Decreto da cruz entra em vigor na Baviera em meio a polêmica

Volker Witting (av)

A partir de 1º de junho, repartições públicas bávaras devem ter uma cruz na área de entrada. Críticos veem discriminação de outras religiões, manobra eleitoral contra a AfD e violação da separação entre Estado e Igreja.Uma portaria do governo estadual da Baviera determina que a partir desta sexta-feira (1º/06) a cruz cristã deverá adornar a entrada de todas repartições públicas.

Quem está satisfeito com a controversa ordem administrativa é o cristão devoto e comerciante de artigos eclesiásticos Andreas Püttmann. No momento, os negócios vão bem para a loja especializada Schreibmayr, em Munique, da qual ele é gerente: "O que está vendendo melhor são as cruzes simples de madeira, sem o crucificado", informa.

O governador bávaro Markus Söder, da conservadora União Social Cristã (CSU) desencadeou polêmica em toda a Alemanha ao publicar, no início de abril, a decisão aprovada unanimemente por seu gabinete. Ele próprio partiu para dar bom exemplo, demonstrativamente mandando pendurar um crucifixo no saguão de entrada da sede do governo.

Na ocasião, Söder enfatizou que, para ele, o símbolo não representa uma religião, mas é parte "da identidade histórico-cultural e do caráter da Baviera". Metade dos bávaros são católicos, outros 20% são protestantes. Por todo o estado no sul da Alemanha encontram-se crucifixos, à beira das estradas e em aldeias pitorescas.



Mera jogada eleitoreira?

Em meados de outubro, a Baviera elege seu novo governo estadual. A CSU de Söder é tradicionalmente a principal força eleitoral, tendo frequentemente alcançado, no pós-Guerra, resultados superiores a 50%. No momento, porém, a legenda obtém nas sondagens "apenas" pouco mais de 40%.

Por esse motivo, diversos críticos acusam o "decreto da cruz" do dirigente social-cristão de não passar de campanha eleitoral. Segundo Katharina Schulze, líder da bancada verde do Parlamento estadual, "religião é questão privada" e "o Sr. Söder está se apresentando aqui, alternadamente, como gerente, como bom samaritano e, recentemente, também como missionário".

Uma outra imputação é que o governador estaria violando o preceito da neutralidade do Estado. Na Alemanha vigora a separação entre Estado e Igreja – também como uma lição da nefasta cooperação entre as igrejas cristãs e o regime nazista.

Nas igrejas cristãs, desde o início a reação à portaria de Söder foi ambivalente. O poderoso arcebispo católico de Munique e Freising, cardeal Reinhard Marx, mostrou-se crítico. Quem vê o crucifixo apenas como símbolo cultural não o compreendeu, comentou ao jornal Süddeutsche Zeitung: não cabe ao Estado explicar o que a cruz significa.

Por sua vez, o bispo de Regensburg, Rudolf Voderholzer, saudou a ordem. "Não tenho como ver nada de repreensível – nem mesmo da perspectiva da política partidária – num comprometimento com a cruz, como encarnação da fé cristã, que marca profundamente os fundamentos da nossa convivência."

Nem tão a sério assim

"Como muçulmano, eu me sinto excluído", rebate Benjamin Idriz, imã e presidente do Fórum Muniquense pelo Islã. Durante o ramadã, o período de jejum islâmico, ele ministra cultos diários em sua moderna mesquita. Ele crê que a portaria tenha motivação política: "É também uma resposta populista à populista Alternativa para a Alemanha (AfD), que quer discriminar os muçulmanos."



O estudante de psicologia Tarek Carls, de 23 anos, está igualmente convencido de que a CSU tenta "pescar na margem direita", instrumentalizando para tal o símbolo religioso. Ele iniciou uma petição na internet, coletando assinaturas sob o slogan "Nada de cruz obrigatória nas instituições públicas!".

Já tendo conseguido o apoio de 52 mil pessoas, o aluno da Universidade de Regensburg pretende seguir lutando, a fim de evitar que em breve uma cruz penda na entrada da instituição em que estuda. "Tudo indica que o fortalecimento da AfD coloca a CSU sob pressão para agir. Ela se aproveita do crucifixo como símbolo eleitoral barato."

No entanto, a cruz parece não ser tão obrigatória assim. Abordada pela DW, sua Secretaria do Interior da Baviera confirmou que mais de mil repartições deveriam, de fato, instalar uma cruz até 1º de junho. No entanto não haverá sanções para quem não acatar a ordem, e os próprios chefes de repartição podem decidir.

Um protestante no Vaticano

Na bem sortida loja de artigos devocionais de Andreas Püttmann, uma tripla delegação do departamento bávaro de preservação do patrimônio procura os crucifixos adequados para suas seis divisões. Ao contrário de outras autoridades estaduais, que declararam publicamente não pretender seguir a portaria, o conselheiro-chefe Michael Kling está determinado.

"Queremos implementar a portaria literalmente, como a recebemos nesta semana, ou seja: vamos pendurar um crucifixo na área de ingresso de cada uma de nossas divisões. Bem visível, como consta." A delegação sai da Schreibmayr levando dois modelos bem simples, para primeiro experimentá-los in loco.

Depois dos acalorados debates desencadeados por sua portaria, Söder envia sinais de paz. Ele planeja uma mesa redonda sobre o tema "Valores, cultura e identidade do país", para o qual convidará representantes das Igrejas Católica e Evangélica e de outras comunidades religiosas, assim como da ciência e da cultura.

Em 1º de junho, contudo, dia da entrada em vigor do "decreto da cruz", entretanto, o governador social-cristão não estará na Baviera. O político protestante tem audiência particular marcada com o papa em Roma.

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