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Opinião: Ultradireita mostra sua verdadeira cara na Áustria

Barbara Wesel

2019-05-19T07:26:00

19/05/2019 07h26

Escândalo que revelou descaramento e arrogância do ex-vice-premiê foi um golpe para os extremistas de direita, mas acima de tudo advertência para os conservadores que querem fazer alianças com eles, opina Barbara Wesel.Os vídeos do encontro secreto do ex-vice-premiê austríaco Heinz-Christian Strache com uma representante de um suposto oligarca russo são cinema de grande formato. O jeito como o agora também ex-presidente do Partido da Liberdade (FPÖ), de extrema direita, se aboleta no sofá, meio embriagado e bem desinibido, é um presente para seus adversários políticos e uma advertência ao chanceler federal conservador Sebastian Kurz. Strache arrancou a máscara da civilidade da própria cara: o que se vê é uma careta.

No fundo, a "operação Ibiza" não revelou nenhum dado inesperado sobre o caráter de Strache e seus correligionários. No máximo, espanta o descaramento do populista ao oferecer contratos públicos a supostos investidores russos em troca de doações para o FPÖ, incluindo na barganha, de quebra, o desejado alinhamento político de um grande jornal. Strache se comportou como se a república alpina e seus cidadãos fossem propriedade sua.

As revelações chegam após uma cadeia de escândalos que vinha colocando sob pressão crescente a coalizão de governo conservadora-ultradireitista de Viena. Houve, por exemplo, a ligação do FPÖ com um integrante dos "identitários", que recebera dinheiro dos perpetradores do atentado em Christchurch, Nova Zelândia.

Os extremistas de direita abriram uma campanha contra a emissora austríaca de direito público ORF, por um apresentador ter justificadamente indagado quanto à possível filiação nazista de uma caricatura de responsabilidade da facção Juventude do FPÖ.

Um outro político do partido comparara seres humanos a ratos; numa noitada de cerveja associada ao ultradireitistas cantou-se repertório nacional-socialista – a lista dos incidentes é longa. Há muito o FPÖ age fora do espectro da democracia partidária, ao conscientemente abrir mão de se distanciar dos neonazistas e outros grupos radicais de direita.

O escândalo é um golpe para a planejada aliança dos partidos de direita no próximo Parlamento Europeu. Seus líderes dão de ombros e se apresentam ou como vítimas de uma campanha, ou como completamente alheios ao assunto. Porém o caso do FPÖ volta a mostrar que eles não querem nenhuma reforma da Europa, mas sim sua destruição, e que seu modelo político se origina em parte na Rússia, em parte no fascismo.

Após o "caso Ibiza", devem estar definitivamente enterradas as esperanças do ministro do Interior italiano e chefe da ultradireitista Lega, Matteo Salvini, de conquistar o conservador Partido Popular Europeu (PPE) como parceiro de aliança e realmente obter influência sobre a política europeia.

Em giro de campanha eleitoral, o principal candidato do PPE, Manfred Weber, distanciou-se, afirmando já ter dito que extremistas de esquerda e direita e populistas não são uma solução. Difícil entender por que ele menciona neste contexto os esquerdistas, quando se trata de ultradireitistas, e por que seu distanciamento foi tão sem convicção.

Infelizmente foi o próprio Weber – que anos a fio deu cobertura à ascensão do autodeclarado antidemocrata Viktor Orbán como líder autocrático da Hungria – a combater abertamente os valores e normas europeu. E infelizmente Orbán é o modelo para Salvini e outros decididos a repetir sua receita.

Será que nesse ínterim esses fatos são tão embaraçosos para Weber, que ele prefere não falar do escândalo do FPÖ? Enquanto ele não reconhecer o que se está maquinando no canto direito do Parlamento Europeu, e que ele não pode fazer negócios políticos com esses partidos, não há salvação para Manfred Weber.

O chefe de governo Sebastian Kurz pensou que podia cavalgar o tigre FPÖ. Porém nos últimos tempos os "libertários" austríacos deixaram de lado todas as reservas e dificultam cada vez mais a vida dele. Kurz quer salvar seu resto de credibilidade como conservador burguês, porém Strache e companhia seguem empurrando o governo para o lado da extrema direita. O premiê devia ter entendido que no longo prazo essa aliança não seria sustentável e defensável.

No fundo, é bem simples: quem entra no lamaçal vai se sujar. Quem acredita ser capaz de fazer amizade com extremistas de direita e neonazistas, torna-se idiota útil para eles. Não pode haver coalizão de governo com gente que denomina as democracias ocidentais "decadentes" e é admiradora da ditadura à moda de Putin.

O caso "Strache em Ibiza" é um último aviso a todos na Europa que se acreditam capazes de entrar no barco com os extremistas de direita e sobreviverem como democratas. É tarde demais para avisos de "cortem o mal pela raiz". Agora a palavra de ordem é "parem com isso, já".

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Autor: Barbara Wesel

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