

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