Caso Skripal deixa Londongrad apreensiva

Alexandre Schossler

O Reino Unido foi por muito tempo um porto seguro para o dinheiro de oligarcas russos, que investiam sobretudo em imóveis. Com caso de envenenamento de ex-espião, tal era pode estar perto do fim.O ataque com gás ao ex-espião russo Serguei Skripal e sua filha Yulia abalou as relações entre o Reino Unido e a Rússia e chamou a atenção para uma comunidade influente da capital britânica: a dos bilionários expatriados russos, cuja ampla presença deu à cidade o apelido de Londongrad.

Se o governo da primeira-ministra Theresa May quiser de fato impor sanções à Rússia por causa do caso Skripal, o patrimônio que esses expatriados detêm no Reino Unido seria um bom alvo.

Ameaças nesse sentido já podem ser ouvidas. Legisladores britânicos exigiram que, em retaliação ao atentado, May congele recursos no Reino Unido de pessoas ligadas ao presidente Vladimir Putin. A própria premiê falou que não há lugar para "elites corruptas" no país, e uma legislação mais rígida deve dificultar a aquisição de propriedades por meio de "laranjas" ou empresas de fachada.

É uma situação nova, pois em 2006, depois de um atentado semelhante ao ex-espião Alexander Litvinenko, que foi assassinado com plutônio, as reações britânicas foram bem mais contidas.

Não se sabe quantos bilhões de libras em dinheiro russo há no Reino Unido, mas ao menos parte desse patrimônio é bem visível, por exemplo na forma de imóveis.

Um city tour que se tornou famoso em Londres é oferecido pelo ativista anticorrupção Roman Borisovitch e se chama Kleptotour. De ônibus, Borisovitch passa com seus visitantes diante de algumas das principais mansões e apartamentos de magnatas russos na capital britânica.

Por exemplo, o apartamento com vista para o Tâmisa do vice-primeiro-ministro Igor Chouvalov, avaliado em 13 milhões de euros e que o político russo conseguiu adquirir mesmo tendo um salário anual de 130 mil euros.

Ou então a mansão do oligarca Roman Abramovitch, dono do popular clube de futebol Chelsea. Ela fica a cerca de cem metros da embaixada da Rússia no Reino Unido, na exclusiva rua Kensington Palace Gardens, e perto da mansão do oligarca americano de origem ucraniana Leonard Blavatnik.

A ONG Transparência Internacional identificou em Londres ao menos 160 propriedades, num valor total de 5 bilhões de euros, que pertencem a "indivíduos com alto risco de corrupção", dos quais 20% são russos.

"Os russos ricos são fascinados pela sociedade britânica. Eles sonham em imitar os lordes", explica o empresário Serguei Pougatchev, que se mudou para Londres depois de ter sido despojado de seus ativos na Rússia, ao jornal Le Monde. Hoje Pougatchev vive no sul da França.

Borisovitch afirma que Londres atrai os magnatas russos por causa do estilo de vida que eles podem levar na cidade, mas que o principal motivo é outro: a fácil aceitação de dinheiro sujo. "Londres é o lugar mais corrupto do mundo. Em nenhum outro lugar a concentração de dinheiro sujo por metro quadrado é tão alta como aqui", afirma.

Essa alta concentração de dinheiro russo é resultado de uma política de braços abertos conduzida pelas autoridades britânicas desde os anos 1990. Um dos instrumentos dela foram os chamados "vistos de ouro": um investimento de 2 bilhões de libras garantia a um estrangeiro um visto de permanência que, depois de cinco anos, virava autorização de residência permanente. Se o investimento fosse de 10 milhões de libras, o prazo caía para dois anos.

O controle sobre a origem do dinheiro praticamente não existia, e os verdadeiros donos de residências de luxo podiam se esconder atrás de empresas de fachada, que muitas vezes tinham sede em território britânico ultramarino.

As ligações com a política também aparentam ser próximas. O próprio Partido Conservador foi recentemente acusado de ter recebido mais de 3 milhões de libras em contribuições de dinheiro de alguma maneira ligado à Rússia.

E muitos oligarcas russos investiram pesados no esporte (como o caso de Abramovitch e também de Alicher Ousmanov e outro popular clube, o Arsenal), nas artes (Blavatnik dá nome a uma ala do museu Tate Modern) e no ensino (o mesmo Blavatnik bancou uma nova faculdade de gestão em Oxford).

Por tudo isso, há também quem diga que as reações do governo britânico contra a elite russa no país acabarão não indo muito além da expulsão de alguns diplomatas.

A coluna Zeitgeist oferece informações de fundo com o objetivo de contextualizar temas da atualidade, permitindo ao leitor uma compreensão mais aprofundada das notícias que recebe no dia a dia.

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