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Os danos de longo prazo para crianças separadas dos pais nos EUA

Clare Richardson (av)

27/07/2018 10h38

Mesmo para os menores migrantes que já foram reunidos a seus familiares na fronteira, drama continua. Segundo médicos, trauma da separação deve deixar marcas para a vida toda, físicas e psicológicas.Seria de esperar que fossem reconfortantes as imagens da reunião de famílias separadas na fronteira dos Estados Unidos. Na realidade, porém, os vídeos de pais migrantes que reencontram seus filhos pela primeira vez, após meses de separação, desencadeiam emoções perturbadoras.

Num deles, o solicitante de refúgio guatemalteco Hermelindo Che Coc revê o filho de seis anos no Aeroporto Internacional de Los Angeles, trazendo um balão de "feliz aniversário" e um presente. Ao confrontá-lo, o garoto o fixa com o olhar vazio, nada de sorrisos nem gritos de alegria. Quando o pai o abraça, seu corpo está rígido.

O jornal The New York Times relatou histórias semelhantes, dos piores pesadelos de qualquer mãe ou pai: espantados, seus filhos não os reconheciam mais, e em vez disso chamavam pelos assistentes sociais dos abrigos para onde haviam sido levados após serem tirados de seus pais que tentavam entrar nos EUA.

"A primeira coisa que se deve registrar é que as crianças estão muito traumatizadas pela separação e pelas condições nos centros de detenção", explica Elizabeth Barnert, professora-assistente de pediatria da Universidade da Califórnia em Los Angeles. "Portanto a reunião é um momento muito atordoante e intenso. As crianças sentem alegria, mas também muita confusão e raiva."

A pesquisadora, que investiga a separação e reunificação de crianças desaparecidas durante a guerra civil de El Salvador, adverte ser possível que elas culpem os pais por abandoná-las. "Na psicologia infantil, a tendência natural é pensar: 'Mamãe, você não me protegeu.'"

"Cada dia agrava os danos"

Nesta quinta-feira (26/07), quando se encerrou o prazo dado por um juiz ao governo de Donald Trump para que crianças de cinco a 17 anos, afetadas pela política de tolerância zero com migrantes, fossem devolvidas a seus pais, autoridades anunciaram que mais de 1.800 foram entregues, mas que outras 711 permanecem separadas de seus familiares.

Os penosos reencontros já ocorridos demonstraram quanto dano a separação de milhares na fronteira acarretou às famílias. Os médicos apontam para a probabilidade de que os pequenos migrantes sofram danos físicos, mentais e emocionais de longo prazo.

O diretor do Centro para a Criança em Desenvolvimento da Universidade de Harvard, Jack P. Shonkoff, divulgou um comunicado em que alerta que privar um menor do apoio de seu ou sua cuidador(a) principal pode ter impacto severo, não só no aprendizado e comportamento, mas também, duradouramente, sobre a saúde.

"Acima e além do sofrimento visível 'do lado de fora', essa experiência devastadora desencadeia na criança uma maciça resposta biológica de estresse, que permanece ativa até o cuidador familiar voltar. [...] Cada dia em que deixamos de restituir essas crianças a seus pais, nós agravamos o dano e intensificamos suas consequências para toda a vida."

Lanre Falusi, do Sistema Nacional de Saúde Infantil de Washington, trata sobretudo imigrantes. Alguns de seus pacientes chegaram aos EUA após sofrer abuso e ameaça de sequestro. Um deles, um menino de dez anos, foi ameaçado de morte se não se juntasse a uma gangue.

Segundo a pediatra, o estresse extremo de ser separado dos pais exacerba o trauma pré-existente. Quando isso resulta em resposta de estresse tóxico, as consequências podem ser devastadoras.

"Vemos mudanças nos hormônios do estresse, no desenvolvimento cerebral. No longo prazo, isso também pode se manifestar na forma de doenças mentais, como transtorno de estresse pós-traumático (TSPT), ansiedade e depressão. Menores que sofreram estresse tóxico têm um risco maior de suicídio à medida que ficam mais velhos."

As crianças mais jovens são especialmente vulneráveis, podendo até desenvolver distúrbios físicos, explica Falusi. "As alterações hormonais na verdade causam mudanças nos corpos delas, como maior risco de doenças cardíacas, diabete, problemas hepáticos e câncer."

Em vez da felicidade, novos traumas

Defensores de leis de imigração rigorosas nos EUA argumentam que a ameaça verossímil de tratamento duro seja o único modo de evitar que eventuais imigrantes tentem atravessar ilegalmente a fronteira.

No entanto, Falusi está convencida de que seus pacientes em fuga da violência não veem alternativa: "Quando esses pais pegam seus filhos e seus pertences no meio da noite e fogem, eles não acham que tenham escolha."

No momento, o foco ainda está na estonteante logística de devolver as crianças que continuam separadas aos pais, o mais rápido possível. De acordo com as autoridades, as 711 que permanecem longe da família não estão elegíveis para a reunião por diversos motivos. Em mais de 400 casos, os pais já não estariam mais nos EUA.

Embora o governo Trump tenha adotado um novo curso, devido à grande indignação pública pelas separações na fronteira, a mudança de política em nada contribui para tratar dos danos já causados ou prover meios de remediá-los.

Para Barnert, é essencial considerar que passos tomar em relação aos menores após a restituição. Ela defende que eles sejam avaliados por profissionais de saúde mental e que lhes seja oferecido tratamento apropriado.

"Além de necessitar apoio psicológico, provavelmente todos esses jovens têm depressão, ansiedade ou algum componente de TSPT." Para famílias que pensavam ter escapado do pior e estar indo em direção a uma vida melhor, os Estados Unidos trouxeram novos traumas.

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