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Mies van der Rohe, o homem que desmaterializou a arquitetura

Carlos Albuquerque

17/08/2019 12h22

Há 50 anos morria o mais importante arquiteto alemão do Modernismo. Último diretor da Bauhaus, ele marcou como poucos o design e a produção arquitetônica da nossa era. Sua influência vai até os dias de hoje.Há exatamente 50 anos, em 17 de agosto de 1969, morria em Chicago o arquiteto alemão Ludwig Mies van der Rohe. Se ele não tivesse existido, a paisagem urbana que nos rodeia, a concepção das fachadas de edifícios e as plantas das moradias que habitamos não teriam as mesmas feições que assumiram desde o início do século 20.



Nascido em Aachen, na fronteira alemã com a Holanda, em 27 de março de 1886, é o próprio Mies van der Rohe quem dá a chave para a compreensão de sua arquitetura ao comentar, num artigo publicado em 1961, a influência que as construções de sua cidade natal, a antiga capital do Sacro Império Romano Germânico, exerceu em sua obra.

Ludwig Mies (o sobrenome da mãe, van der Rohe, foi incluído por Mies mais tarde) frequentou a escola da catedral católica construída por Carlos Magno e ajudou o pai na firma de cantaria que possuía. Passando sua infância e adolescência entre lápides e igrejas medievais, sua formação não foi acadêmica, mas de natureza prática e religiosa.

Os primeiros anos

Nietzsche havia decretado a morte de Deus e os homens estavam entregues ao seu destino. "Sou a hora, e a hora é de assombros e toda ela escombros dela", as palavras de Fernando Pessoa não poderiam definir melhor a crise de valores em que se encontrava a Europa entre o final do século 19 e início do século 20.

Esse era o contexto cultural que Mies encontrou em Berlim em 1905, quando foi trabalhar no escritório do arquiteto Bruno Paul. Dois anos mais tarde, um professor de filosofia, completamente idealista, queria que sua casa fosse construída por um arquiteto jovem. Paul indicou Mies, que aos 21 anos projetou e construiu a residência de Alois Riehl, um dos principais filósofos berlinenses do início do século 20.

O projeto de Riehl lhe abriu as portas da sociedade berlinense, pondo-o em contato com intelectuais e lhe possibilitando trabalhar com Peter Behrens, para quem os outros pais do movimento modernista da arquitetura, leiam-se Le Corbusier e Walter Gropius, também trabalharam entre 1907 e 1910.



Behrens, Berlage e "o solitário caçador da verdade"

Behrens incorporou os fundamentos de um novo estilo, baseado na síntese da vida e da arte, no espetáculo arquitetônico e na recepção estilizada da Antiguidade clássica. Ele distanciou-se do traço sinuoso do Art Nouveau, sendo precursor de um movimento baseado na linha reta.

No entanto, a acídia de Mies van der Rohe não combinava com um possível formalismo de Behrens, e Mies procurou a influência de outro precursor do movimento modernista, o arquiteto holandês Hendrik Berlage, com quem se encontrou em Amsterdã, em 1912.

Os princípios de Berlage baseavam-se no neoplatonismo da Idade Média, na filosofia de Santo Agostinho, cuja frase "a beleza é o brilho da verdade" tornou-se praticamente um axioma para Mies.

Seguindo os passos do mestre Berlage, a lei universal não era mais a verdade histórica, mas a procura da essência, da verdade da construção. Foi por essa busca constante da essência construtiva, da precisão do detalhe, que Walter Gropius apelidou Mies de "o solitário caçador da verdade".



Desmaterialização da arquitetura

A aplicação da procura da essência na arquitetura tem como consequência sua desmaterialização. A arquitetura de Mies tornou-se somente estrutura e membrana externa ou, como ele mesmo dizia: uma arquitetura de "pele e osso". A perfeição técnica dos detalhes viria apenas a apoiar esse sentimento de vazio do espaço, que segundo Mies, deveria ser preenchido pela vida.

Os projetos de Mies são, às vezes, completamente ideais, somente espaço, como seus arranha-céus de vidro de 1922 ou a residência Farnsworth, nos EUA, de 1950. Em outros, matéria e espaço interagem num jogo constante, como na residência Tugendhat de 1931, Patrimônio Histórico da Humanidade, na cidade tcheca de Brno.

Mies estava no auge de sua carreira na Alemanha, quando foi convidado para projetar o pavilhão alemão para a Feira Mundial de Barcelona em 1929, hoje ícone do modernismo arquitetônico. Em 1930, ele assumiu a direção da Bauhaus, em Dessau.



O nazismo no poder e a emigração para os EUA

Em abril de 1932, os nazistas fecharam a Bauhaus. Mies a transferiu com financiamento do próprio bolso para um galpão industrial em Berlim-Steglitz. Em julho de 1933, ela foi novamente fechada pelos nazistas, que a consideravam "bolchevismo cultural".

Mies não se considerava uma pessoa politizada. É interessante seu comentário sobre um colega que havia trabalhado para os nazistas: "Não o desprezo por ser nazista, mas por ser mau arquiteto."

Os anos de 1930 não foram fáceis para Mies, que não conseguia construir e vivia dos móveis que havia projetado. Emigrou para os EUA em 1938, aceitando o convite para dirigir o departamento de arquitetura do Instituto de Tecnologia de Illinois, em Chicago, cujo campus também projetou.



Na posse, foi saudado por Frank Lloyd Wright, que anos mais tarde o acusaria de haver fundado um novo classicismo nos Estados Unidos. E, de fato, com exceção da residência projetada para a senhora Farnsworth, em 1950, que lhe valeu um processo e, em época de caça às bruxas, a acusação de ser obra de comunista, Mies deu um caráter bastante clássico à sua arquitetura nos Estados Unidos.

Sua obra tornou-se mais estática, sem o jogo de diferenças que enriquecia a sua arquitetura anterior. Terminada em 1969, ano de sua morte, a Neue Nationalgalerie (Nova Galeria Nacional) de Berlim, seu único projeto construído na Alemanha após a Segunda Guerra, comprova esse classicismo, embora apresente a mesma conquista espacial de seus projetos anteriores, principal característica da obra de Mies van der Rohe.

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Autor: Carlos Albuquerque

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