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Opinião: Onde a história pode começar a mudar

Michael Knigge

25/03/2018 07h15

Ao irem aos milhares às ruas do país por um maior controle de armas, os jovens mostraram que não se pode aceitar como normal o que claramente não : que a liberdade de carregar armas é mais importante que a vida.No verão passado, quando tinha acabado de me mudar com a minha família da Alemanha para a capital Washington, para trabalhar aqui como correspondente, nós fomos a uma concessionária num subúrbio em busca de um carro. Gostamos de um, e os atenciosos funcionários pediram que esperássemos enquanto buscavam alguns documentos relevantes. Foi quando um homem, com uma pistola no coldre, entrou na loja. Eu e minha mulher congelamos, mas tentamos fingir que isso era normal e que não estávamos com medo, para não atrair atenção para gente.

Os outros clientes claramente também haviam notado o homem, mas, como nós, fingiram que não era nada além do comum. Nosso filho de 10 anos não: ele não conseguia tirar os olhos do homem, repetidamente dizendo que haviam alguém armado a alguns metros de nós e que isso não era normal. Discretamente, dissemos a ele que ele estava certo, mas também explicamos que ele deveria parar de olhar para o homem, que, com olhar desaprovador, deixava claro que não estava gostando da atenção de nosso filho.

Quando um funcionário finalmente voltou com os documentos, discretamente o informamos que havia um homem armado na loja. Ele deu um suspiro e, de forma silenciosa, disse que sabia e que isso havia assustado todo mundo na loja, mas que não havia muito a ser feito, porque, na Virginia, é legal andar exibindo sua arma em público.

Menos de quatro meses depois, eu era parte do batalhão da imprensa que foi até Sutherland Springs, um vilarejo esquecido do Texas, para cobrir o massacre de 26 pessoas numa igreja. Além do número de vítimas e das especulações sobre os motivos do atirador, havia muito pouco sobre o que noticiar. O que me marcou foi o forte sentimento de apatia que parecia emanar de quase todo mundo lá. Moradores estavam em choque e luto, mas, quando indagados, disseram que nada poderia ser feito: é assim que as coisas são.

Há dois dias, escolas em Washington ficaram fechadas devido a uma nevasca, porque as condições para dirigir eram perigosas para os ônibus escolares. A neve que caiu nunca teria levado ao cancelamento de aulas na Alemanha. Mas o que parece ser precaução em excesso, na verdade faz sentido e protege vidas. Melhor prevenir que remediar.

O que me chamou a atenção naquele dia é que as crianças dos EUA estão mais bem protegidas da neve do que das armas, como mostrou o recente massacre na escola em Parkland, Flórida. Mas, em vez de se debater o acesso fácil às armas como causa da violência armada, é amplamente aceito que escolas não podem se tornar "alvos fáceis” e precisam se prevenir com mais pessoas armadas para evitar massacres.

E isso me traz à "Marcha pelas nossas vidas” em Washington, onde estive presente. Para ser sincero, estava cético de que isso poderia mudar alguma coisa, mesmo tendo ficado impressionado por como os estudantes de Parkland responderam ao terrível massacre que devastou a comunidade. Eles tematizaram a questão das armas de form lúcida e envolvente, de forma jamais feita antes. Mais importante: mantiveram o assunto em voga dia após dia.

Mesmo assim, eu estava reticente, porque, não se engane, a influente Associação Nacional do Rifle, seus lobistas e aliados políticos estão acostumados a esperar até que o ultraje pela violência armada diminua, para depois levar adiante sua missão, que é tornar os EUA uma sociedade de cidadãos armados. E, a julgar pelos seus bem-sucedidos esforços para expandir o livre porte de armas em vários estados, fizeram bastante progresso.

Mas, após ir à marcha em Washington, estou menos pessimista de que passos sérios em direção ao controle de armas são algo impossível. E isso não é só apenas pelo fato de a multidão marchando em Washington ter claramente uma estratégia, ameaçando políticos que se oponham ao controle de armas. Mas também porque a multidão concentrada em Washington e pelo país representa uma grande parcela da sociedade: família, alunos escolares, estudantes universitários, trabalhadores, aposentados, gente de diferentes raças e diferentes partes do país.

Para eles, parecia estar claro: a "Marcha por nossas vidas” não era algo isolado ou o fim da linha, mas o começo de uma longa batalha para tornar os EUA mais seguros. Se esse esforço será bem-sucedido, ainda é preciso esperar. Mas o que os jovens de Parkland e de outras partes do país conseguiram até agora é inestimável. Eles carregaram nós, o assim chamados adultos, nos ombros e nos chacoalharam de nossa complacência e nos tiraram da apatia que nos levou a aceitar como normal o que claramente não é: que a liberdade de carregar armas é mais importante que a vida. Isso é uma visão distorcida do senso de liberdade e vida em sociedade.

Michael Knigge é correspondente da DW em Washington.

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