A obsessão dos alemães por pagamento em dinheiro

Arthur Sullivan (md)

A Alemanha é o país europeu com menor taxa de uso de cartões. Tentativas do governo de limitar transações em espécie esbarram em campanhas populares a favor do uso de cédulas e moedas.Se há um lugar onde o dinheiro em espécie realmente é rei, é nas lojas de conveniência de Berlim, conhecidas em alemão como späti. Mas nos últimos tempos, Türkan Dogar trouxe uma máquina de cartão de débito para sua pequena loja na capital alemã. Ele tem que pagar uma taxa, mas ela é tão irrisória que ele não se lembra do valor exato.

"Os clientes me perguntavam frequentemente se aceitávamos cartões. Então, acabei arrumando uma, porque é bom para os negócios", diz. Se os fregueses gastarem menos de 10 euros na compra, eles podem pagar com cartão, mas têm que desembolsar 50 centavos a mais pela despesa.

No entanto, um passeio pelo bairro berlinense rapidamente revela a relação complicada dos alemães com pagamentos com cartão. Na oficina de bicicletas de Erol, quem quer pagar com cartão é logo avisado.

"Aqui, só dinheiro", diz o dono do estabelecimento. "Eu gosto de dinheiro vivo. Se as pessoas não têm, podem ir ao caixa eletrônico e voltar. Eu não me importo."

Na Alemanha, pagar com cartão, seja de débito ou crédito, não é tão fácil quanto se poderia esperar da maior e mais poderosa economia da Europa.

Alemães adoram andar com dinheiro no bolso. Uma pesquisa do Banco Central Europeu (ECB) publicada em novembro de 2017 constatou que o alemão médio leva 103 euros na carteira, muito mais do que os cidadãos de qualquer outro país da União Europeia, como os franceses (32 euros), por exemplo.

De acordo com o portal online de estatísticas Statista, 80% de todas as vendas no comércio de varejo na Alemanha em 2016 foram feitas com dinheiro em espécie, enquanto na França foram 68%, e na Holanda, apenas 46%.

Desde que o euro se tornou a moeda corrente, em 2002, o Banco Central alemão emitiu mais notas do que todos os bancos centrais europeus combinados. Mesmo assim, a quantidade de caixas eletrônicos na Alemanha ainda é proporcionalmente muito menor do que a de outras grandes economias europeias.

Talvez a estatística mais ilustrativa de todas seja a divulgada em setembro de 2017 em um relatório do BCE sobre os instrumentos de pagamento sem dinheiro em países da UE em 2016. De todos os pagamentos sem dinheiro feitos na Alemanha naquele ano, apenas 19% foram feitos com cartões, a menor taxa do bloco. Em comparação, os números correspondentes para o Reino Unido e a França foram 53% e 65%, respectivamente.

Contando moedas

Sociólogos, historiadores e analistas têm várias explicações para a ojeriza dos alemães em relação a pagamentos com cartão. Elas vão desde a memória popular coletiva de eventos históricos dolorosos, como a severa hiperinflação na era da República de Weimar, a um intenso desejo de privacidade e à desconfiança de qualquer forma de vigilância.

Há também elementos culturais profundamente arraigados, específicos da Alemanha. O Museu Histórico Alemão, em Berlim, exibe atualmente uma exposição intitulada Economizar: a história de uma virtude alemã, destacando como os conceitos de parcimônia, aversão à dívida e cautela financeira (virtudes que nem sempre combinam com uso do cartão de crédito) influenciaram a vida dos alemães ao longo dos anos. Afinal, a palavra alemã para "dívida", schuld, também pode significar "culpa".

Sistemas de pagamento sem dinheiro são uma tendência global evidente há vários anos, particularmente em economias altamente desenvolvidas, mas também em países mais pobres.

O número total de pagamentos sem dinheiro na UE aumentou 8,5% em 2016, para 122 bilhões de euros, com pagamentos com cartão representando metade desse número.

Há muitos economistas que argumentam que um futuro sem dinheiro vai ser uma coisa boa na Alemanha e em outros lugares, eliminando a evasão fiscal, frustrando atividades ilegais que prosperam com "dinheiro sujo" e cortando os custos significativos associados a transações baseadas em dinheiro, tais como o transporte de divisas.

"Salve nosso dinheiro"

Peter Bofinger, membro do Conselho Alemão de Especialistas em Economia, apoia a extinção total do dinheiro, por exemplo. No entanto, há muitos que discordam profundamente, tais como Max Otte, economista alemão que fundou há dois anos a campanha Salve o nosso dinheiro.

Ele acredita que a perspectiva de uma sociedade sem dinheiro seja um "cenário de horror", ligado ao "controle total e completo abandono dos dados pessoais". Ele também considera que se trate de um meio de ajudar os bancos a introduzir taxas de juros negativas, um instrumento controverso destinado a desencorajar a poupança.

Ele afirma que a pergunta a ser feita não é por que os alemães preferem usar dinheiro vivo, mas por que outros querem um sistema sem dinheiro. Ele acredita que haja "forças muito poderosas" no mundo dos banqueiros, dos negócios, da política e da tecnologia pressionando por uma sociedade sem dinheiro, com uma das principais motivações sendo a coleta de dados privados dos cidadãos.

"É o instrumento de controle perfeito para aqueles que querem nos controlar e um instrumento contra a privacidade", acusa. "Pode ser uma sociedade eficaz e eficiente, mas não é uma sociedade em que eu me sentiria particularmente confortável."

Força da memória

Muitos alemães claramente concordam com ele. Tentativas de limitar o uso de dinheiro em espécie no país continuam a encontrar forte resistência. Em 2016, o Ministério das Finanças da Alemanha propôs um limite de 5 mil euros para transações em dinheiro, um conceito familiar em muitos países europeus, mas que levou à criação da campanha Tire as mãos do nosso dinheiro pelo tabloide Bild, o jornal mais vendido do país.

O partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD) também entrou na discussão nos últimos anos, capitalizando a questão do dinheiro como parte de suas causas nacionalistas.

Com estabelecimentos como a loja de conveniências de Türkan, em Berlim, a tendência de crescimento das opções de pagamento sem dinheiro parece destinada a continuar, apesar da resistência.

Mas a ideia de que tais sistemas poderiam um dia substituir o dinheiro como o principal método de pagamento parece não levar em consideração alguns dos mais importantes e poderosos traços da Alemanha moderna: a cautela, o desejo de privacidade e a força da memória.

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