Corrupção em Malta é desafio para a União Europeia

Alexandre Schossler

Pequena ilha no Mediterrâneo é vista como um centro de corrupção e lavagem de dinheiro e está sob críticas por causa de seu programa de venda de passaportes. Assassinato de jornalista elevou pressão sobre as autoridades.Malta é uma pequena ilha de 440 mil habitantes que conquistou sua independência do Reino Unido em 1964, ingressou na União Europeia em 2004 e desde 2008 adota a moeda comum europeia, o euro.

Mas essa pequena nação no Mediterrâneo, localizada entre a Sicília e a Líbia, chama a atenção também como um centro de corrupção e lavagem de dinheiro dentro da União Europeia, e as mais altas autoridades políticas maltesas são suspeitas de envolvimento em negócios dúbios.

Malta entrou no foco das atenções europeias com o assassinato, num atentado a bomba, da jornalista investigativa Daphne Caruana Galizia, que, em seu blog, atacava a elite política e econômica da ilha.

Em 16 de outubro de 2017, uma bomba detonada por celular destruiu o Peugeot 108 de Galizia, matando-a. O explosivo, um pacote de TNT, havia sido colocado embaixo do assento do motorista.

Nos últimos anos, Galizia atacara duramente o Partido Trabalhista, do primeiro-ministro Joseph Muscat, por exemplo ligando a esposa dele, Michelle, aos escândalo dos Panama Papers. Segundo a denúncia da jornalista, Michelle era a verdadeira dona da empresa Egrant, que teria recebido 1 milhão de dólares de Leyla Alijeva, uma das filhas do presidente do Azerbaijão, Ilham Alijev. Michelle nega que seja a dona da empresa.

A transação foi feita por meio do banco Pilatus, em Malta, uma instituição fundada em 2014 por um cidadão iraniano, Ali Sadr Hasheminejad, na época também dono de um passaporte da ilha caribenha São Cristóvão e Neves.

Hasheminejad é filho de um dos homens mais ricos do Irã e se casou em 2015 em Florença, na Itália. Na lista de convidados estavam Muscat, Michelle e o chefe de gabinete do premiê, Keith Schembri, sob suspeita de corrupção por causa de dois depósitos de 50 mil euros numa conta que detém no Pilatus.

O banco, que tinha apenas 130 clientes, tem depósitos totais de 250 milhões de euros em seus cofres, vindos sobretudo da elite política e econômica do Azerbaijão, segundo informantes anônimos.

Em março de 2018, Hasheminejad foi detido nos Estados Unidos e aguarda julgamento. Ele é acusado de lavagem de dinheiro e de contornar sanções americanas por ter supostamente participado de um esquema de transferência de dinheiro da Venezuela para o Irã.

Depois de sua prisão, os ativos do banco Pilatus foram congelados pela autoridade financeira de Malta, e as atividades do banco foram suspensas.

Outro tema frequente no blog de Galizia: a venda de passaportes malteses para pessoas ricas, o que garante a elas livre trânsito na União Europeia e a possibilidade de contornar sanções econômicas internacionais aos seus países de origem, como o Irã e a Rússia.

Por cerca de 1 milhão de dólares, é possível adquirir um passaporte de Malta, desde que observadas algumas exigências, como ter morado na ilha por ao menos um ano. A maioria dos interessados contorna essa exigência com a simples compra de um pequeno apartamento.

Ao longo de quatro anos, o programa de venda de passaportes garantiu 800 milhões de dólares para Malta, o que ajudou o governo da ilha a reduzir suas dívidas. Mas o programa recebe cada vez mais críticas de outros países europeus.

Seis meses depois do assassinato de Galizia, pouco progresso foi feito para esclarecer o crime. Três suspeitos foram detidos em dezembro. Todos afirmaram ser inocentes. Em relação aos mandatários e os motivos do crime, nenhum avanço foi feito.

Em novembro, a Autoridade Bancária Europeia lançou uma investigação sobre a atuação das autoridades financeiras de Malta, por suspeitas de lavagem de dinheiro no país e para esclarecer como o banco Pilatus obteve sua licença para operações bancárias, que, pelas leis do bloco, é válida para toda a União Europeia.

As investigações das histórias levantadas por Galizia estão sendo mantidas por um grupo de 45 jornalistas de 18 empresas de comunicação, reunidos no Projeto Daphne.

A coluna Zeitgeist oferece informações de fundo com o objetivo de contextualizar temas da atualidade, permitindo ao leitor uma compreensão mais aprofundada das notícias que recebe no dia a dia.

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