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"Teorias da conspiração ajudam o populismo de direita"

Torsten Landsberg (md)

20/06/2019 13h52

Especialista alemão afirma que, ao disseminarem ameaça de um "grande complô", pregadores de teorias da conspiração contribuem para o descrédito do sistema político e da coexistência democrática.A Terra seria plana, a CIA estaria por trás dos ataques de 11 de setembro e Angela Merkel seria filha de Adolf Hitler – além disso, judeus, maçons e marxistas estariam interessados em dominar o planeta: teorias da conspiração se espalham com rapidez e teimam em continuar circulando, apesar das evidências.

Em entrevista à DW, o professor de literatura e história da cultura da Universidade de Tübingen e estudioso de teorias da conspiração Michael Butter afirma que a disseminação de tais teorias contribuem, no campo político, para a ascensão de partidos populistas de direita verificada em alguns países.

"Teorias da conspiração frequentemente têm um forte ímpeto conservador no sentido de preservar uma ordem ameaçada ou trazer de volta uma ordem abolida pelos supostos conspiradores", afirma Butter. "Tanto teóricos da conspiração como populistas são movidos por uma nostalgia pelo passado", acrescenta.

DW: As teorias de conspiração são diversas: elas podem ser divertidas, porque são inofensivas, como Elvis, que supostamente vive numa ilha solitária, ou ridículas, quando dizem que Angela Merkel é uma alienígena. Quando uma teoria da conspiração se torna problemática?

Michael Butter: Mesmo uma teoria da conspiração inofensiva à primeira vista pode ser problemática, como quando alguém acredita que Angela Merkel é uma alienígena e acha que precisa fazer algo a respeito. Em geral, elas não são inofensivas quando são dirigidas contra os mais fracos ou minorias, como refugiados ou, historicamente, contra os judeus. Ao mesmo tempo, as teorias da conspiração podem, claro, ser perigosas para nossa coexistência democrática.

Porque a desconfiança em relação à política fica fora de controle?

Se alguém acredita que os nossos políticos estão todos em um grande conluio e não faz diferença alguma em se votar na CDU ou no SPD ou nos Verdes ou na Esquerda, porque eles são todos marionetes de uma conspiração, então ou a pessoa se retira da cena política e não participa mais de nada – esse seria o famoso desencantamento político – ou a pessoa vota naqueles que se apresentam como uma verdadeira alternativa à essa velha política. E estes são nos últimos anos, em todo o mundo ocidental e também além dele, os partidos populistas de direita, que na realidade também não contribuem realmente para a solução dos problemas.

Usando o exemplo do fosso existente entre ricos e pobres, as pessoas esclarecidas também podem ter a impressão de que algo está errado em nosso sistema político. Isso dá um sentido à teoria da conspiração?

Com certeza. As teorias da conspiração não são apenas o domínio dos loucos paranoicos, que certamente existem. Mas também há muitas pessoas racionais que acreditam em teorias da conspiração porque estão procurando explicações para problemas bastante reais. Na grande maioria dos casos, você tem que levá-los a sério, porque eles são um sintoma e nos apontam para as coisas que preocupam as pessoas. As teorias da conspiração sobre a nova ordem mundial são, naturalmente, respostas a problemas associados à globalização que estão sendo percebidos.

Teorias da conspiração têm atualmente uma imagem ruim. Isso foi historicamente diferente, antigamente, tais teorias eram consideradas como conhecimento de elite. Isso se deve ao fato de o fluxo de informação não ser tão disseminado naquela época?

Não, era mais uma questão de se estar realmente convencido, tanto no discurso dominante quanto no discurso acadêmico, de elite e científico, de que o mundo simplesmente funciona assim. Acima de tudo, as teorias da conspiração foram desqualificadas sobretudo por teorias de psicologia e das ciências sociais modernas, que dizem que os sistemas sociais desenvolvem suas próprias lógicas. Podemos explicar por que as pessoas agem como se tivessem combinado tudo, sem tê-lo feito. Esses conceitos ainda não existiam nos séculos 17, 18 e 19. Eles se desenvolveram apenas a partir do final do século 19.

