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Berlim aprova renomear ruas que homenageiam passado colonial

Laís Modelli, Daniel Pelz

23/04/2018 16h23

Novos nomes são homenagens a heróis e movimentos da resistência ao colonialismo alemão. Mas nem todos os moradores do chamado Bairro Africano concordam com a mudança.Um visitante que andar pela tranquila praça Nachtigalplatz, no chamado Bairro Africano de Berlim, pode não imaginar a disputa que ocorre ali já faz uma década. O motivo desse longo embate é justamente o nome da praça e de duas ruas nas proximidades, a Lüderitzstrasse e a Petersallee, que remetem à era colonial da Alemanha.

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Os nomes desses logradouros homenageiam Carl Peters, um dos fundadores da antiga colônia África Oriental Alemã, atual Tanzânia; Adolf Lüderitz, fundador da ex-colônia Sudoeste Africano Alemão, atual Namíbia; e Gustav Nachtigal, explorador que atuou em várias regiões da África no período colonial.

Ativistas lutam para que essas ruas sejam renomeadas, de preferência com nomes que remetam à luta contra a colonização da África. Na semana passada, esse longo embate teve um novo capítulo: a assembleia distrital do bairro Berlin-Mitte votou a favor de novos nomes para o quarteirão. Agora falta ainda a aprovação da prefeitura distrital.

"Alguns nomes de ruas no Bairro Africano ainda glorificam o colonialismo alemão e os seus crimes, o que é incompatível com a nossa compreensão da democracia e causa danos duradouros à imagem da cidade de Berlim", afirmaram SPD, Partido Verde e a Esquerda, os partidos que propuseram a votação.

Resistência africana

Os ativistas se mostraram satisfeitos. "Nomes de ruas, de acordo com a legislação de Berlim, são homenagens. Portanto não é uma questão de saber se podemos manter esses nomes ou não. Se são homenagens, a resposta é óbvia: não", afirmou a ativista Josephine Apraku.

Com a aprovação da assembleia distrital, os atuais nomes de colonizadores deverão dar lugar a heróis e movimentos da resistência africana. A alameda Petersallee será dividida em duas partes. A primeira homenageará Anna Mungunda, primeira mulher da Namíbia a apoiar a independência do país. A segunda, Maji Maji, nome de uma rebelião contra a Alemanha na região em que hoje é a Tanzânia.

A rua Lüderitzstrasse será nomeada para Cornelius Frederiks, líder da resistência do povo Nama, na antiga colônia alemã onde hoje é a Namíbia. Já a praça Nachtigalplatz será Bellplatz, em memória de Rudolf Doula Manga Bell, rei da região que é hoje Camarões e que também se rebelou contra a colonização alemã. Em 1914, ele foi enforcado pelos alemães.

Mudar o homenageado sem trocar de nome

Mas nem todos os moradores da região concordam com a mudança. "Isso só pode ser uma piada. Deveriam ter pensado nisso bem antes em vez de começar só agora, depois de tantos anos. Agora que todo mundo já se acostumou com os nomes", opinou um morador que andava pela Nachtigalplatz.

Existe até uma associação que luta contra a renomeação das ruas na região, a Pro Afrikanisches Viertel (Pró-Bairro Africano). A líder da associação, Karina Filusch, reclamou que os novos nomes foram impostos por políticos sem ouvir a população local. "Todo o processo foi marcado por diletantismo, ideologia e prepotência", afirmou.

Inicialmente, um júri deveria escolher os novos nomes a partir de sugestões dos moradores, mas o processo terminou numa acirrada disputa sobre as propostas do júri. Por fim, os partidos representados na assembleia distrital pediram a opinião de especialistas para definir novas propostas de nomes. Assim surgiram as três sugestões finais, com as quais social-democratas, verdes e esquerdistas se mostraram de acordo.

A Pro Afrikanisches Viertel tem uma proposta diferente: em vez de mudar o nome das ruas, mudar o homenageado. Assim, a Lüderitzstrasse faria uma homenagem à cidade de Lüderitz, e a Nachtigalplatz faria referência ao teólogo Johann Nachtigal. A Petersallee também ficaria com o mesmo nome porque, em 1986, ela já foi oficialmente alterada e passou a homenagear Hans Peters, um ativista que lutou contra o nazismo.

"A decisão deve ser devolvida aos cidadãos, para que as partes interessadas possam voltar a debater a questão", defendeu Filusch. Ela ressalvou, porém, que no caso da Petersallee a o debate está fora de questão e a alteração é ilegal, pois a rua já havia sido oficialmente "renomeada".

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