Opinião: Engolindo sapos em frente às câmeras

Michaela Küfner (jps)

Merkel já percebeu: Trump não está interessado em fatos. Ela agora trata de se adaptar. Depois de Macron, coube a ela interpretar o papel de parceira valorosa dos EUA, opina Michaela Küfner.A chaceler federal Angela Merkel deixou de lado desta vez pedidos ao presidente dos EUA para que ele respeite as normas internacionais e respeite valores comuns. O presidente francês já havia feito isso na quarta-feira em seu apaixonado discurso perante o Congresso dos Estados Unidos. Em vez disso, Merkel repetidamente admitiu que cabe a Donald Trump decidir. E só a ele.

Aparentemente, ele gosta de ouvir isso da boca do chanceler federal. Assim que Trump tomou posse, Merkel congratulou-o com um breve discurso sobre suas obrigações em relação aos direitos humanos. Mas isso já é história.

"O presidente decide", disse ela, sobre a possível prorrogação da isenção tarifária sobre aço e alumínio que a União Europeia desfruta desde março. O tempo está passando e o prazo se encerra em 1° de maio. As contramedidas europeias já estão prontas. Uma guerra comercial está a apenas um tweet de distância.

Sem passos em falso

Horas antes da partida do chanceler a delegação alemã já se mostrava resignada e havia reduzido suas expectativas ao mínimo. Agora, as duas horas e meia de reuniões parecem um sucesso apenas porque, pelo menos, não houve desavenças abertas. Há pouco mais de um ano, Trump chegou a ignorar Merkel quando ele estendeu sua mão para ele diante das câmeras.

Todas as tentativas subsequentes de diálogo em condições iguais fracassaram. Agora, Merkel mudou sua estratégia: primeiro é preciso ceder. E então, talvez seja preciso virar o volante um pouco para evitar o abismo.

Dobradinha com Macron

Em relação ao acordo nuclear com o Irã, os europeus temem que a recusa de Trump em renová-lo – o prazo vence em 12 de maio – possa acabar com toda a iniciativa. Eles se preocupam com as consequências devastadoras para a região, mas também com a credibilidade da diplomacia ocidental.

Já ficou claro em Washington que há um trabalho coordenado entre Merkel e o presidente francês, Emmanuel Macron, para salvar o acordo. Antes de suas respectivas viagens aos Estados Unidos, Macron e Merkel haviam expressado durante um encontro em Berlim suas preocupações sobre o programa de mísseis convencionais do Irã.

Na terça-feira, Macron deu um passo adiante e propôs a Trump buscar um "novo acordo" além do existente. Merkel acrescentou depois que a Alemanha também acha que é preciso "adicionar mais" porque as cláusulas atuais "não são suficientes para conferir ao Irã um papel baseado na confiança".

Assim, o chanceler dá a razão para Trump com a esperança de que algo seja adicionado ao atual acordo, em vez de transformá-lo completamente em letra morta.

Despesas com defesa

Em outras frentes, Merkel mais uma vez tentou agir para que Trump enxergue o grande déficit comercial dos Estados Unidos com a Alemanha levando em conta os investimentos diretos alemães em seu país. Mas, em relação ao aumento nos gastos com defesa, ela já não tem mais como despistar.

A explicação gentil de Merkel de que a Alemanha está mudando seu papel no mundo, agora que a era do pós-guerra está chegando ao fim, não ajuda. A declaração de que seu governo pretende elevar os gastos militares atuais de 1,3% do produto interno bruto para aproximá-lo da meta da OTAN de 2% continua ainda insuficiente para Trump. O novo secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, já disse isso durante a reunião dos ministros das Relações Exteriores da Otan em Bruxelas.

Trump diz que a relação entre os Estados Unidos e a Alemanha carece de "reciprocidade". Embora, segundo ele, seu relacionamento pessoal com Merkel já fosse "excelente desde o início". Ela é uma "mulher muito extraordinária", chegou a dizer.

E esta mulher extraordinária é extraordinariamente conciliadora. A máxima que ficou da reunião foi: nós simplesmente lhe damos um pouco razão e o mundo, talvez, garanta paz. Pelo menos por um tempo. Ou, pelo menos, sobre a questão do Irã. Ou a Síria. Ou o livre comércio.

Isso pode ser um bom negócio. Se Trump está de acordo, descobriremos em breve – provavelmente por meio do Twitter.

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