A história de mulheres nas ruas antigas de São Paulo

Laís Modelli

O que ruas com nomes femininos e casarões centrais da capital revelam sobre o passado de mulheres influentes que viveram em São Paulo.Diversos endereços na cidade de São Paulo guardam histórias de mulheres que fizeram parte do surgimento e da expansão da capital. Em alguns, a referência às suas fundadoras é explícita. Em outros, é preciso um olhar mais atento para descobrir a importância de quem morou ali. Além disso, muitos endereços tiveram seus nomes originais alterados, o que contribuiu para que algumas histórias de personagens paulistanas caíssem no esquecimento.

Desde abril, o "Coletivo PISA: cidade + pesquisa", formado por historiadores e arquitetos de São Paulo, em parceira com o Sesc Consolação, tem realizado tours pelo bairro de Higienópolis e arredores para apresentar ao público suas "fundadoras", presentes no nome de três ruas: Rua D. Veridiana, Avenida Angélica e Rua Maria Antônia.

"A presença por todas essas décadas dos nomes destas mulheres na nomenclatura das ruas de Higienópolis revela novas interpretações do perfil da elite paulista na virado do século 20", diz Paula Janovitch, doutora em história e membro do Coletivo PISA.

Os nomes que permaneceram nos endereços, contudo, remetem às mulheres que pertenceram à elite.

"São Paulo ainda mantinha características coloniais no século 19 e concentrava uma grande população de mulheres sem dotes. Muitas delas viviam nas ruas ou trabalhavam para a elite como lavadeiras, ou exerciam ofícios liberais, como quitandeiras ou até como tropeiras", explica Yasmin Darviche, arquiteta e membro do Coletivo PISA.

Algumas dessas mulheres chegaram a ter seus nomes nas ruas em que viveram. "Mas diferente das aristocratas que fundaram Higienópolis, essas mulheres pobres desapareceram das vias públicas a medida que a cidade foi crescendo", completa a arquiteta.

"Donas" de Higienópolis

A mulher por trás da Rua D. Veridiana foi Veridiana da Silva Prado, membro de uma família de aristocratas paulistas do século 18.

Aos 13 anos, casou-se com seu meio-tio para manter a riqueza dos Prado na família e viveu com ele e os filhos que tiveram em uma fazenda de café nos arredores da cidade. Depois de 39 anos de casamento arranjado, se divorciou e se mudou para a capital.

"Um ano depois da separação, em 1878, D. Veridiana comprou terrenos em uma área de São Paulo pouco ocupada, próxima à estrada de Sorocaba. Ali, em uma região conhecida como altos de Santa Cecília, ou Pacaembu de Cima, D. Veridiana construiu sua vila", conta Darviche.

Com a vila, D. Veridiana inaugurou um novo estilo de vida na aristocracia paulista, até então rural e tradicional. "Ela introduziu o conceito de morar em vilas na cidade. Com ideais importados da Europa, como 'civilidade', construiu o primeiro palacete da região, em torno do qual se formaram outras vilas".

D. Veridiana se tornou importante administradora dos bens da família Prado e, em seu pioneiro palacete, realizava festas entre artistas e intelectuais, além de reuniões de negócio com a elite paulista.

Próxima à Rua D. Veridiana, está a Rua Maria Antônia, referência a outra fundadora da região: Maria Antônia da Silva Ramos. Em 1879, a aristocrata vendeu parte dos terrenos da família, localizados na região da Consolação, para a Escola Americana, primeira instituição educacional mista de São Paulo e uma das primeiras a aceitar alunos negros. Maria Antônia vendeu os lotes a um preço baixo, o que ajudou com que a instituição expandisse e prosperasse. Hoje, ali funciona a famosa universidade do Instituto Presbiteriano Mackenzie.

Ainda na região de Higienópolis, está a Avenida Angélica. Maria Angélica de Sousa era filha de um político e poderoso fazendeiro que tinha terras na cidade de São Paulo. No final do século 19, com a morte do marido de Maria Angélica, a viúva vendeu parte do terreno que pertencia à sua família para a construção de uma avenida, via essa que a empresária resolveu batizar com seu próprio nome, a Avenida Angélica.

"É importante notar que uma grande parte das mulheres da elite paulistana ficava viúva muito jovem, pois elas casavam com homens com uma grande diferença de idade. A viuvez as tornavam herdeiras e as promoviam para uma posição de comando sobre os bens, decidindo o futuro desses terrenos", explica Darviche.

O centro e a Marquesa

Quem circula pelo centro histórico de São Paulo, encontrará próximo ao Páteo do Colégio - o marco zero da capital - uma imponente construção nos moldes coloniais. Ali viveu a partir de 1834 Domitila de Castro Canto e Melo, conhecida como Marquesa de Santos. O título de Marquesa foi concedido por D. Pedro I, de quem Domitila foi amante por décadas.

Já viúva, a Marquesa de Santos se mudou do Rio de Janeiro para São Paulo e comprou o Solar, se tornnado figura importante na cidade que ainda se esboçava. O Solar foi apelidade de "Palaceto do Carmo", em razão das festas e eventos que a Marquesa dava.

O Solar da Marquesa de Santos hoje abriga o Museu da Cidade de São Paulo.

O Bixiga e Dona Iaiá

A casa que hoje abriga o Centro de Preservação Cultural da Universidade de São Paulo, no bairro do Bixiga, é uma das raras construções da origem do bairro que permanece em pé.

Próximo ao endereço, havia outro casarão, onde morava a poderosa família Freire. No início do século 19, os pais da família morreram e deixaram a filha Sebastiana de Mello Freire como única herdeira da fortuna. Conhecida como Dona Yayá, a moça teve de assumir a fortuna muito jovem.

Nos anos de 1910, D. Yayá foi acusada de louca pelos seus empregados. Foi internada em um sanatório e interditada. Em 1919, seus tutores compraram o casarão em que hoje funciona o Centro de Preservação Cultural e trancaram a moça em um dos quartos. D. Yayá permaneceu ali por 36 anos, isolada do mundo até sua morte, em 1961.

Em 2004, a USP transferiu para este casarão do Bixiga o Centro de Preservação Cultural da universidade. Somente nessa época a história de D. Yayá foi resgatada.

Os "Jardins" de Ema Klabin

Ema Gordon Klabin foi uma importante empresária de São Paulo no século 20. Judia, Ema e a família vieram para o Brasil fugindo da Segunda Guerra Mundial e enriqueceram no novo país.

Em homenagem ao passado da família na Alemanha, a empresária passou mais de dez anos construindo sua casa, inspirada no Palácio de Sanssouci, da cidade alemã de Potsdam. O lugar escolhido para construir a casa também foi inovador: foi uma das primeiras casas do Jardim Europa, que se tornou o atualmente famoso quadrilátero paulistano chamado de "Jardins".

Na mansão, a empresária montou uma biblioteca com milhares de livros raros e uma importante coleção de arte. O terreno hoje é a Fundação Cultural Ema Gordon Klabin, e a casa foi transformada em museu, onde o público pode conhecer os acervos de Ema.

Outro legado da empresário para São Paulo foi o Hospital Albert Einstein, construído em um terreno doado por Ema à instituição.

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