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As pesquisas como fator eleitoral

Hyury Potter

23/09/2018 06h15

Sondagens se propõem mais a apontar tendências do que cravar números. E nisso, dizem analistas, dificilmente os grandes institutos costumam se enganar. Resultados influenciam estratégia do eleitor."As pesquisas não conseguiram computar estatisticamente as nuances imprevisíveis e insondáveis do caráter humano”, analisava o jornal The New York Times após a vitória do democrata Harry Truman contra o republicano Thomas Dewey nas eleições presidenciais dos Estados Unidos em 1948. O resultado contrariava as previsões expostas em pesquisas eleitorais. O jornal Chicago Daily Tribune estampava em manchete no dia da votação: "Dewey derrota Truman". Após o resultado, o democrata ergueu o jornal na festa da vitória. As pesquisas haviam perdido para as urnas.

Passados 70 anos, a precisão dos métodos utilizados para captar o humor do eleitor melhorou. Um estudo feito pela Universidade de Houston com mais de 500 votações em 86 países em 2013 apontou que mais de 80% das pesquisas eleitorais feitas a duas semanas da votação acertaram o vencedor. Outra parte do estudo, publicado na revista Science no ano passado, reuniu dados de 11 eleições na América Latina entre 2013 e 2014, com pesquisas indicando o vencedor correto em dez casos. Mais de 90% de acerto.

Mesmo com essa evolução, os EUA viveram um déjà vu com a vitória de Donald Trump em 2016. Mas para Pablo Ortellado, professor de Políticas Públicas na Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital, a possibilidade de vitória já estava na margem de erro. Naquela vez, afirma, não foram as pesquisas que perderam, mas os analistas.

"Foi um erro de leitura dos resultados das pesquisas. O que aconteceu foi que as pessoas não acreditavam que Hillary Clinton perderia porque não era o cenário mais provável, mas havia uma possibilidade dentro da margem de erro das pesquisas feitas dias antes da votação”, afirma Ortellado.

O principal autor do estudo, Ryan Kennedy, cita que as pesquisas acompanhadas pela equipe do Centro de Estudos Internacionais e Comparativos da Universidade de Houston detectaram que a candidata democrata tinha 84% de chances de vencer. Em uma área baseada em probabilidade, 16% não é um número que deveria ser descartado, como fez a imensa maioria de jornais e analistas.

"O que as pessoas esperam é que as pesquisas cravem números certos. Pesquisas eleitorais são apenas amostras e tendências do que pode ocorrer. Se uma pesquisa aponta que um candidato tem 90% de chance de vitória, isso significa que, em dez eleições, nove ele venceria. Mas a votação ocorre apenas uma vez, então aqueles 10% podem aparecer no resultado final”, diz Glauco Peres, cientista político da USP e pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento).

As estratégias do eleitor

A partir de domingo (23/09) o Brasil entra no período eleitoral que é abrangido pela pesquisa americana: a duas semanas da votação, os resultados das pesquisas dificilmente erram. É também a época onde os candidatos que precisam ganhar votos se tornam mais incisivos em debates e na propaganda. Para o professor Peres, há ainda um elemento a mais para movimentar a corrida eleitoral: a influência das pesquisas na tendência no voto do eleitor.

"O eleitor também tem uma estratégia, não vamos pensar que ele é 100% sincero na urna. Ele pode votar no candidato para vencer ou apenas para passar um recado. Por exemplo, os eleitores de Guilherme Boulos e João Amoêdo sabem que eles não têm chance de ir ao segundo turno, então esse é um voto ideológico. Mas esse eleitor pode mudar de opção caso acredite que pode mudar a ordem no topo da pesquisa para ter uma opção no segundo turno”, explica Peres.

O cientista político cita como exemplo de movimentação do eleitorado de acordo com pesquisas as eleições municipais de 2016 em São Paulo. Nos últimos dias os institutos de pesquisa apontaram um crescimento do então prefeito petista Fernando Haddad. Então, analistas apontaram uma migração e votos de outros candidatos em João Dória (PSDB), que acabou vencendo no primeiro turno.

"A rejeição ao PT na cidade era tão grande que acredito que o crescimento dele nas pesquisas induziu eleitores de outros candidatos a evitar uma reviravolta, então migraram para Dória. Quando decide o voto, o eleitor decide que quer uma coisa, mas também decide que não quer várias coisas. Por isso, a vitória no primeiro turno não era esperada”, conta Peres.

Tête-à-tête ou por telefone

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) registrou 147 milhões de eleitores aptos nas eleições deste ano. Como ouvir e analisar a intenção de todas essas pessoas é uma tarefa inviável, institutos de pesquisa delimitam um universo a ser apurado, como características de sexo, cor, escolaridade e renda dos eleitores.

A proporção da amostra a ser pesquisada deve ser igual à dos 147 milhões aptos pelo TSE. Por exemplo, se 52% dos eleitores brasileiros são mulheres, a mesma proporção de pessoas do sexo feminino deve estar representada nas entrevistas das pesquisas eleitorais.

Os dois maiores institutos de pesquisa do Brasil, Ibope e Datafolha, fazem pesquisas presenciais, mas utilizam métodos diferentes para chegar ao entrevistado. O Ibope manda os entrevistadores aos chamados "setores censitários” para obter respostas. Esses setores são áreas definidas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que usa esse método na elaboração do Censo. Já o Datafolha, para coletar respostas, encaminha os entrevistadores para "pontos de fluxo”, locais de grande trânsito de pessoas nas cidades.

As eleições deste ano ganharam um modelo novo de pesquisas no Brasil, o de questionários feitos por telefone. Um robô liga aleatoriamente para um determinado número de telefones, fixos e celulares, e registra dados pessoais dos entrevistados como CPF, sexo, cor e renda; em seguida o robô lê as perguntas. O método é bem mais barato também. Por telefone, uma pesquisa para coletar dados de 3 mil pessoas custa em média R$ 60 mil. Em um levantamento presencial o valor gira em torno de R$ 400 mil.

Mas a principal polêmica está na pergunta principal. Para escolher um candidato, pesquisas presenciais apresentam um cartão circular com os nomes, assim o entrevistado não consegue ver os políticos em uma lista com alguém no topo, o que pode induzir a uma resposta. Por telefone os nomes são lidos em ordem alfabética. Além disso, o robô lê os oito primeiros nomes relacionando às teclas de 1 a 8. Para ouvir os últimos cinco candidatos, o entrevistado precisa clicar no número 9 para recomeçar a contagem. Ou seja, tem que haver um esforço extra do eleitor para "encontrar” o seu candidato.

"É consenso que esse tipo de pesquisa ainda precisa ser calibrado. Há alguns ajustes estatísticos, até pelo número e acesso a telefone no Brasil e pela distribuição da pirâmide brasileira. Justamente por isso os resultados são divergentes de pesquisas presenciais”, afirma Pablo Ortellado.

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