Berlim quer apagar passado colonial de suas ruas

Duas vias e uma praça com nomes de governadores das antigas colônias na África devem agora homenagear figuras que resistiram ao domínio alemão. Mudança seria vitória para ativistas locais.Berlim pretende mudar nomes de ruas e de uma praça ligados ao passado colonial da Alemanha e que remetem a personagens acusados de terem cometidos atrocidades. Em vez de antigos governadores coloniais e exploradores, os locais devem homenagear habitantes das ex-colônias que resistiram ao jugo alemão.

A iniciativa vingou depois de mais de uma década de debate. Os três maiores partidos da assembleia distrital de Berlin-Mitte aprovaram na noite desta quarta-feira (11/04) uma recomendação de novos nomes para as ruas do chamado Bairro Africano (Afrikanisches Viertel), no noroeste da capital alemã.

"A decisão final pode levar mais ou menos um mês – a data ainda deve ser anunciada em outra audiência", disse a porta-voz Melita Ersek. "Mas é bastante comum que as recomendações sejam adotadas."

A moção para retirar os nomes associados ao brutal passado das antigas colônias alemãs na África marca uma vitória para ativistas locais que vinham defendendo a mudança.

Glorificação do colonialismo

O Bairro Africano fica hoje numa vizinhança multiétnica de classe trabalhadora. No local, há ruas e uma praça que homenageiam o fundador do Sudoeste Africano Alemão (atual Namíbia), Adolf Lüderitz; Gustav Nachtigal, antigo comissário imperial para as colônias do Togo e de Camarões; e o fundador da África Oriental Alemã (atual Tanzânia), Carl Peters.

"O Bairro Africano ainda glorifica o colonialismo e seus crimes", disseram membros do conselho dos partidos Verde, Social-Democrata e A Esquerda em comunicado. "Isso entra em conflito com a nossa compreensão da democracia e causa danos duradouros à imagem da cidade de Berlim."

Já vereadores dos partidos Democrata-Cristão (CDU), do Partido Liberal Democrático e da Alternativa para a Alemanha (AfD) votaram contra a mudança, mas acabaram sendo derrotados pela maioria dos votos, vinda dos outros três partidos.

Embora a troca dos nomes dos logradouros pareça um fato inevitável, o jornal Tagesspiegel apontou que a mudança ainda pode ser contestada por moradores e comerciantes locais não satisfeitos com eventuais custos e esforços de adaptação que a iniciativa pode gerar.

Homenagens à resistência

De acordo com os planos, duas vias e uma praça devem mudar de nome. A alameda Peters (Petersallee), em homenagem a Carl Peters, passaria a ser chamada de alameda Maji Maji em um dos trechos e avenida Anna Mungunda em outro.

A rua Lüderitz, em referência a Adolf Lüderitz, ganharia o nome de rua Cornelius Frederiks. A praça Nachtigal, em memória de Gustav Nachtigal, mudaria para praça Bell.

Maji Maji foi uma rebelião armada contra contra o domínio germânico na atual Tanzânia. O levante, que ocorreu entre 1905 e 1907, é considerado a maior luta de libertação do período colonial alemão.

Anna Mungunda (1932-1959) foi uma mulher da etnia herero que se revoltou contra a administração racista dos sul-africanos brancos na Namíbia (a colônia alemã foi anexada pelo país vizinho após a Primeira Guerra Mundial). Ela acabou sendo morta em um protesto e hoje é considerada uma heroína no país.

Já Cornelius Frederiks foi o líder de uma subtribo do povo Nama que combateu os alemães durante a Revolta dos Hereros (1903-1908) na atual Namíbia.

Por fim, a praça Bell vai homenagear Rudolf Douala Manga Bell e sua mulher, Emily. Rudolf foi um rei da etnia duala, um dos grupos que habita os Camarões. Junto com a esposa ele tentou resistir e denunciar a tomada de terras dos nativos africanos pelos alemães. Ele foi enforcado pelas autoridades coloniais em 1914.

Em comparação com outros países europeus como o Reino Unido e a França, a experiência colonial dos alemães foi relativamente curta, tendo durado pouco mais de três décadas, entre 1884 e 1918. Ainda assim, os alemães se destacaram como dominadores brutais. Na Namíbia, o sufocamento da Revolta dos Hereros quase resultou no desparecimento completo de etnias locais.

Ao menos 65 mil hereros e 10 mil dos namas morreram. Esse episódio é considerado por alguns historiadores como um dos primeiros genocídios do século 20. Ainda hoje, membros das tribos exigem reparações da Alemanha. Mas Berlim rejeita qualquer possibilidade de indenização, apontando que os alemães já direcionam bastante ajuda monetária para o desenvolvimento da Namíbia.

Já a revolta Maji Maji deixou entre 250 mil e 300 mil mortos, na maioria civis que morreram de fome.

Bairro Africano

O Bairro Africano recebeu esses nome pouco antes da Primeira Guerra Mundial, quando o empreendedor Carl Hagenbeck planejou um parque com uma exibição permanente de animais e seres humanos da África – este último projeto, conhecido como Zoo Humano, era relativamente popular na Europa no início do século 20 e consistia na exibição de nativos das colônias em cenários que remetiam à África e outra regiões; muitos deles viviam com salários de subsistência.

Os planos para o parque nunca foram concluídos devido à morte de Hagenbeck, em 1913, mas várias ruas desenhadas para o complexo chegaram a ser batizadas com nomes que remetem às aventuras coloniais da Alemanha. Após a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha perdeu todas as suas colônias na África, Ásia e no Pacífico para os aliados, que dividiram entre si o espólio.

Segundo o jornal Die Zeit, outras cidades da Alemanha ainda continuam a homenagear antigos colonizadores em suas ruas e praças. Adolf Lüderitz, o fundador do Sudoeste Africano Alemão, por exemplo, ainda empresta seu sobrenome para 37 praças e ruas pela Alemanha.

Curiosamente, seu legado é visto com menos desconforto na atual Namíbia. Uma das cidades do país ainda leva seu sobrenome, assim como uma rua na capital Windhoek. Por enquanto não há planos para revogar as homenagens.

JPS/ots/afp

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