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"Venezuela virou um mundo absurdo"

José Ospina-Valencia (md)

26/07/2018 09h52

O FMI prevê que a Venezuela fechará 2018 com inflação de cerca de um milhão por cento. Em entrevista à DW, economista venezuelano fala sobre a crise econômica e possíveis saídas.Pablo Rafael González é economista, filósofo e cientista político venezuelano. Ele trabalhou no Escritório de Planejamento da Presidência no início dos anos 70 e foi assessor no Congresso na década de 1990. Em entrevista à DW, o especialista fala sobre a crise econômica na Venezuela e a atual hiperinflação que o país vive e seu reflexos entre a população empobrecida.

DW: A hiperinflação é a manifestação final da falência de um Estado. O que na Venezuela era possível comprar com um bolívar em 1º de janeiro de 2018, em 31 de dezembro custaria um milhão. Quais são os dados da desvalorização na Venezuela?

Pablo Rafael González: Desde janeiro de 2018, a desvalorização da moeda passou de 100 mil bolívares por dólar, no mercado paralelo, para 3,5 milhões de bolívares.

Qual é o principal motivo da hiperinflação?

O controle cambial, imposto pelo governo venezuelano, que força todos os preços a serem cotados com base nessa realidade monetária, nos levou ao colapso que estamos vivendo.

Em junho de 2018, o governo autorizou as operações a três casas de câmbio privadas que, desde então, compram, mas não vendem moedas conversíveis, e onde um dólar custa 2,5 milhões de bolívares, 17 vezes mais do que a Dicom (Cotação Flutuante de Divisas) oficial e mais próximo ao preço no mercado paralelo ilegal.

A hiperinflação venezuelana já é comparada com a da Alemanha em 1923, atribuída às despesas da Primeira Guerra Mundial. Com que os governos chavistas gastaram o patrimônio dos venezuelanos?

O controle do câmbio continua sendo a fonte do problema. Isso gera inflação, e a moeda se desvaloriza cada vez mais rapidamente, sem que o governo aceite discutir um fim do controle cambial.

Como se vive ou se sofre com a hiperinflação hoje na Venezuela?

O salário mínimo na Venezuela é de 5,5 milhões de bolívares. Isso equivale a 1,50 dólar. Um quilo de carne custa 10 milhões de bolívares, ou quase 3 dólares. O preço mínimo de um pão na Ilha Margarita, por exemplo, é de 1,4 milhão de bolívares. Os preços na Venezuela superam a lógica das estatísticas mundiais. De qualquer ponto de vista, mais da metade dos trabalhadores do país caribenho, que ganham o salário mínimo, não consegue cobrir suas necessidades mais básicas.

Desde o início de seu governo, Hugo Chávez começou a expropriar empresas estrangeiras e nacionais para, como ele dizia, colocá-las para produzir para o povo. O que aconteceu com isso?

A expropriação de empresas produtoras é, precisamente, outra causa do atual desastre. Hoje, a Venezuela não produz praticamente nada, nem produtos agrícolas nem de fábrica. A Venezuela se transformou em um mundo absurdo: expropriou a indústria do cimento: não temos cimento; expropriaram as produtoras de café: não temos café; expropriaram as empresas açucareiras: não temos açúcar.

Como é o suprimento de alimentos para as pessoas que trabalham com a gestão alimentar dos militares, entregue a eles por Nicolás Maduro?

Essa é outra das aberrações da vida na Venezuela. A caixa com alimentos básicos, chamada Clap, é recebida apenas por aqueles que possuem o Carnê da Pátria. O Clap é a sigla de Comitês Locais de Abastecimento e Produção.

Por quanto tempo os venezuelanos suportarão isso?

Não sei. A situação é muito grave.

O senhor propôs fórmulas. Como seria possível sair de tal atoleiro?

Eu propus a criação de uma nova moeda que deveria ser equivalente ao dólar, como o Brasil e a Argentina fizeram uma vez. Além de uma moeda respaldada pelo ouro e uma parte das reservas de petróleo, deve ser restaurada a liberdade do câmbio e criada uma nova escala de preços e salários internacionais. Mas sem uma mudança política, é impossível sair da crise.

Mas de que serve isso se o endividamento externo da Venezuela é enorme, mesmo que o governo não publique estatísticas?

A alta dívida externa é outra razão para o desastre. O país não pode se endividar mais, como propõe um grupo de Harvard. Pelo contrário, tenho proposto como uma meta ideal: pagar todas as dívidas da Venezuela até 2030.

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