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Coca-Cola usa tática de empresas de cigarros, diz estudo

Ben Knight (fc)

04/04/2018 15h12

ONG afirma que multinacional tenta preservar modelo de negócios ultrapassado ao direcionar propaganda às crianças e negar impacto de seus produtos na saúde de consumidores.A ONG europeia Foodwatch acusou nesta quarta-feira (04/04) a Coca-Cola de tentar preservar seu modelo de negócios "completamente ultrapassado" ao adotar táticas desesperadas, similares às de empresas gigantes de tabaco, para tentar negar o impacto de seus produtos na saúde dos consumidores.

A associação de consumidores europeia pediu também ao governo alemão que siga o exemplo de vários outros países europeus, mais recentemente o Reino Unido, na introdução de um "imposto sobre o açúcar", que já incentivou empresas de outros países a criar novas receitas com menos açúcar.

"As bebidas açucaradas são os novos cigarros", declarou Martin Rücker, diretor da Foodwatch Alemanha, em coletiva de imprensa em Berlim, numa analogia reproduzida também na capa do novo relatório da ONG: o estudo mostra a imagem do icônico caubói das antigas propagandas da Marlboro segurando uma garrafa de Coca-Cola em vez de cigarros.

Rücker estava sentado ao lado de uma cadeira vazia com a logomarca da multinacional de refrigerantes colada na parte de trás. O assento era destinado a Patrick Kammerer, chefe do departamento de relações públicas da Coca-Cola na Alemanha, que não aceitou o convite para comparecer à coletiva.

A organização acusou a multinacional americana de usar medidas irresponsáveis de marketing e lobby para proteger sua participação no mercado global, estimada em 24% (chega a até 36% na Alemanha), especialmente por "visar conscientemente crianças e jovens" em suas campanhas publicitárias.

Influenciando os influenciadores

Em seu relatório de 108 páginas, a Foodwatch mostrou que a empresa recrutou dezenas de estrelas do Youtube e Instagram, alguns dos quais com milhões de jovens seguidores na Alemanha, para fazer propaganda de seu principal refrigerante.

A Coca-Cola Alemanha alegou que não direciona nenhum comercial para crianças menores de 12 anos, mas a Foodwatch lembrou dos acordos da multinacional com a seleção alemã e sua campanha publicitária anual com Papais Noéis como prova de que a gigante dos refrigerantes estava claramente tentando conquistar jovens consumidores.

"Quando a buzina emite o som e o caminhão de Natal brilhante da Coca-Cola se aproxima, os sonhos de muitas crianças se realizam", diz o slogan de um comercial alemão com o Papai Noel.

A Foodwatch viu paralelos com a indústria do tabaco na forma como a Coca-Cola nega que exista qualquer prova científica clara que seus refrigerantes são ruins para os consumidores. Quase como para ilustrar esse ponto, a Coca-Cola Alemanha divulgou uma declaração antes da coletiva de imprensa desta quarta-feira para evitar críticas da Foodwatch.

"A obesidade é um fenômeno complexo. Se houvesse uma conexão simples e direta entre o consumo de bebidas açucaradas e obesidade, isso deveria estar nas estatísticas", afirma o porta-voz Patrick Kammerer no site da Coca-Cola. "Mas, de acordo com os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), essa suposição não é verdadeira. Um exemplo: em países como Finlândia, onde jovens consomem muito pouco refrigerante, há uma alta taxa de excesso de peso. Na Holanda é exatamente o oposto."

Rücker, da Foodwatch, disse que esse era exatamente o tipo de ofuscação que as empresas de tabaco usavam para negar a conexão entre cigarros e câncer. "Os produtos são sistematicamente dados como inofensivos. Eles não refrescam: eles causam diabetes. E a Coca-Cola está fazendo tudo o que pode para preservar seu modelo de negócios completamente ultrapassado."

Tanto a OMS como a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) afirmaram que o mundo está à beira de uma "epidemia de obesidade" que está causando cada vez mais casos de diabetes, gota, doenças cardíacas e câncer de cólon.

Segundo a Foodwatch, 80% dos estudos financiados de forma independente encontraram uma ligação entre bebidas açucaradas e a obesidade. A ONG também constatou que a Alemanha está entre os dez países com as taxas mais altas de diabetes, e que meninos entre 14 e 17 anos consomem, em média, 0,5 litro de bebidas açucaradas por dia.

Alemanha faz pouco progresso

O "imposto sobre o açúcar" no Reino Unido entrará em vigor nesta sexta-feira, e as empresas de bebidas terão dois anos para se adequarem à medida. Para bebidas com um teor de açúcar entre 5,1 e 8 gramas por cada 100 ml, as companhias britânicas deverão pagar 0,18 libra (cerca de 0,85 real) por litro produzido, e 0,24 libra (cerca de 1,15 real) para as bebidas com mais de 8 gramas. Outros países europeus introduziram um imposto semelhante, incluindo Portugal, França, Bélgica, Hungria, Noruega, Finlândia e Estônia.

Apesar dos avisos de que isso resultaria em preços mais altos para os consumidores e em latas menores, muitas companhias reagiram introduzindo novas linhas de produtos com baixo teor de açúcar. Uma empresa britânica de refrigerantes, a Irn-Bru, eliminou totalmente sua receita original com alto teor de açúcar.

Então, o que está deixando a Alemanha para trás? Em uma rotineira conferência de imprensa nesta quarta-feira, Friederike Lenz, porta-voz do Ministério da Alimentação, Agricultura e Proteção dos Consumidores, disse que os planos para reduzir o açúcar nos alimentos – prometidos no acordo de coalizão do novo governo Angela Merkel – ainda não foram definidos, mas que um imposto sobre o açúcar não faria parte deles.

"Um dos motivos pelos quais a Alemanha está fazendo poucos progressos é que o Ministério da Alimentação é também responsável pela proteção da saúde dos consumidores", contou Oliver Huizinga, diretor de campanhas da Foodwatch. "Ao contrário de outros países, aqui os interesses do lobby do açúcar e da indústria de alimentos estão representados no mesmo ministério que cuida também da proteção dos consumidores – e seus interesses se contradizem diretamente."

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