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O mito do lobo solitário

Sandra Petersmann

18/03/2019 15h38

A que tudo indica, o massacre de Christchurch foi realizado por um único extremista. Mas chamá-lo de "lobo solitário" apenas abre tornar o terreno ainda mais fértil para o terror de extrema direita.O extremista de direita norueguês Anders Behring Breivik é considerado o protótipo do "lobo solitário". Em 22 de julho de 2011, assassinou 77 pessoas: oito morreram na explosão de um carro-bomba próximo de edifícios governamentais em Oslo e as outras vítimas eram participantes de um acampamento de jovens organizado pelo Partido Trabalhista na ilha de Utoya.

"A Europa está se tornando cada vez mais familiarizada com ataques de extremistas, mas as ações de Breivik fizeram dele o mais mortal lobo solitário na história do continente", escreveu a revista Newsweek em abril de 2016.

O autor dos massacres na cidade neozelandesa de Christchurch, que foi classificado como lobo solitário logo poucas horas após o atentado terrorista contra duas mesquitas, reverenciava profundamente Breivik.

A investigação ainda está em fase inicial. No momento, não está claro se o acusado, Brenton Tarrant, é o autor de fato do manifesto de 74 páginas que circulou nas redes sociais pouco antes dos massacres. O documento também foi enviado via e-mail ao gabinete da primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern.

"Eu não sou membro direto de nenhuma organização ou grupo, embora tenha doado [dinheiro] a muitos grupos nacionalistas e tenha estado em contato com tantos outros. [...] Nenhum grupo me ordenou a agir – eu mesmo tomei essa decisão", diz um trecho do manifesto. "O número total de pessoas nessas organizações é de milhões, e o número total de grupos é de milhares."

Mas aquele que se apresenta deliberadamente como um agente único obviamente se vê como parte de um movimento maior. Seria ele então realmente um lobo solitário?

Nos momentos mais sombrios, seres humanos buscam segurança. Isso oferece uma distância protetora quando se chama de lobo solitário um terrorista que cometeu um crime inimaginável e desumano – em vez de um membro de um bando que deixou sua matilha para executar sua crueldade.



"A noção de que os terroristas operam sozinhos nos permite desfazer o elo entre a violência e o campo ideológico", aponta o jornalista britânico Jason Burke num artigo publicado no diário The Guardian em 30 de março de 2017.

Burke escreveu vários livros sobre o terrorismo do "Estado Islâmico" e da Al Qaeda. Ele diz que a teoria do lobo solitário reforça o ilusório pensamento humano de que "a responsabilidade pelo extremismo violento de um indivíduo reside unicamente no indivíduo".

Os terroristas da era moderna podem nem sempre pertencer a uma organização terrorista claramente identificável como a Al Qaeda, o autoproclamado "Estado Islâmico" ou o grupo neonazista alemão Clandestinidade Nacional-Socialista (NSU).

No entanto, sua radicalização ocorre no ambiente social em que vivem. A internet e as mídias sociais permitem aos terroristas uma rede global sem precedentes e disseminação – inclusive a transmissão ao vive de seus atos via Facebook.

Terroristas são produtos de seu tempo. Um aumento da intolerância tem se estabelecido nos últimos anos como uma tendência social global, alimentado por uma política cada vez mais populista.

E este anseio por respostas simples polariza. Estranhos e diferentes se tornam imagens inimigas. O estabelecimento do extremismo no cerne da sociedade é reforçado pela digitalização da vida humana. Relacionamentos reais são substituídos por relacionamentos virtuais. Mas os contatos virtuais têm consequências reais.

David Sonboly, que assassinou nove pessoas num shopping center em Munique em 22 de julho de 2016, estava intensamente envolvido em redes virtuais xenofóbicas. Como data de seu atentado, Sonboly deliberadamente escolheu o quinto aniversário do ataque terrorista de Breivik. No mundo virtual, houve elogios de pessoas que compartilham seus ideais.

Inclusive extremistas islâmicos, que executaram ataques na Europa como "lobos solitários" seduzidos pela retórica jihadista, tiveram contatos virtuais com membros do "Estado Islâmico" na Síria e no Iraque poucos instantes antes de seus atos – assim como Anis Amri, o autor do atropelamento no mercado natalino de Berlim em 2016.

