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"Revelações da Lava Jato não fariam diferença na crise venezuelana"

João Soares

16/07/2019 10h23

Tentativa de interferência divulgada pelo Intercept não mudaria situação na Venezuela, onde corrupção é usada como política pública, diz analista. Em entrevista, ele descarta intervenção do governo Bolsonaro no país.Diálogos revelados pelo site The Intercept Brasil neste mês indicam uma articulação na força-tarefa da Lava Jato para vazar informações sigilosas relativas à delação da Odebrecht sobre a atuação da empresa na Venezuela. A estratégia, que envolveu o então juiz Sergio Moro, teria o objetivo de municiar a oposição ao chavismo às vésperas de eleições regionais.

Especialista na política do país vizinho, o colombiano Raúl Gallegos é diretor associado da Control Risks, agência de análise de riscos. Em entrevista à DW Brasil, ele destrincha a relação dos governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro com a corrupção e relativiza o impacto de denúncias sobre práticas irregulares no país. "Mostrar que o regime é corrupto é como dizer que o tigre tem listras", diz.

Gallegos não acredita que uma intervenção no país vizinho esteja mesmo nos planos do presidente Jair Bolsonaro. "A preocupação central para o Brasil é como mitigar o impacto negativo do número crescente de migrantes. Todo o resto é diplomacia e política", avalia o analista, autor do livro Crude Nation: How oil riches ruined Venezuela.

DW Brasil: O site The Intercept Brasil divulgou diálogos do então juiz federal Sérgio Moro com procuradores da Lava Jato, que indicam que houve uma articulação para vazar dados da delação da Odebrecht sobre propina na Venezuela. Como você vê essa tentativa de interferência na crise venezuelana?

Raúl Gallegos: A Venezuela é um país extremamente corrupto. Nos últimos 20 anos, durante a administração chavista, muito dinheiro foi perdido para a corrupção oficial. Sabemos que a Odebrecht teve participação, garantindo que muito dinheiro fosse destinado à administração chavista. Não acho que novas revelações fariam tanta diferença na crise venezuelana. As pessoas estão penando para sobreviver e encontrar remédios, dia após dia.

O governo não irá tomar quaisquer medidas em relação à corrupção, porque, no momento, utiliza a corrupção quase como política pública. Eles permitem e incentivam a corrupção dentro do governo para manter as pessoas leais, pois a prioridade é sobreviver no poder. Mostrar que o regime é corrupto é como dizer que o tigre tem listras.

Como se dava a participação da Odebrecht no regime chavista?

Há um número considerável de membros do governo venezuelano que foram amplamente acusados de suspeitas sobre o recebimento de enormes quantias de dinheiro. Com base nos dados divulgados até aqui, trata-se do segundo maior aporte destinado à corrupção pela empresa no continente, atrás do Brasil apenas. Mas o que é notório sobre o caso Odebrecht na Venezuela é que nada foi realmente feito para investigar ou prender pessoas envolvidas. Entre elas, um ex-ministro dos Transportes que foi presidente do metrô de Caracas e outros projetos que envolviam a Odebrecht.

O acordo para a construção da refinaria Abreu e Lima em parceria entre o governo brasileiro e venezuelano foi um dos focos iniciais da corrupção exposta pela Lava Jato e representou, em certo momento, um símbolo da relação entre os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez. Como você avalia a relação entre esses governos e os de seus sucessores?

Por muito tempo, foi uma questão ideológica, quando havia uma série de governos que tendiam à esquerda ganhando popularidade na América Latina. Para Maduro e Chávez, ter políticos ideologicamente alinhados no Brasil foi uma ferramenta muito poderosa para projetar suas ideias e importância na região.

Era fundamental encontrar aliados com afinidades de ideias, uma vez que os EUA não eram um aliado e não tendiam a ver o governo chavista com olhos gentis. Uma série de outros países com democracias liberais também não eram propensos a se alinharem com Chávez ou Maduro.

Fora a afinidade político-ideológica, havia um terceiro componente, o da corrupção. Quanto mais corrupto o governo da Venezuela se tornou nos últimos 20 anos, mais acordos obscuros foram feitos na região, incluindo o Brasil.

Creio que a relação tinha uma natureza política e econômica. Especialmente nos últimos três anos, quando o governo venezuelano de fato se tornou uma ditadura, mais integrantes do regime vêm se beneficiando da falta de transparência e todo tipo de negociações corruptas. Creio que o caso da Odebrecht se funde a esse componente da relação da Venezuela com outros países.

Houve uma mudança no trato com a corrupção após a transição do governo Chávez para o de Maduro?

Com base no que sabemos até aqui, pessoas da família de Chávez se envolveram com diferentes tipos de corrupção. São alegações que saíram na imprensa. Nada se descobriu até agora contra ele, pessoalmente. Mas acho que diversos grupos corruptos ganharam poder crescente no governo durante os últimos anos da administração Maduro. Especialmente porque agora há menos dinheiro para manter essas pessoas felizes, e o governo está desesperado para sobreviver, sob ataque permanente da oposição. É uma gestão crescentemente ditatorial.

Para fazer isso, é preciso o apoio de pessoas e grupos de poder centrais da administração, o que significa permitir que se corrompam. Há suspeitas de que o governo liberou sua participação no tráfico de drogas, mineração ilegal, contrabando de gás para fora do país, câmbio negro e uma série de atividades com o objetivo de mantê-los alinhados. Esse cenário facilitou o crescimento e intensificação da corrupção.

Como você avalia a retórica e a postura do presidente Jair Bolsonaro e de seu chanceler, Ernesto Araújo, em relação às Venezuela? Como o Brasil deveria se posicionar em relação à Venezuela, na sua opinião?

Francamente, não acredito que o Brasil realmente poderia participar de uma intervenção armada ou de qualquer natureza para remover Maduro do poder. Tampouco a Colômbia ou qualquer país da região estaria preparado, a esta altura, para participar ou apoiar uma intervenção dos EUA. A Control Risks também não vê o governo dos EUA realmente preparado para intervir forçadamente na Venezuela. Não acreditamos que, de fato, todas as cartas estejam sobre a mesa.

Os EUA não querem intervir forçosamente. Eles sabem que seria uma situação muito difícil, que demandaria sustentar o problema por muito tempo, provavelmente com um engajamento sangrento. Da parte do presidente Bolsonaro, creio que seja somente um jogo de cena.

A preocupação central para o Brasil é como manejar o grande número de pessoas entrando no país e mitigar o impacto negativo do número crescente de migrantes buscando ajuda, estadia, alimentos e educação — essencialmente, os serviços públicos. Isso é a prioridade. Todo o resto é diplomacia e política. Francamente, não acredito que a diplomacia fará tantos esforços para derrubar a administração de Maduro.

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Autor: João Soares

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