Brincando com fogo: os 50 anos da Fração do Exército Vermelho da Alemanha

Matthias von Hein (jps)

Membros do grupo terrorista de esquerda - também conhecido como a Gangue Baader-Meinhof - cometeram seu primeiro ataque em 2 de abril de 1968, ao incendiar duas lojas em Frankfurt.À meia-noite do dia 3 de abril de 1968, a polícia de Frankfurt registrou dois incêndios em duas lojas de departamento em curto espaço de tempo. Era a primeira hora do terrorismo de esquerda na Alemanha.

Os atentados não deixaram feridos, mas os prejuízos materiais chegaram a dois milhões de marcos. Depois que fogo foi controlado, os bombeiros descobriram quatro garrafas plásticas com um líquido altamente inflamável, uma pilha e um despertador.

Os autores foram presos poucos dias depois. Entre eles estava o carismático e arrojado Andreas Baader, de Munique, e Gudrun Ensslin, filha de um pastor protestante.

O episódio revelou que um grupo de estudantes havia decidido radicalizar seu protesto em atos de violência. Pouco mais de um ano depois, Baader e Ensslin se juntaria a outros pessoas, incluindo a jornalista Ulrike Meinhof, para formar oficialmente a Fração do Exército Vermelho da Alemanha, conhecida pela sigla RAF ou como a Gangue Baader-Meinhof.

Cinquenta anos depois, a RAF ainda alimenta o noticiário.

Três antigos membros do grupo ainda estão em fuga. Em novembro passado, o Departamento Federal de Investigações da Alemanha (BKA) publicou novas fotos de Ernst-Volker Staub, Burkhard Garweg e Daniela Klette, da RAF. Em 1990, eles passaram para a clandestinidade e no final da década voltaram ao radar das autoridades após uma série de roubos. Desta vez, os crimes não serviram a nenhum objetivo político aparente: seu único propósito era financiar a vida dos fugitivos.

A RAF ainda não é história passada, principalmente porque os assassinatos, atentados a bomba e ataques realizados pelo grupo entre 1970 e 1998 – que deixaram 33 mortos 200 feridos – não foram todas solucionados ou explicados. Não é história passada, até porque desculpas tardias ainda estão provocam reações fortes nas pessoas: no outono passado, por exemplo, a ex-integrante da RAF Silke Maier-Witt se encontrou com o filho do empresário Hanns Martin Schleyer, que foi assassinado em 1977 pelo grupo, e pediu perdão pelo crime.

A RAF não é história passada, apesar de o terrorismo de extrema-esquerda ter passado a fazer parte de exposições em museus, um movimento que ganhou ainda mais impulso com o retorno à Alemanha no ano passado do Landshut, o avião da Lufthansa sequestrado pelo grupo em 1977, que havia passado os últimos anos enferrujando em um aeroporto no Brasil. Agora, o avião vai se tornar parte da exposição de um museu em Friedrichshafen.

Cinquenta anos depois, também ainda não está claro qual papel os serviços de inteligência da Alemanha desempenharam quando os membros do movimento de protesto estudantil do final dos anos 1960 e 1970 começaram a mostrar inclinação para o terrorismo.

O agente provocador Peter Urbach

Uma figura chave para a transformação dessa cena estudantil foi Peter Urbach, um informante dos serviços de inteligência da Alemanha Ocidental, afirmou à DW o cientista político Wolfgang Kraushaar. "Urbach desempenhou um papel importante, que não pode ser avaliado de forma conclusiva, ao transformar um núcleo pequeno, mas duro, da cena de protesto em agrupamentos de militantes e, eventualmente, em círculos dos quais o terrorismo emergiu", disse Kraushaar.

Urbach já estava ativo em 11 de abril de 1968 - o dia em que o líder estudantil Rudi Dutschke foi baleado e gravemente ferido por um ativista de extrema-direita.

Após o atentado, dois mil estudantes furiosos marcharam até a sede da editora Axel Springer, em Berlim Ocidental. O conservador tabloide Bild, que pertencia à empresa, estava se posicionando fortemente contra os protestos estudantis e atacando o próprio Dutschke em reportagens.

Kraushaar disse que Urbach estava entre os manifestantes que foram até a sede da Axel e que ele carregava uma cesta de vime cheia de coquetéis Molotov, que foram distribuídos para os manifestantes, já em um estado de indignação e fúria.

"Quando as primeiras bombas de gasolina não alcançaram o que os manifestantes esperavam alcançar, que era incendiar os carros da empresa, Urbach mostrou o que eles tinham que fazer", disse Kraushaar. "Primeiro eles viraram os carros, então foi mais fácil chegar aos tanques de gasolina embaixo. Então eles atearam fogo. Todos os carros queimaram."

Esforço para desacreditar

Kraushaar disse que Urbach também foi a primeira pessoa a distribuir armas de fogo para os manifestantes de esquerda. Em sua opinião, Urbach era um agente provocador a serviço do Estado que tinha considerável influência nas ações da oposição não-parlamentar da Alemanha.

Isso levanta a questão sobre o que motivou a administração da cidade-estado de Berlim, e possivelmente aliados da Alemanha Ocidental como os Estados Unidos, França e Grã-Bretanha – que controlavam a cidade até a reunificação em 1990 – a dar liberdade a tal homem.

"Eles queriam que manifestantes com inclinações mais fortes desacreditassem a si mesmos e aos outros e, em última instância, desacreditar com atos de violência todo o movimento ativo não-parlamentar de esquerda", disse Kraushaar.

Embora a RAF fosse o grupo terrorista de extrema esquerda mais conhecido, não era o único. Havia também, por exemplo, as Células Revolucionárias; O Movimento de 2 de junho, em homenagem ao dia do assassinato do estudante Benno Ohnesorg por um policial em 1967; e os Tupamaros da Berlim Ocidental, que tentaram bombardear o Centro Comunitário Judeu de Berlim em 9 de novembro de 1969 – o 31º aniversário da Noite dos Cristais.

O centro estava cheio, com cerca de 250 pessoas presentes. Felizmente a bomba não explodiu. Aqui também os serviços de inteligência da Alemanha estavam envolvidos. Em 2005, foi revelado que a bomba havia sido repassada pelos serviços de inteligência para Urbach. "Imagine só: uma instituição judaica foi atacada com uma bomba dos serviços de inteligência fornecida por Peter Urbach", disse o historiador Michael Sontheimer. "Este foi o início do terrorismo na Alemanha Ocidental, em Berlim Ocidental".

Em retrospecto, ficou claro que as agências governamentais estavam preparadas para despejar ainda mais combustível em um incêndio que já estava acontecendo.

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