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As novas expressões do antissemitismo na França

Alexandre Schossler

29/03/2018 12h18

Ódio aos judeus praticado pela extrema direita não é mais o principal problema. Comunidade judaica e historiadores afirmam que hoje o perigo vem principalmente da extrema esquerda e de jovens muçulmanos.A França tem a maior comunidade judaica da Europa e a terceira maior do mundo, atrás apenas de Israel e dos Estados Unidos. Cerca de meio milhão de judeus vivem no país europeu. A comunidade judaica é muito presente e atuante no país e está bem integrada na sociedade. Mesmo assim, ataques de cunho antissemita não são raros.

Leia mais: Opinião: Não há dois pesos e duas medidas para o antissemitismo

Segundo o pesquisador Jean-Yves Camus, que estuda os movimentos extremistas, o número de ataques está em queda, mas eles estão se tornando mais violentos. Em 2017 foram registrados 311. Um terço das vítimas de racismo na França são judeus.

Um caso que ganhou notoriedade pela sua brutalidade e chocou a sociedade francesa foi o assassinato da judia Mireille Knoll, de 65 anos, que sobrevivera à ocupação nazista da França.

O diretor do escritório da Fundação Konrad Adenauer em Paris, Nino Galetti, declarou à agência de notícias EPD que o antissemitismo está aumentando na França. Segundo ele, os ataques não vêm mais apenas da cena de extrema direita, mas são cometidos também por representantes da extrema esquerda e por jovens muçulmanos.

Representantes da comunidade judaica acusam a extrema esquerda de ser portadora de um novo tipo de antissemitismo, disfarçado na crítica ao Estado de Israel.

"O antissionismo e o crescente ódio a Israel funcionam como uma embalagem para disfarçar o antissemitismo, torná-lo socialmente palatável e até mesmo legitimá-lo", afirmou o Serviço de Proteção da Comunidade Judaica da França.

Porém, a presidente da associação da comunidade judaica, Francis Kalifat, afirmou que a maioria dos atos violentos contra os judeus franceses são praticados por membros da comunidade muçulmana. A França abriga também a maior comunidade islâmica da Europa, com 5 milhões de pessoas.

"O antissemitismo tradicional na França, praticado pela extrema direita ou por círculos conservadores católicos, praticamente não desempenha mais um papel. Hoje há duas novidades: por um lado cresce o antissemitismo violento da extrema esquerda, que se mistura com antissionismo. A verdadeira novidade, porém, é o antissemitismo muçulmano", afirmou o historiador Georges Bensoussan à emissora Deutschlandfunk.

O governo francês já reconheceu o problema. O presidente Emmanuel Macron e o primeiro-ministro Édouard Philippe anunciaram medidas para tentar combater as tendências antissemitas dentro da sociedade. Elas incluem o combate ao discurso de ódio na internet e ações preventivas, como a inclusão dos temas racismo e antissemitismo no currículo escolar.

O debate sobre o antissemitismo na França é marcado ainda por outro aspecto: o da possibilidade de emigração para Israel. O próprio governo israelense incentiva os judeus franceses a deixarem a França, com o argumento de que eles estariam mais seguros em Israel.

E, de fato, entre 2013 e 2017, cerca de 27 mil judeus franceses migraram para Israel. O pico foi em 2015, quando quase 8 mil trocaram de país. Desde então, recuou o número de judeus que emigraram por ano, mas o fluxo continua maior do que era antes de 2013.

A coluna Zeitgeist oferece informações de fundo com o objetivo de contextualizar temas da atualidade, permitindo ao leitor uma compreensão mais aprofundada das notícias que ele recebe no dia a dia.

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