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Feijão em troca de carros: um freio na guerra comercial

Bernd Riegert (de Bruxelas /av)

26/07/2018 11h22

Ao lado dos louvores recíprocos, escutam-se em Bruxelas também críticas sobre o acerto entre Juncker e Trump. Mais soja e gás americanos, enquanto tarifas sobre aço e alumínio da UE permanecem: um resultado justo?O tuíte de Donald Trump logo após o encontro com o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, nesta quarta-feira (25/07), tinha um tom benevolente e brando, ao contrário dos postados após a cúpula do G7 ou a da Otan. Mesmo várias horas depois de o político luxemburguês ter deixado a Casa Branca, o presidente dos Estados Unidos louvava o acordo a que ambos aparentemente haviam chegado em suas conversas visando evitar uma guerra comercial transatlântica.

"Representantes da União Europeia me disseram que iam começar a comprar soja dos nossos grandes fazendeiros imediatamente. Eles também vão comprar enormes quantidades de gás liquefeito!", triunfou o líder americano no Twitter. Numa segunda mensagem, acrescentou que era ótimo voltar a se entender com a UE.

Foi, portanto, uma guinada de 180 graus: apenas poucos dias antes, o errático presidente afirmava que tarifas eram "o máximo" para fazer política comercial. E agora, esse acerto de trabalhar na direção de "tarifa zero" para mercadorias industriais, excetuados os automóveis. Segundo o secretário de Comércio dos EUA, Wilbur Ross, isso deverá valer também para produtos agrários.

O chefe de Estado americano apresenta a seu país a venda de feijões e gás como sucesso. A UE lhe concede o triunfo, embora, segundo o perito econômico Peter Bofinger, os efeitos econômicos dessas promessas sejam antes "peanuts", bagatelas.

A UE importa do Brasil e dos EUA praticamente toda sua demanda de soja para ração animal. Após as tarifas impostas por Trump, a China reduziu drasticamente as importações de soja americana. O Brasil entrou em cena para fechar a lacuna de abastecimento, e o que o país não pode mais fornecer à UE, os EUA assumirão. Na prática, portanto, o fluxo comercial será redirecionado, mas não se venderá sequer um grão de soja a mais.

Como comentou em Bruxelas o eurodeputado verde Reinhard Bütikofer, "importações reforçadas dos EUA já ocorrem hoje". O porta-voz da Comissão Europeia Martin Winterstein assegurou que, embora o produto americano seja basicamente transgênico, a segurança alimentar na UE não será comprometida.

Funcionários da UE confirmam ter havido grande pressão da parte dos americanos para incluir a soja nas negociações. Contudo ressalvam que Juncker só pode fazer vagas declarações de intenção a respeito, uma vez que a Comissão Europeia, afinal de contas, não é quem compra o produto, e sim os produtores de rações e importadores de grãos, por iniciativa própria.

Como deixou claro em seu tuíte, Trump também quer de todo modo vender gás liquefeito americano à UE. Já dois anos atrás, Bruxelas aprovou um projeto para elevar as importações do produto, porém no momento ainda faltam os terminais de embarque e desembarque necessários na Europa e nos EUA.

Em termos de volume e de preço, porém, o gás liquefeito do outro lado do Atlântico não tem como concorrer com o gás natural da Rússia, fornecido através de gasodutos. Trump também citou em seu comunicado à imprensa frases que há muito fazem parte do repertório na UE, como "o gás liquefeito ajudará a UE a diversificar suas fontes de abastecimento".

De acordo com a União Internacional de Gás (IGU), no mercado do gás liquefeito, os americanos concorrem sobretudo com fornecedores mais baratos da África e da Austrália, os quais chegam a cobrar só a metade do preço dos EUA. Em 2017, a participação do liquefeito no fornecimento internacional de gás ficou abaixo de 10%.

"É preciso se perguntar: o que o lado europeu ofereceu, de fato, para se esquivar provisoriamente das tarifas punitivas sobre os automóveis? Minha intuição diz: não foi muito. E isso é bom", comentou à DW a economista Maria Demertzis, colaboradora do think tank Bruegel, de Bruxelas, e analista da política comercial europeia. "Ao todo, eu avaliaria o encontro como uma vitória para a UE."

A UE e os EUA perseguem há anos a meta de eliminar as barreiras aduaneiras para o maior número possível de mercadorias, já desde as negociações do abrangente Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP).

Antes que o novo governo em Washington congelasse as negociações a respeito, um ano e meio atrás, na realidade já se conseguira praticamente reduzir a quase zero as tarifas para bens industriais e automóveis. Agora, como declarou a comissária da UE para o Comércio, Cecilia Malmström, um grupo de trabalho com representantes americanos e europeus seguirá negociando esses pontos.

Numa primeira reação, o ministro francês das Finanças, Bruno Le Maire, exigiu que um acordo comercial com os EUA se baseie na "reciprocidade". Antes da viagem de Juncker aos EUA, a França exigira que a UE não negociasse "com um revólver na cabeça", numa referência às tarifas impostas por Trump ao aço e o alumínio. Segundo Washington, se conversará sobre essas tarifas, mas no momento elas continuam em vigor.

O porta-voz da Comissão Europeia Martin Winterstein assegurou em Bruxelas que o acordo entre Trump e Juncker foi fechado "em total concordância" com os governos da UE: "Aqui, foi a Europa quem falou. O presidente Juncker disse que negocia em pé de igualdade. Foi exatamente isso o que ele fez."

O presidente da Comissão de Comércio do Parlamento Europeu, Bernd Lange, critica o fato de que em Washington houve "grandes palavras, mas só um resultado magro", pois o cenário ameaçador americano, com tarifas punitivas para metais e automóveis, permanece.

"Isso é muito lamentável e uma base nada boa para negociações concretas", disse Winterstein, rechaçando as críticas do político alemão. "O fato de que não haverá tarifas adicionais sobre os carros é uma grande vitória. E as tarifas sobre o aço serem reexaminadas é igualmente uma vitória."

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