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Juncker diante de discussões duras em Washington

Bernd Riegert (jps)

25/07/2018 09h25

O presidente da Comissão Europeia disse estar "alegre e relaxado" antes de visitar Donald Trump e tentar evitar uma guerra comercial com os EUA. Ele vai trazer argumentos, mas nenhuma proposta comercial.O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, não se intimida quando se trata de ser amigável em relação a pessoas com quem ele precisa negociar. Em Bruxelas, é conhecido por abraçar, beijar e afagar quase todo mundo se isso servir aos seus propósitos, sempre em um clima descontraído.

Resta saber como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reagirá a isso durante as negociações cara a cara no Salão Oval, previstas para ocorrer nesta quarta-feira (25/07).

Na cúpula do G7 no Canadá em junho, Trump, ao falar de comércio, chamou Juncker de "matador brutal". Na época, o político luxemburguês não teve certeza se isso fora um elogio. Para o experiente negociador, no entanto, não há dúvida sobre como proceder: "Estou indo alegre e relaxado".

Trump impôs tarifas punitivas sobre as importações de aço e alumínio da UE. O bloco respondeu com encargos retaliatórios sobre mercadorias dos EUA. Ambos os lados apresentaram queixas junto à Organização Mundial do Comércio (OMC). Trump vem ameaçando há meses impor novos impostos alfandegários sobre carros europeus, uma ação que pode atingir a indústria automobilística alemã de maneira particularmente dura.

Há dez dias, o imprevisível presidente americano declarou que a UE é um concorrente, um adversário e até um inimigo. "A União Europeia é um inimigo. O que eles fazem conosco no comércio... Você não pensaria isso da União Europeia, mas ela é um inimigo", disse Trump em entrevista à CBS.

O principal assessor econômico do presidente americano espera que os europeus façam uma proposta para um comércio livre de tarifas. "Jean-Claude Juncker está chegando a Washington na semana que vem, possivelmente trazendo uma proposta comercial significativa ", disse Larry Kudlow à CNBC na semana passada. Poucos dias depois, a Comissão Europeia anunciou que nenhuma oferta deve ser discutida em Washington.

Kudlow também disse que a chanceler Angela Merkel está por trás da suposta proposta da UE, uma declaração que tem pouco a ver com a realidade da política comercial da UE. Juncker rejeita todas as tentativas de acordos bilaterais entre os estados da UE e Donald Trump. "A Comissão Europeia é a única responsável pela formulação da política comercial da União Europeia", disse ele, acrescentando que todas as tentativas de dividir os europeus são inúteis.

O fato de a política comercial da UE ser negociada em bloco por todos os 28 Estados-membros não parece fazer sentido para Trump.

"A UE é muito difícil. Tenho que lhe dizer. Talvez a coisa mais difícil de todas", reclamou Trump em entrevista à CBS. Então, mais uma vez, Juncker planeja mostrar ao presidente dos EUA as posições da UE e as vantagens do comércio transatlântico quando ele é o mais livre possível.

Juncker argumenta ter apresentado sua visão durante a reunião do G7 no Canadá, onde repetiu os argumentos da UE para Trump. "E eu farei isso de novo e de novo. Não se trata de 'fake news', e sim de fatos objetivos."

Se a disputa tarifária passar a incluir carros, isso seria um "desastre", segundo a comissária de comércio da UE, Cecilia Malmstrom, que acompanha Juncker a Washington. Ela diz que é importante convencer Trump a entender que as cadeias de produção estão tão entrelaçadas que mesmo empregos nos EUA correm risco se novas tarifas alfandegárias forem impostas aos europeus.

"Queremos difundir essa visão o mais rápido possível e desescalar essa situação antes que tudo exploda na nossa cara, prejudicando o relacionamento transatlântico, nossas economias e a ordem global", disse Malmstrom em Bruxelas antes de partir para Washington.

Até agora, esses argumentos não impressionaram Trump. Ele continua a misturar política comercial com segurança e defesa. Trump disse à CBS que quando se trata de comércio, a UE "realmente se aproveitou de nós, muitos desses países estão na Otan e não estavam pagando suas contas", se referindo às reclamações do governo americano de que muitos membros da aliança não contribuem significativamente em gastos com defesa.

Só que segundo Malmstrom, ligar questões comerciais com discussões sobre a aliança militar é errado. Ela argumenta que o comércio é entre empresas e pessoas, não entre estados. Os cidadãos, diz ela, acabariam pagando o preço pela briga.

Em seu encontro com Trump, Juncker provavelmente fará um esforço para agir com autoconfiança. A UE é afinal o maior parceiro comercial dos EUA e o mercado de exportação mais importante para as empresas norte-americanas.

A UE acaba de assinar um acordo de livre-comércio com o Japão e atualmente está ratificando um acordo semelhante com o Canadá. As negociações estão em andamento com a América Latina e a China.

Na reunião do G20, na Argentina, o secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, levantou uma proposta de comércio totalmente livre de tarifas entre os EUA e a UE.

Mas o livre-comércio sem tarifas era parte do abrangente do TTIP, o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento entre a UE e os EUA, que foi suspenso por Trump quando ele assumiu a Presidência.

As negociações sobre o TTIP poderiam ser retomadas com alguma adaptação. Daniel Caspary, um membro do Parlamento Europeu e especialista em comércio, sugeriu em junho que o acordo poderia ser rebatizado como "Trump-TTIP” ou "Trump-TTIP Imenso” se isso servir para avançar as negociações. Trump pode eventualmente vender tudo isso com um sucesso pessoal.

A comissária de Comércio da UE, Malmstrom, não arriscou palpitar sobre o que sairá das negociações em Washington. Ela está convencida da importância de se reunir e discutir as questões. "É um esforço que devemos tentar fazer, mas vamos ver. Talvez não haja resultado algum, e então teremos que discutir o que fazer."

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