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O que ficou de 68 entre os jovens de hoje na Alemanha?

Helena Weise (md)

11/04/2018 06h14

Há 50 anos, o líder estudantil Rudi Dutschke era ferido gravemente em um atentado. Ícone dos protestos de então na Alemanha, ele hoje é lembrado por poucos militantes no país, que preferem o pragmatismo à ideologia."Que povo dividido, sem rosto, financeiramente rico e mentalmente cada vez mais pobre existe neste Estado." Um duro julgamento sobre a Alemanha dos anos 60 – da boca de um estudante. Já com 20 e poucos anos, Rudi Dutschke entrava para a história como porta-voz do movimento de 68. Incansavelmente, protestou contra a autoridade do Estado, o sistema e denunciava uma exploração capitalista. Ele polarizava a opinião pública. Mas o que aconteceu com o idealismo político daqueles dias? Dutschke é um exemplo para a juventude de hoje?

"Felizmente não", diz Bernhard Heinzlmaier. O cofundador e presidente honorário do Instituto de Pesquisa da Cultura Jovem em Hamburgo vê em Dutschke uma figura do movimento de 68 de causar medo. "Essa obstinação, essa ânsia, a promessa total de salvação – ninguém hoje quer viver no sistema que Rudi Dutschke tinha em mente.”

Muito pelo contrário: para Heinzlmaier, as grandes qualidades da juventude atual são sua serenidade, seu individualismo e, portanto, sua rejeição do ideal da crítica do sistema. Segundo ele, hoje em dia as pessoas tentam estudar bem, conseguir um bom emprego e lidar com a política apenas marginalmente. O que ele considera uma coisa boa. "Devemos ficar felizes por todos os dias em que a política não está no centro da vida das pessoas."

Isso soa como a tão esperada absolvição para a indiferença política da qual a juventude de hoje é acusada. Apolítico? Sim, mas por um bom motivo. As condições sob as quais o estudante alemão médio de hoje cresceu são comodamente seguras. Ele cresceu convivendo com os antigos pesadelos do movimento de 68, como o capitalismo – globalização e mercado mundial são parte integrante da sua vida quotidiana.

"Mas qual seria o sistema alternativo?", questiona Johanna Münzel. A estudante de ciência política e integrante do diretório estudantil da Universidade de Bonn acredita ser inútil uma atitude teimosa de se opor a tudo. Por exemplo, ela não iria a uma manifestação contra o capitalismo. "Eu acho isso muito abstrato e negativo – porque é simplesmente o sistema em que vivemos." A militante estudantil acredita que, mesmo não sendo o sistema ideal, o capitalismo não deve ser derrubado, podendo ser modificado, através de pequenos ajustes. O nome Rudi Dutschke não diz nada a ela.

Em vez de gritos, posts no Twitter

Parece mesmo que os antigos integrantes do movimento de 68 estavam certos e que o idealismo da época deu lugar a um implacável pragmatismo. Isso pode ser menos sexy, mas seria também apolítico?

Para Marie Rosenkranz, codiretora da campanha Demokratie-braucht-dich (democracia precisa de você), do think tank Polis180, a imagem pintada por Bernhard Heinzlmaier não é digna da atual geração de jovens. "Nossa geração é extremamente política", diz a militante, de 25 anos. Mesmo que eles tenham dito adeus ao idealismo e à visão política, segundo ela, cada vez mais jovens estão interessados ??em política. Isso é indicado também por um estudo da Shell de 2015, segundo o qual 41% dos entrevistados afirmaram ser interessados em política, comparados a 30% em 2002.

Nem sempre esse interesse político é visível publicamente, especialmente para as gerações mais velhas. O que era gritado em slogans nas ruas há 50 anos hoje é tuitado. Quem deseja lutar para proteger o meio ambiente, começa usando sapatos veganos ou levando sua própria sacola para o supermercado ou caneca térmica ao café. "Muitos menosprezam esses militantes políticos mais discretos”, afirma Marie. Segundo ela, ao fazer o que fazem, eles politizam a vida pública.

Alguns tópicos são difíceis de serem contornados desde então. A proteção ambiental, por exemplo, vai lenta, mas seguramente entrando na consciência política. Seja no protesto contra o acordo de livre-comércio TTIP, na luta pela proibição do glifosato ou durante a Conferência Mundial sobre o Clima em Bonn em 2017 – a voz da geração jovem vem ganhando volume. "Nossos filhos nos perguntarão depois sobre o que fizemos contra o aquecimento global", afirma a estudante Johanna Münzel.

Ela acredita que o tema com o qual os jovens se ocupam não pode ser ditado a eles. Não adianta, segundo ela, pedir "sejam mais idealistas”, porque, no final, eles é que decidirão. E talvez o idealismo não seja necessário para fazer a diferença politicamente. Por mais importante que tenha sido a geração de 68, a juventude de hoje não precisa se libertar de uma geração de pais marcada pela Segunda Guerra Mundial, nem quer lutar contra o sistema. É bem possível que ela, por isso, possa até mesmo abrir mão totalmente de um líder carismático como Rudi Dutschke.

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