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Onde a próxima crise pode eclodir para Merkel

Alexandre Schossler

03/07/2018 11h19

Chanceler tem dois parceiros de governo: os conservadores bávaros e os social-democratas. Para conter a rebelião dos primeiros e se salvar no poder, ela pode ter desagradado aos outros. E aí ameaça nascer um problema.Ao longo das últimas semanas, o Partido Social-Democrata (SPD) da Alemanha acompanhou calado a briga entre seus dois parceiros de governo, os partidos conservadores União Democrata Cristã (CDU) e União Social Cristã (CSU).

No jargão político alemão, CDU e CSU formam a União e atuam juntas na política nacional. Os dois partidos estão reunidos numa bancada conjunta desde a fundação do Bundestag, em 1949, e tem um acordo de não intromissão: a CSU existe apenas na Baviera; a CDU, nos demais 15 estados alemães.

Essa união foi posta à prova nas últimas semanas, com a briga entre os líderes da CSU, o presidente e ministro do Interior, Horst Seehofer, e o governador Markus Söder, e a presidente da CDU e chanceler federal Angela Merkel, em torno da política para refugiados do governo alemão.

Nesta segunda-feira (02/07), os dois lados se acertaram, mas a implementação daquilo que eles acordaram depende do terceiro membro da coalizão de governo, o SPD.

A primeira manifestação pública da presidente dos social-democratas, Andrea Nahles, foi cautelosa. "Ainda há uma série de questões em aberto", declarou. Para mencionar apenas uma, disse, é necessária a concordância de Itália e Áustria. Até que essa seja alcançada, o que CDU e CSU acertaram não passa de um "cheque sem fundos", acrescentou a líder social-democrata.

O acordo entre Merkel e Seehofer prevê que requerentes de refúgio que já foram registrados em outros países europeus não sejam acolhidos pela Alemanha. Eles ficariam na fronteira – por exemplo com a Áustria – nos chamados centros de trânsito, que seriam criados para esse fim.

O uso dessa expressão – centros de trânsito – irritou muitas pessoas dentro do SPD. Afinal, em 2015, no auge da crise dos refugiados, o partido já havia claramente rejeitado a criação das então chamadas zonas de trânsito para refugiados nas fronteiras da Alemanha – e conseguira impor seu ponto de vista, argumentando que, na prática, estariam sendo criados centros de detenção em massa.

Que o termo retorne agora é visto como provocação pelos social-democratas. Por essa leitura, a União estaria desviando a atenção da sua própria briga interna ao provocar uma briga interna no SPD, que, para continuar no governo, teria de aceitar algo que na verdade rejeita. E, se o governo ruir, a culpa passaria a ser do SPD, que, para piorar ainda mais sua situação, não alcança nem 20% dos votos nas atuais pesquisas eleitorais.

Pouco depois do anúncio do acerto entre Merkel e Seehofer, a esquerda do SPD se manifestou contra a criação dos centros de trânsito. Já Nahles foi mais cautelosa e disse que aquilo que CDU e CSU propõem hoje não é o mesmo que foi debatido em 2015.

Em primeiro lugar, argumentou, porque, ao contrário de 2015, trata-se apenas de um pequeno grupo de requerentes de refúgio: aqueles que já foram registrados antes em outros países europeus. Em segundo lugar porque o número de pessoas que busca refúgio na Alemanha, hoje, é infinitamente menor do que há três anos. Assim, não é mais possível falar em centros de detenção em massa.

De qualquer forma, todos os olhos se voltam agora para o SPD. Ainda nesta terça-feira, os três partidos que formam a coalizão de governo na Alemanha se reúnem em Berlim para debater a questão. E Seehofer disse que, tão logo seja possível, viajará para Viena, a fim de obter a concordância do governo austríaco aos seus planos.

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