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Guerra no Iêmen com armas europeias

Kersten Knipp (ca)

2018-11-30T12:50:00

30/11/2018 12h50

A DW pediu a um grupo de jornalismo investigativo da Jordânia que desvendasse de onde vem o armamento que os grupos terroristas que assolam o Iêmen estão usando. A conclusão: da Europa.Em janeiro de 2016, um vídeo da Al Qaeda mostrava a força do grupo no Iêmen, onde a organização terrorista vem sistematicamente aproveitando o caos da guerra civil para se fixar. As imagens mostraram como os combatentes estão bem armados por ali. Eles carregavam fuzis G3 e G36 e metralhadoras MG3 e MG4, que são produzidas sob licença da fabricante alemã Heckler & Koch na Arábia Saudita.

Os terroristas nunca deveriam ter tido acesso a essas armas. Um documentário encomendado pela DW e produzido pelo grupo Repórteres Árabes de Jornalismo Investigativo (ARIJ), baseado na Jordânia, mostra como esses e outros armamentos europeus acabaram nas mãos de combatentes no Iêmen.

O direito internacional define de forma explícita quem pode comprar armas legalmente. Ele também estipula que armamentos não podem, em nenhuma circunstância, ser repassados a terceiros. Apesar dessas leis, no entanto, vários grupos extremistas no Iêmen estão agora em posse exatamente de tais armas.

Como isso foi possível? Por que a Al Qaeda possui armas fabricadas sob licença de firmas alemãs? O general de brigada Mohammed al-Mahmoudi, que comanda as tropas do governo na cidade de Taiz, diz que as armas foram inicialmente enviadas para unidades que lutam ao lado do presidente Abed Rabbo Mansour Hadi.

O problema, no entanto, é que, além de ser muito pouco, o pagamento dos militares vem somente em intervalos irregulares. Para pagar as contas, alguns recorrem à venda de armas e munições, que então acabam, diretamente ou através de terceiros, nas mãos da Al Qaeda ou de outros grupos terroristas.

A Heckler & Koch foi questionada pela reportagem sobre o assunto, mas não respondeu. O Ministério da Economia alemão, por sua vez, afirma que não tem conhecimento de evidência confiável que comprove que armas fabricadas na Alemanha estariam sendo usadas no Iêmen e diz que leva de forma extremamente séria qualquer indicação de que isso possa estar acontecendo.

Ahmed Himmich, que coordena um painel de especialistas no Iêmen a pedido do Conselho de Segurança da ONU, diz que as vendas ilícitas de armas são comuns no país. Segundo ele, há combatentes que não estão sob o controle do governo do Iêmen e que recebem apoio militar, incluindo armas que acabam então no mercado negro.

Um dos grupos jihadistas é a brigada Abu Abbas, uma organização parceira da Al Qaeda. A brigada também possui outras armas, como o fuzil RPG-32 guiado a laser, fabricado na Jordânia em cooperação com uma empresa russa.

Inúmeros vídeos estão em circulação na internet, produzidos principalmente pelas próprias facções em conflito. A apresentação dos armamentos vistos nos filmes também se parece com uma espécie de apresentação de fabricantes de armas europeus: armas e equipamentos militares da empresa belga FN Herstal ou granadas de mão HG 85, desenvolvidas pelos militares suíços.

O governo belga não concordou em conceder uma entrevista, mas o suíço disse que iria verificar as informações fornecidas pela reportagem. Armas produzidas na Espanha podem ser vistas sendo usadas no Iêmen por grupos não autorizados. Nem os fabricantes espanhóis nem o governo em Madri responderam ao grupo de repórteres árabes.

O documentário revela que muitos dos armamentos foram distribuídos primeiramente na Arábia Saudita ou nos Emirados Árabes Unidos (EAU), enquanto outros vêm do Irã. "Estes incluem drones e combustível para mísseis", diz o especialista Ahmed Himmich em nome da equipe de pesquisa do Conselho de Segurança da ONU. "Todos foram comprados por quatro ou cinco países e depois exportados para o Irã."

"Se uma arma do Reino Unido ou dos Estados Unidos cai nas mãos de uma organização terrorista, como o 'Estado Islâmico', esses países têm uma grande dor de cabeça em lidar com esse problema, mas isso é muito menos problemático para a Sérvia, Bulgária ou outros países do Leste Europeu", explica Marzouk.

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