Hoje temos um tremendo acesso à informação quando nos dispomos a deixar nossas bolhas de informação. Embora todos tenham acesso a informações pela internet, esse acesso parece estimular a disseminação de teorias da conspiração em vez de limitá-la. O que torna os defensores das teorias da conspiração tão resistentes aos fatos?

Estudos dos EUA mostram que os teóricos da conspiração acreditam ainda mais em suas teorias de conspiração depois que são confrontados com evidências conclusivas que as desmentem. As teorias da conspiração são extremamente importantes para a identidade daqueles que acreditam nelas. Elas são uma oferta de explicação de como o mundo funciona. E nelas tudo funciona, não há coincidências, uma engrenagem encaixa na outra. A crença e a propagação das teorias da conspiração tornam possível à pessoa se destacar da multidão. Os defensores de teorias da conspiração dizem de si mesmos: "Entendemos como o mundo realmente funciona. Nós acordamos, abrimos nossos olhos, enquanto outros estão andando pelo mundo dormindo." Por isso, a identidade deles é muito depende das teorias da conspiração.

Teorias de conspiração também são usadas como um meio de desinformação, não por pessoas que acreditam nelas e querem informar os outros, mas por aquelas que visam influenciar os outros.

Claramente, há aqueles que as usam cinicamente e estrategicamente para alcançar certos objetivos. Em casos individuais, é muito difícil decidir: ele acredita nisso, não acredita nisso? O site Buzzfeed descreveu bem o papel de George Soros nessas teorias da conspiração na Hungria, especialmente no caso de Viktor Orbán. Ali foi provado muito bem como dois consultores de Orbán, ironicamente, até mesmo dois conselheiros judeus, inventaram essa teoria da conspiração sobre Soros sem que ninguém acreditasse – nem mesmo Orbán. Eu sei, através de colegas da nossa rede internacional que, através de informantes, estão muito próximos do governo húngaro, que mesmo Orbán passou a acreditar que George Soros está à frente de uma grande conspiração mundial.

Essa desinformação se torna convicção?

Psicologicamente, tendemos a acreditar nas coisas que nos são úteis. Essa dissonância cognitiva a pessoa tem quando está sempre mentindo e isso se torna um fardo psicológico, que é mais fácil de suportar se a pessoa se convence a si própria "isso é realmente verdade".

Mesmo mudanças que são percebidas pela maioria das pessoas como conquistas e coisas óbvias, como a igualdade de gênero, são usadas ??para teorias da conspiração. Será que a realidade é liberal demais para os seguidores dessas teorias?

As teorias da conspiração frequentemente têm um forte ímpeto conservador no sentido de preservar uma ordem ameaçada ou trazer de volta uma ordem abolida pelos supostos conspiradores. Este é também um paralelo em relação ao populismo. Tanto teóricos da conspiração como populistas são movidos por uma nostalgia pelo passado. Tomemos como exemplo o medo de homens brancos nos EUA que veem sua posição social sendo minada cada vez mais. Mesmo quando eram pobres, ficaram por muito tempo acima de todos os que não eram brancos – e ficavam acima das mulheres. E agora eles mesmos são desafiados. Esta é uma defesa contra uma mudança social que certas pessoas não querem aceitar e que passam a tomar como efeitos de uma conspiração, contra a qual seria perfeitamente legítimo lutar, já que essa luta seria apenas a defesa contra um complô.

O mundo só pode ser explicado quando ele é simplificado e quando se culpa os outros pelos erros ocorridos?

Para algumas pessoas, é mais fácil aceitar que determinados vilões estão mexendo os pauzinhos ocultamente do que aceitar que não há ninguém mexendo os pauzinhos. Teorias da conspiração muitas vezes simplificam, à medida que o campo político é reduzido entre os conspiradores e os outros. Ao mesmo tempo, eles têm que fazer operações muito complicadas para mostrar porque X e Y estão em conluio e que tudo faz parte de um grande plano.

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Autor: Torsten Landsberg (md)

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