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Paquistão também acena ao populismo

27/07/2018 08h32

Sob a sombra dos militares e denúncias de fraude, país elege ex-estrela do esporte, famoso pela vida de playboy e que fez campanha com promessas vagas de combate à pobreza, ao nepotismo e à corrupção.A lenda do críquete Imran Khan, de 65 anos, venceu as eleições gerais no Paquistão em meio a denúncias de fraude nas urnas e intromissão dos poderosos militares do país, feitas por outros concorrentes, que tacharam Khan de ser um fantoche das Forças Armadas.

Segundo os números oficiais, divulgados nesta sexta-feira (27/07), o partido de Khan, o PTI, obteve no mínimo 114 assentos e terá a maior bancada no Parlamento. Ainda assim precisará de ao menos um aliado entre os partidos menores para governar.

O resultado coroa duas décadas de vida política do ex-capitão da seleção nacional de críquete, uma lenda no Paquistão por ter levado o país à conquista da sua primeira Copa do Mundo, em 1992, batendo a Inglaterra na final.

"Deus me deu a chance de chegar ao poder e implementar a ideologia que eu iniciei há 22 anos", disse Khan, ao declarar vitória, mesmo antes do resultado oficial, num discurso pela televisão feito da sua casa, perto de Islamabad.

Ao longo de anos, o PTI (Movimento do Paquistão pela Justiça), fundado por Khan, nunca obtivera bons resultados nas eleições nem conseguira se firmar como um partido nacional. Essa situação só começou a mudar em 2013, quando o partido se tornou o terceiro maior da Assembleia Nacional.

Mesmo assim, a vitória do esportista, tachado por adversários de diletante político, incapaz de transformar sua popularidade em votos, surpreendeu, já que ele passou a maior parte da sua carreira política às margens do poder.

Astro do críquete e da noite

Khan começou sua carreira no críquete em 1971 e quando se aposentou, 20 anos mais tarde, era visto como um dos melhores da sua posição. Ela comandou a seleção vitoriosa de 1992 e é até hoje chamado de "capitão" no país.

Filho de um engenheiro civil, Khan nasceu e cresceu num bairro relativamente rico de Lahore. Ele recebeu uma boa educação, tanto na sua cidade natal como, mais tarde, em Worcester, na Inglaterra. Foi lá que o seu talento para o críquete aflorou.



Mais tarde, Khan foi estudar política e economia na Universidade de Oxford. Ele se dedicou ao esporte durante sua estada no exterior e, quando retornou ao seu país de origem, em 1976, logo passou a jogar para a seleção nacional de críquete.

Fora dos gramados, ele se tornou conhecido pela vida de playboy e pela regularidade com que frequentava a vida noturna de Londres. Casou-se em 1995, aos 42 anos, com a britânica Jemima Goldsmith, herdeira de um milionário e que então tinha 21 anos. Os nove anos do casamento renderam inúmeras histórias para tabloides ingleses e paquistaneses.

Ciente do seu passado de playboy, já como político Khan tratou de cultivar uma imagem de fiel devoto do islã, a principal religião do Paquistão. Ele fez demonstrações públicas de devoção e conquistou eleitores principalmente no norte do país, entre a população conservadora pashtun. No começo do ano, ele se casou pela terceira vez, desta vez com sua conselheira espiritual.

Populistas e antielite

Na atual campanha, Khan conquistou os eleitores com um discurso de tons populistas, focado no combate à corrupção e ao nepotismo e na criação de empregos para os pobres, e anunciando que, em vez de morar no palácio do primeiro-ministro, a residência oficial, ele vai transformá-la num centro educacional.

Ele prometeu um "estado de bem-estar social islâmico" e atacou a "elite predatória que impede o desenvolvimento da nação", que tem 208 milhões de habitantes e uma taxa de analfabetismo superior a 40%.



O Paquistão, uma potência nuclear, enfrenta uma crise econômica que pode levar o país a solicitar um empréstimo ao FMI, apesar de o PTI não descartar pedir ajuda à China, maior aliado da nação e que o futuro premiê vê como modelo de desenvolvimento econômico.

A campanha de Khan foi recheada de ataques aos Estados Unidos e à arquirrival do Paquistão, a Índia. Mas, no seu primeiro discurso como futuro premiê, Khan amenizou o tom. Ele falou em melhorar as relações com os países vizinhos, incluindo a Índia, e defendeu uma "relação balanceada" com Washington.

O governo do presidente Donald Trump adotou uma linha dura em relação ao Paquistão, suspendendo ajuda e acusando o país de fazer muito pouco para combater o terrorismo.

Denúncias de fraude

Mas o desafio mais urgente de Khan serão as acusações de fraude eleitoral, que ele rejeita categoricamente. Apoiadores do ex-premiê Nawaz Sharif, que está na cadeia e cujo partido conquistou a segunda maior bancada, acusam Khan de se aliar aos militares e disseram que a eleição foi fraudada.

Tanto a Liga Muçulmana do Paquistão-Nawaz (PML-N), de Sharif, e o Partido Popular do Paquistão (PPP), liderado por Bilawal Bhutto, filho da ex-premiê Benazir Bhutto, disseram que seus fiscais foram retirados dos centros de votação durante a contagem dos votos ou receberam os resultados em papéis não oficiais.

"Estas eleições são vergonhosas. Não aceitaremos o resultado", disse Shehbaz Sharif, irmão de Nawaz e líder da PML-N. Tanto Bhutto como Sharif chamaram o futuro premiê de fantoche dos militares. O Exército negou qualquer intromissão na eleição e deslocou 371 mil soldados para os centros de votação em todo o país, quase cinco vezes mais do que nas eleições de 2013.

AS/rtr/dpa/afp/ap

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