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Onda de greves desafia projeto de Macron para França

Andreas Noll

03/04/2018 11h39

Com série de paralisações, sindicatos iniciam queda de braço com presidente, que tenta cortar privilégios de funcionários públicos e avançar com reformas para modernizar economia. Resultado pode dar tom de seu mandato.Começou nesta terça-feira (03/04), com impacto especialmente no vital setor ferroviário, uma série de greves que ameaçam paralisar boa parte da França, em desafio aos planos do presidente Emmanuel Macron de modernizar a segunda maior economia europeia.

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Só entre os funcionários da empresa pública de trens SNCF estão programados 36 dias de greve até o final de junho. Também há paralisações previstas nos setores aéreo, energético e de coleta de lixo, ainda que, até agora, em menor escala que no ferroviário.

A SCNF – que opera, entre outros, os famosos trens de alta velocidade TGV – está à frente dos protestos. Endividada em 45 bilhões de euros, ela seria reestruturada, segundo os planos do governo, antes de o mercado se abrir a competidores do setor privado, como mandam as diretrizes europeias.

Os planos do presidente contemplam acabar com uma série de privilégios na empresa pública, o que irritou os sindicatos. Entre as mudanças na SCNF, que detém o monopólio do mercado na França, estaria o fim dos contratos vitalícios de trabalho e do aumento salarial automático anual.

“Estamos pedindo a mesma coisa que há várias semanas: que o governo reconsidere seu plano. Eles têm que começar novamente do início”, afirmou Philippe Martinez, chefe da centenária Confederação Geral do Trabalho.

Se o jovem presidente, de 40 anos, triunfar onde nenhum de seus antecessores conseguiu, terá caminho aberto para seguir com suas outras reformas, como a do setor educacional e previdenciário, parte de seu projeto de governo.

O que seus antecessores não conseguiram

Desde que assumiu, há cerca de um ano, Macron vem conseguido vencer quedas de braçocom diversos setores e avançado com grande parte das reformas que prometeu, como a de flexibilizar o mercado de trabalho. Mas desta vez são os sindicatos ferroviários que capitaneiam os protestos – e eles têm fama de serem duros.

Este é o maior desafio do mandato de Macron. A última tentativa séria de reformar o setor ferroviário foi em 1995, e as greves paralisaram o país por semanas. O então premiê Alain Juppé acabou renunciando, e as reformas foram engavetadas.

A reforma do governo Macron prevê que, futuramente, os funcionários ferroviários recém-contratados devem renunciar aos amplos privilégios na SNCF, que incluem uma aposentadoria antecipada de dez anos.

Os sindicatos classificam a medida como um afronta e planejam uma disputa trabalhista que deve se estender até a metade do ano. Até 28 de junho, a CGT e outros sindicatos pretendem instaurar a seguinte rotação semanal para seus membros: dois dias de greve e três dias de trabalho.

Macron quer tornar lucrativa a SNCF, que ganha 3 bilhões em dívidas ao ano. Um dos passos para isso seria acabar com os privilégios dos funcionários, considerados obsoletos pelo governo. Mas os sindicatos argumentam que a dívida foi causada por excessivos investimentos em trens de alta velocidade e acusam Macron de abrir caminho para a privatização, o que ele nega. A ideia é que o setor de trens seja aberto à competição estrangeira em 2020, gradualmente.

Ao mesmo tempo, os funcionários do setor da coleta de lixo iniciaram uma paralisação por tempo indeterminado em várias regiões da França. Também neste caso, a pensão é o foco dos protestos. A reivindicação é de que os funcionários possam entrar em aposentadoria cinco anos antes.

Em áreas nas quais a saúde do trabalhador está mais propensa a riscos – varredores de rua ou aqueles que trabalham em pátios de reciclagem, por exemplo – devem poder se aposentar com dez anos de antecedência. Além disso, eles cobram um aumento no ordenado.

Caminho para reforma da previdência

E durante um período de três meses, os funcionários da indústria de eletricidade e gás também querem protestar. Neste caso, a greve é um sinal contra a liberalização do setor, outra afronta para os sindicatos, que querem ver todos os funcionários do setor empregados no serviço público. Já as exigências dos funcionários da companhia aérea Air France são comparativamente claras: eles reivindicam um aumento salarial de 6%.

Se os sindicatos tentarem encurralar o governo de vários lados, a greve na ferroviária estatal SNCF pode vir a ser particularmente perigosa para Macron e seu primeiro-ministro Edouard Philippe.

De acordo com pesquisas, a maioria dos franceses apoia a redução de privilégios, mas especialistas alertam: a paralisação da vida pública na França por mais de suas semanas pode deixar os franceses inquietos e, consequentemente, aumentaria a pressão sobre o governo.

Numa comparação com 1995, desta vez há pontos a favor de Macron. Ao contrário do então presidente Jacques Chirac, Macron baseou sua campanha presidencial numa agenda de reformas. Além disso, segundo as pesquisas, cresceu a proporção de franceses que, depois de décadas de debate, aceitam a necessidade de uma reformulação do Estado.

Embora o ponto de partida para a prova de força entre governo e sindicatos seja claro, poucos especialistas ousam prever o resultado. O momento político da França é tido como imprevisível.

Uma coisa é certa: se o governo ceder às pressões das ruas, a grande reforma previdenciária planejada para 2019 – possivelmente o elemento fulcral do mandato de Macron – deve ficar fora de cogitação, assim como as mudanças no sistema educacional.

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