Imprensa do Oriente Médio se manifesta sobre ataque na Síria

Kersten Knipp (av)

Entre a mídia de língua árabe predomina o ceticismo quanto aos efeitos da ofensiva ocidental a alvos sírios. Com raras exceções, parece inabalada a expectativa de uma vitória futura da trinca Assad, Rússia, Irã.A opinião predominante é que o bombardeio das forças lideradas pelos Estados Unidos contra alvos sírios neste sábado (14/04) foi um sinal potente. Mas ele terá algum efeito?

O analista sírio Amr Kush duvida: "O ataque aéreo carece de algo essencial: um programa político que o flanqueie", escreveu na plataforma panárabe Al Araby al-Jadeed. Na noite anterior, Kush já lançara a suposição de que a ofensiva permaneceria uma ação isolada: "Por mais forte que possa ser esse ataque, não conseguirá causar a queda do regime Assad."

Pelo contrário: ele poderia até mesmo ser útil ao dirigente Bashar al-Assad e a seus dois principais aliados, a Rússia e o Irã, por faltar-lhe qualquer estratégia subsequente. Ainda assim, "talvez o ataque aéreo faça que as conversas em Genebra sobre a Síria ganhem novo impulso, com base nas resoluções das Nações Unidas".

EUA sem estratégia de longo prazo

A emissora Al-Jazeera igualmente duvida de um efeito duradouro da ofensiva militar. O colunista Ibrahim al-Marashi lembra o primeiro bombardeio dos EUA contra a Síria, em 2017, também em reação a um ataque com gás tóxico, supostamente perpetrado pelo regime Assad.

"O resultado de ambos os ataques aéreos é o mesmo: ambos são, acima de tudo, ações simbólicas, com parco efeito in loco. E ambos deixam claro que os EUA não têm qualquer estratégia de longo prazo na Síria."

Justamente nisso os americanos se distinguiriam da Rússia e do Irã, os quais sabiam muito bem o que queriam, ou seja: em primeiro lugar apoiar o presidente sírio, Bashar al-Assad. Por isso "os ataques da noite passada não impedirão a vitória de longo prazo dos dois protagonistas", assegura Marashi.

Decisiva é a forma como os próprios sírios julgaram a ofensiva, escreve o analista Hazem Saria no jornal pan-árabe publicado em Londres Al-Hayat, de orientação pró-Ocidente. Pois a reação do governo é clara: ele tentará canalizar as interpretações na direção que lhe convém.

"Os sírios em cujas cabeças caem bombas de barril não devem odiar Assad e seu regime, mas sim os Estados Unidos. Eles, que Assad ataca com armas químicas, não devem odiar a ele e a seu regime, mas em vez disso maldizer Israel", escreve Saria, resumindo assim a argumentação da impressa próxima a Damasco.



"Mesmo que Assad renunciasse, ele reapareceria"

O balanço humanitário da guerra civil não deve estar preocupando de maneira especial os aliados de Assad, supõe o jornal palestino Al Quds al-Arabi, igualmente publicado em Londres: Rússia e Irã mantêm interesses tão grandes na Síria, que considerações éticas perdem qualquer relevância.

"A Rússia não permitirá negociações em torno da cabeça de Assad, pelo simples motivo que ele é quem fornece a legitimação para a intervenção de Moscou. Também o Irã se negará terminantemente a abandonar a Síria." Deste modo o ataque de EUA, Reino Unido e França cairá no vazio.

"Pois, mesmo que Assad renunciasse de algum modo, ele reapareceria no palco político por uma porta dos fundos qualquer – exatamente como vimos com as armas químicas", presume o periódico. A alusão é clara: o regime não deveria mais dispor de armas químicas, segundo os acordos internacionais fechados. Na realidade, porém, elas existiam e foram utilizadas.

Extremos: Israel e Hisbolá

O ex-embaixador israelense nos EUA Michael Oren mostra-se otimista. "A ofensiva aérea liderada pelos Estados Unidos é de alto significado para a segurança de Israel, o Oriente Médio e todo o mundo", cita-o o jornal Jerusalem Post.

"Ele prova que Trump está pronto a defender a 'linha vermelha' que traçou em relação às armas químicas empregadas por Assad. É uma mensagem nítida e definida: os EUA não permitirão que ele continue com isso", aplaude Oren.

Os israelenses acompanham as ofensivas aéreas com atenção especial, atentando sobretudo para a reação do Hisbolá do Líbano, cujos combatentes se encontram diretamente na fronteira com Israel.

A TV Al Manar, de Beirute, considerada porta-voz do movimento xiita, classificou a operação ocidental como uma "agressão e um atentado maligno, que fere de forma gritante a soberania da Síria e a dignidade de seu povo".

A emissora fala ainda de "uma guerra dirigida contra o povo da região". Mas que não alcançará suas metas: "A comunidade islâmica emergirá mais forte da confrontação e se disporá decidida à luta."

É fato que a retórica da Al Manar só é absorvida por uma parte da população libanesa. No entanto esta poderá ser grande o suficiente para continuar impulsionando o conflito. E o fim da guerra da Síria segue fora de vista.

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