"O terrorismo não é algo que se faz sozinho, mas é alto bem social", escreveu Burke. "As pessoas estão interessadas em ideias, ideologias e atividades, inclusive no horripilante, porque outras pessoas estão interessadas nelas." Tem a ver com adquirir notoriedade e inspirar imitadores.

Caso Tarrant seja de fato o autor do manifesto de 74 páginas que surgiu em conexão com o ataque terrorista de Christchurch, então ele se referiu explicitamente a Breivik e ao americano Dylann Roof, que em 17 de junho de 2015 matou nove cidadãos afro-americanos numa igreja em Charleston. "Eu li os escritos de Dylann Roof e muitos outros, mas apenas Breivik me inspirou verdadeiramente", diz um trecho do manifesto.

Breivik executou a saudação nazista de Hitler no tribunal. No sábado, em seu primeiro comparecimento a uma corte, Tarrant formou um círculo com polegar e indicador de sua mão direita e esticou os três dedos restantes – um sinal comum entre os supremacistas brancos – quando entrou na sala.

Breivik e Tarrant comprovadamente tiveram contato doméstico e internacional com outros extremistas de direita – seja real ou virtual. Tarrant viajou bastante, também na Europa. Em seu agora deletado perfil no Facebook ele compartilhava ideias de direita e artigos sobre extremistas de direita da Europa, incluindo ao menos uma matéria da DW sobre extremistas de direita na Bundeswehr – aparentemente ele considerava estes soldados seus irmãos de espírito.

Breivik e Tarrant se veem como cruzados modernos que lutam pela preservação e pureza de uma supostamente ameaçada raça branca europeia. Ambos consideravam especialmente os muçulmanos como supostos "invasores" que lutam pela dominação mundial.



Neste ponto, aglutinam interseções ideológicas entre o terrorismo de extrema direita e o mainstream social do mundo ocidental. Islamofobia, racismo e nacionalismo branco há tempos encontraram espaço nos parlamentos de democracias ocidentais, seja nos EUA, na Austrália ou na Europa.

O senador islamofóbico australiano Fraser Anning, do estado de Queensland, emitiu a seguinte declaração oficial imediatamente após o atentado em Christchurch: "Sejamos claros: embora hoje os muçulmanos sejam provavelmente as vítimas, eles geralmente são os agressores. Em todo o mundo, os muçulmanos matam em escala industrial em nome de sua religião".

Quando definem o termo nação, o populismo e o extremismo de direita fazem igualmente uso da ideologia de sangue e solo (Blut und Boden, expressão alemã associada a ideologias nacionalistas e biologicistas existentes pelo menos desde o fim do século 19).

Na mesma linha de pensamento do suspeito do massacre de Christchurch, o líder do partido populista Alternativa para a Alemanha (AfD), Alexander Gauland, tem espalhado no país a tese da alegada "troca populacional".

A partir dessa suposta "mudança populacional" da Alemanha em prol de refugiados e migrantes muçulmanos, o partido de Gauland fomenta uma política de isolamento. "Não temos interesse em nos tornar mundanos. Queremos permanecer alemães", disse Gauland em setembro de 2018 durante um comício em Frankfurt.

O australiano Tarrant, acusado de cometer o massacre na Nova Zelândia, tampouco se radicalizou num vácuo social como o convertido alemão Christian Lappe, que morreu pelo "Estado Islâmico" na Síria, ou como Uwe Böhnhardt, Uwe Mundlos e Beat Zschäpe, que cometeram homicídios em nome da NSU na Alemanha.

Neste contexto, um estudo sobre 119 terroristas individuais apresentado pelo Centro Internacional para Estudos de Terrorismo da Pennsylvania State University em fevereiro de 2013 é esclarecedor. Segundo os pesquisadores, a vasta maioria dos perpetradores solitários "participava regularmente de uma gama reconhecível e observável de comportamentos e atividades em torno de um grupo de interesse, movimento social ou uma organização terrorista".

O estudo da universidade americana chegou a outra conclusão dramática. Em cerca de dois terços dos casos estudados, familiares, amigos ou conhecidos estavam cientes do envolvimento do agressor em uma ideologia extremista.

Em 64% dos casos, as famílias e os amigos "também estavam cientes da intenção do indivíduo em participar de uma atividade terrorista porque o agressor lhes havia comunicado". Neste contexto, a teoria confortável do lobo solitário não convence. Os terroristas fazem parte da sociedade. E é uma tarefa comunitária detê-los.

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