Berlim e as várias culturas de churrasco

Clarissa Neher

Na hora de assar a carne, vale tudo na capital alemã, desde que as regras forem seguidas. Caso contrário, o churrasco pode virar questão de polícia e bombeiros, como a colunista presenciou recentemente.Alemão, árabe, português, espanhol e vários outros idiomas podem ser ouvidos em churrascos nos parques de Berlim, que em dias ensolarados se transformam em um microcosmo das várias culturas que convivem na cidade. Cada churrasqueiro traz consigo a tradição de seu país de origem.

Mulheres muçulmanas comandam as grelhas, onde carne de porco não tem vez; os latinos embalam a reunião com músicas animadas; os alemães estão sempre bem preparados com churrasqueiras, muita cerveja e linguiça; entre os brasileiros, a carne bovina costuma não faltar.

Apesar de já estar familiarizada com essa rica diversidade em Berlim, no primeiro domingo deste mês me deparei com uma situação inusitada, que resultou na presença da polícia e até de bombeiros.

Havia combinado de fazer um churrasco com amigos no Volkspark, em Friedrichshain. Marcamos de nos encontrar no espaço oficial para a prática. Apesar de várias pessoas fazerem churrasco em qualquer gramado do parque, achamos melhor ir à área demarcada para evitar uma multa.

Chegando lá, vi vários carneiros, 12 no total, sendo assados em grande estilo, em roletes. Lembrei na hora dos churrascos estilo fogo de chão brasileiros, marcados pela fartura.

Achei a ideia dos churrasqueiros bem interessante. Os espetos eram ligados em baterias de carro para assar a carne de maneira uniforme. Ao me aproximar, percebi a forte presença policial no local. Os policiais conversavam com os donos dos carneiros e tentavam descobrir quem eram os responsáveis por dois deles que pareciam terem sido abandonados para evitar uma multa de até 5 mil euros.

Segundo a polícia, os churrasqueiros eram sérvios e afirmaram que estavam comemorando alguma festa cristã ortodoxa. Disseram que há dez anos faziam o churrasco tradicional de sua cultura ali e nunca tiverem nenhum problema, afinal estavam na área permitida para assar carne.

O problema não foi o estilo do churrasco, mas o fato de ter não sido usada uma churrasqueira apropriada e o fogo ter sido feito direto no chão. As baterias também não foram consideradas seguras pelas autoridades.

Enquanto os carneiros assavam, no decorrer de algumas horas, a ação policial foi se desenrolando e culminou com a chegada dos bombeiros. Aparentemente praticamente prontos, os carneiros estavam enrolados em papel alumínio para serem transportados ao local onde seriam consumidos.



Após a retirada dos animais, os bombeiros entraram em ação para reduzir o risco de incêndio, apagando o que restou das cinzas do carvão utilizado como se estivessem diante de um fogo de grandes proporções. Nuvens de cinzas se espalharam pelo local, e meus amigos e eu corremos para tampar nossa comida.

Assim como várias das pessoas presentes, tive a impressão de que a operação contra o suposto perigo de fogo no parque foi bem exagerada e um tanto clichê. Afinal, há quem diga que os alemães adoram seguir regras – e como é proibido fazer fogo para churrasco diretamente no chão, até bombeiros tiveram que ser acionados.

Apesar da confusão, conheci uma cultura de churrasco que nunca tinha visto na cidade, e que, depois da reação desproporcional das autoridades, não sei se um dia verei novamente.

Clarissa Neher é jornalista freelancer na DW Brasil e mora desde 2008 na capital alemã. Na coluna Checkpoint Berlim, publicada às segundas-feiras, escreve sobre a cidade que já não é mais tão pobre, mas continua sexy.

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