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Opinião: Merkel encontra salvação na fortaleza Europa

Ines Pohl

03/07/2018 10h25

Após crise, líder alemã conseguiu salvar governo ao se comprometer com política de refugiados baseada no isolamento. Assim, ela deixa sua política de portas abertas para trás, opina a editora-chefe da DW, Ines Pohl.As últimas duas semanas fizeram bem mais do que determinar o destino de uma chanceler federal. Foram um combate feroz pelo rumo fundamental da política de refugiados europeia.

E quem venceu foram aquelas forças que apostam no isolamento. Aqueles políticos que, futuramente, querem impedir as pessoas de sequer iniciar a arriscada travessia do Mar Mediterrâneo.

Esse objetivo deve ser alcançado com uma proteção reforçada das fronteiras, mas também com campos de refugiados no norte da África. Daqui em diante, é lá que os refugiados deverão esperar até que seja determinado se sua chegada é desejável na Europa. Porque eles têm direito a refúgio ou porque sua mão de obra é necessária aqui.

Dentro da Europa, a situação também deverá ser governada com uma política nitidamente mais dura: em teoria, futuramente os refugiados serão logo alojados em centros ou campos, seus casos serão processados com rapidez, e os visitantes indesejados serão prontamente enviados de volta.

São esses os grandes planos que Angela Merkel negociou em conjunto com seus colegas europeus na semana passada e com os quais ela rejeitou a política de fronteiras abertas que vinha defendendo até agora. Esses são os planos que finalmente levaram o seu ministro do Interior, Horst Seehofer, a ceder e que encerram o triste teatro barato da política interna alemã dos últimos dias. Pouparam, assim, o governo da Alemanha de desmoronar – por enquanto.

Essa é a boa notícia. Não só para a Alemanha, mas também para a Europa. É que apenas agitadores populistas têm interesse em ver a maior economia europeia deslizando para uma crise de governo com resultado em aberto neste momento de incertezas generalizadas.

A força estabilizadora do país é importante demais. Essa é uma das razões pelas quais Merkel conseguiu organizar tão velozmente uma cúpula europeia na qual foram firmados acordos sobre as características principais dessa nova política europeia de imigração e refúgio. A Europa sabe o que Merkel tem a oferecer nestes tempos.

Com isso, a crise aguda foi encerrada. Mas não se encontrou uma resposta verdadeira para os desafios – não nos iludamos. Afinal, em que países africanos serão construídos os campos de acolhimento? Até agora, as reações foram majoritariamente hostis. E com que Estados a Europa deve negociar se quiser a garantia de um mínimo de direitos humanos? E quem deve cuidar dos refugiados se eles forem impedidos de seguir adiante?

As imagens mais recentes da Argélia mostram o que pode acontecer: milhares de pessoas foram literalmente enviadas para o deserto, incluindo crianças e gestantes que, sob temperaturas de quase 50 graus Celsius à sombra, morreram nas piores condições, sucumbindo à fome e à sede. Países como o Líbano já estão acolhendo mais refugiados do que a Europa inteira. Isso também faz parte da realidade da política de isolamento europeia.

Também dentro da Europa, há atualmente mais perguntas que respostas. Também aqui não está claro em que países deverão ser construídos os campos. Que governos, afinal, estarão realmente dispostos a aliviar a Itália e a Grécia, os países que possuem as mais amplas fronteiras externas no sul da Europa e, consequentemente, têm o maior número de refugiados?

O consenso rápido entre os dois partidos conservadores alemães – União Social Cristã (CDU), de Merkel, e União Social Cristã (CSU), de Seehofer – só foi possível porque tudo permaneceu vago. O único item que poderá ser rapidamente concretizado será o reforço da proteção das fronteiras – é o início de tempos lucrativos para a agência europeia de proteção das fronteiras e litorais, a Frontex, e para empresas construtoras de cercas.

Há três anos, Merkel luta por uma política de refugiados humana. Ela também errou no caminho. Com frequência, a comunicação foi ruim, houve panes técnicas. Mas, agora, a chanceler federal foi forçada a adotar uma nova política, mais severa, por causa da atmosfera no próprio país, das mudanças na constelação política, da situação na Europa e, finalmente, do partido parceiro no governo.

Tudo isso não deve ter mudado a convicção tanto profunda quanto simples da chanceler federal de que é necessário ajudar aqueles que precisam. A partir de agora, dependerá ainda mais de Merkel que não se construam apenas cercas, mas que haja forte pressão para que sejam elaboradas novas leis de imigração, sejam fechadas novas parcerias com países africanos e para que se apoie muito mais fortemente as forças que lutam para que as pessoas possam ficar nos países de origem.

Cercas e postos fronteiriços podem até proteger os governos europeus no momento, mas não são uma solução duradoura.

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