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CDU, CSU e o fantasma de Kreuth

Alexandre Schossler

28/06/2018 13h53

Quando os dois partidos conservadores alemães não se entendem, logo se fala no "fantasma de Kreuth", em alusão a uma fracassada tentativa da CSU de se distanciar da CDU.Na Alemanha, um fantasma ronda o conservadorismo político sempre que as coisas não andam bem na relação entre os dois partidos irmãos União Democrata Cristã (CDU) e União Social Cristã (CSU): o fantasma de Kreuth.

Kreuth é um cidade de meros 3 mil habitantes nas margens do bucólico lago de Tegernsee, na idílica região da Alta Baviera. Foi lá que, em novembro de 1976, o então presidente da CSU, Franz-Josef Strauss, anunciou o até então impensável: o fim da bancada conjunta com a CDU no Parlamento, que existia desde a constituição do Bundestag, em 1949.

A bancada conjunta é o resultado natural de um acerto entre os dois partidos conservadores: a CSU, tão bávara quanto as Lederhosen e os Biergarten, existe apenas nesse estado do sul da Alemanha e renuncia a uma presença em todos os outros 15 estados alemães. Já a CDU é o partido conservador em todos esses outros estados e renuncia a uma presença na Baviera.

Strauss, porém, estava insatisfeito com a atuação conjunta dos dois partidos e mantinha uma disputa de poder com o então presidente da CDU, o futuro chanceler federal Helmut Kohl. Poucas semanas antes, na eleição geral, a CSU havia alcançado 60% dos votos na Baviera. A CDU, "meros" 38% nos demais estados alemães. Juntos, os dois partidos chegaram a 48,6%, o que garantia o primeiro lugar, mas não levaram – o Partido Social-Democrata (SPD) manteve sua aliança com os liberais do FDP e continuou no governo, com o chanceler federal Helmut Schmidt.

Desde 1972, quando Willy Brandt garantira a reeleição para a coalizão entre SPD e FDP, que Strauss não andava satisfeito com o papel desempenhado na oposição pela união entre CDU e CSU. Ele considerava que Kohl apostava demais na relação com o FDP, na época o fiel da balança para a formação de governo, e defendia uma postura mais agressiva dos conservadores em relação ao bloco formado por social-democratas e liberais.

Em 1976, pouco depois de uma nova derrota eleitoral e pouco antes da constituição do novo Bundestag, a CSU se reuniu em Kreuth para debater os rumos do partido. Poucos dias depois foi anunciada a decisão, por 30 votos a favor, 18 contra e uma abstenção, de abandonar a bancada conjunta com a CDU.

A aventura da CSU como partido nacional, porém, foi curta. Poucos dias depois do anúncio de Kreuth, Kohl contra-atacou e disse que, se a CSU deixasse a bancada conjunta no Bundestag, então a CDU passaria a existir também na Baviera. Pressionada, a CSU recuou e, em 12 de dezembro, a decisão anunciada em Kreuth foi oficialmente abandonada. Mas não sem ganhos para CSU, pois a polêmica abriu caminho para a candidatura de Strauss à chancelaria federal em 1980, como candidato dos dois partidos conservadores.

O fantasma de Kreuth também é evocado na atual briga entre CDU e CSU por causa da política para refugiados, personificada na chanceler federal Angela Merkel, de um lado, e nos líderes da CSU Horst Seehofer e Markus Söder, do outro. Mas como lembrou o presidente do Bundestag, Wolfgang Schäuble (também ele da CDU), há uma diferença fundamental: hoje ambos os partidos estão na coalizão de governo e não na oposição. Uma separação ameaça, portanto, a continuidade do atual governo alemão e teria consequências também para a União Europeia.

Além disso, a separação entre CDU e CSU, e uma eventual presença de ambos os partidos em todo o país, acabaria sendo ruim para os dois, já que eles dividiriam entre si o eleitorado conservador do país, enfraquecendo assim a ambos.

A coluna Zeitgeist oferece informações de fundo com o objetivo de contextualizar temas da atualidade, permitindo ao leitor uma compreensão mais aprofundada das notícias que ele recebe no dia a dia.

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