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Iugoslávia, um Estado fadado a fracassar

Nenad Kreizer (av)

03/12/2018 13h46

Há um século, foi proclamado o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, batizado depois como Iugoslávia. Há 25 anos o Estado multiétnico se desintegrou. Já estaria condenado à morte desde sua fundação?A Iugoslávia está morta há um quarto de século, mas até hoje o conceito mantém seu significado para muita gente. Não só para os que nasceram nesse país, mas também para alemães que passavam lá as férias ou frequentavam um dos numerosos restaurantes iugoslavos em funcionamento em várias partes da Alemanha, desde a década de 1960.

A maioria, porém, associa hoje a Iugoslávia sobretudo à guerra civil que a assolou nos anos 90, e cujos efeitos tardios marcam até hoje os Estados oriundos do país desintegrado.

Também a fundação do primeiro Estado da Iugoslávia, em 1º de dezembro de 1918, foi consequência de uma guerra. Quando, no fim da Primeira Guerra Mundial, o Império Austro-Húngaro da monarquia dos Habsburgos entrou em colapso e grande parte da Europa foi reorganizada, ofereceu-se a chance de realizar um velho sonho.

Já no século 19, intelectuais, sobretudo da Croácia, impulsionavam o Movimento Ilírico, baseado no mito de que os iugoslavos, ou eslavos do sul, descendiam todos do antigo povo dos ilírios, sendo portanto natural que vivessem todos sob um mesmo Estado.



Em 1917 encontraram-se na ilha grega de Corfu representantes dos eslavos meridionais da Áustria-Hungria – entre os quais sérvios, croatas e eslovenos – e representantes do Estado sérvio, fundado já em 1835. Juntos, eles decidiram anunciar a fundação de uma nação comum, o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos.

No entanto a "Declaração de Corfu" tinha um déficit decisivo, explica a historiadora Marie-Janine Calic: "Ela diziq eu nomes, símbolos e religiões dos sérvios ortodoxos e dos eslovenos e croatas católicos seriam iguais perante a lei. No entanto, permaneceu em aberto a questão de como isso seria politicamente implementado numa Constituição."

Esse defeito congênito provou ser fatal, pois já na época as profundas diferenças entre a noção centralista de Estado da Sérvia e os desejos federalistas dos croatas e eslovenos pesavam no debate político.



Por isso, desde 1990 se afirma, principalmente na Croácia, que a Iugoslávia foi um "cárcere de povos", assim como a monarquia dos Habsburgos e o Império Otomano, no qual croatas e eslovenos eram reprimidos pelos sérvios. Certos historiadores contradizem essa visão.

"O Reino da Iugoslávia não se formou do nada", afirma, por exemplo, Ulf Brunnbauer, da Universidade de Regensburg. "Havia elites políticas na Sérvia, Croácia e Eslovênia que, por motivos diversos, tinham interesse num Estado conjunto e acreditavam nele."

Enquanto a Sérvia se via como potência vencedora da Primeira Guerra, que travara luta sangrenta pela independência do novo Estado comum, os croatas e eslovenos queriam libertar-se do domínio austro-húngaro, para finalmente viver num país em que tivessem plenos direitos.

"Em 1918, eslovenos e croatas tinham pouca ou nenhuma alternativa para a Iugoslávia. A ideia de soberania nacional não era muito popular, a Iugoslávia era um desejo de muitos", explica Brunnbauer.

Talvez seja esse justamente o motivo por que o novo Estado não sucumbiu às tensões internas. Batizado Reino da Iugoslávia em 1929, ele foi destruído em 1941 a partir de fora, quando alemães e italianos o ocuparam.

Do combate aos invasores resultou, dois anos mais tarde, a segunda Iugoslávia. No entanto, o segundo Estado multiétnico dos eslavos meridionais lutava com problemas semelhantes aos do primeiro, especialmente após a morte de seu fundador e presidente vitalício, Josip Broz Tito (1892-1980).

Além das gigantescas diferenças sociais e econômicas entre o norte – Eslovênia e Croácia – e o sul – Sérvia, Macedônia e Kosovo – faltava às diferentes repúblicas da Federação Socialista a disposição de subordinar seus interesses particulares ao Estado comum, segundo a historiógrafa Calic.

"Do ponto de vista político, foi decisivo o fato de o consenso encontrado pelas elites em 1917-18 – ou seja, de construir um Estado conjunto – ter se rompido nos anos 80."



Por outro lado, na época praticamente não existia o ódio alegadamente secular entre as diferentes comunidades nacionais da Iugoslávia, citado com frequência, desde o começo da década de 90, como explicação para a desintegração e guerra, frisa o historiador Hannes Grandits, da Universidade Humboldt, em Berlim.

"Estudos mostram que, até o início dos anos 1990, animosidades entre os diferentes povos não eram muito pronunciadas – com a exceção de sérvios e albaneses. Isso só mudou depois de começarem as ações bélicas, em 1991."

Somente no decorrer das guerras na Eslovênia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Kosovo e Sérvia, entre 1991 e 1999, o abismo separando os povos eslavos do sul atingiu o nível atual. Hoje, entre a Eslovênia e a Macedônia, praticamente ninguém cogita uma nova Iugoslávia.

"A ideia do iugoslavismo está morta", resume o professor Brunnbauer. "E no entanto seria bem se não fosse assim, pois econômica e politicamente tudo seria a favor de uma cooperação estreita entre os países pós-iugoslavos. [Essa ideia] continua unindo muita coisa, mesmo que os nacionalistas o neguem."

Não há projetos políticos realistas visando uma integração regional. A única coisa que une os países da área hoje conhecida como "Bálcãs Ocidentais" é o desejo de pertencer à União Europeia. E é justamente aí que os historiadores veem a única chance da ex-Iugoslávia.

Segundo Grandits, "a integração dos Estados dos Bálcãs Ocidentais na UE resultaria em muitos problemas, com que hoje esses países se debatem, se resolverem por si sós. Não todos, mas realmente muitos."

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