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Opinião: Afeganistão, 100 anos de instabilidade

Florian Weigand

19/08/2019 12h58

Há um século o Afeganistão se tornou um Estado independente, abrindo um período de constantes altos e baixos. Agora, um novo período de incerteza se aproxima, opina Florian Weigand.Poucos poderiam resumir melhor a história de seu país como um afegão que conheci em 2006, em Cabul: "Alexandre, o Grande, veio aqui e se foi, assim como os britânicos e os soviéticos. Por que os americanos também não iriam?"

Depois de 13 anos, suas palavras parecem se tornar realidade. Um acordo com o Talibã sobre o fim da presença dos Estados Unidos no país pode ser assinado qualquer dia desses. Dessa forma, poderá ser concluída mais uma volta na "montanha russa" da cordilheira do Hindu Kush, onde mudam os passageiros, mas os altos e baixos são sempre os mesmos.

Logo de início, criou-se um mito favorito entre os afegãos: o de que os invasores vêm e vão, mas seu tempo no país é sempre muito limitado. Isso gera, ao mesmo tempo, muito orgulho e incômodo a muitos afegãos. Eles sonham com um Afeganistão livre, que não seja mais usado como um joguete nas mãos dos poderes estrangeiros.

Por outro lado, de que forma poderia o país prosperar sozinho – um território amplo, árido e sem acesso ao mar, abençoado com ricos recursos minerais, mas cuja exploração ainda sofre com a falta de tecnologia e infraestrutura.

A primeira tentativa de modernização, de fazer o país se erguer com seus próprios pés e de agarrar o desenvolvimento com suas próprias mãos, começou há exatos 100 anos. Na época, em 1919, após três guerras exaustivas e fracassadas, os britânicos tiveram de aceitar que eles próprios se tornariam apenas mais um capítulo na história do país e, finalmente, conceder a independência ao seu protetorado.

O primeiro rei afegão, Amanullah Khan, queria um país aberto, mas não submetido ao controle estrangeiro. Ele se orientou por tendências modernistas do Oriente. Seu ídolo era o fundador secular da Turquia moderna, Kemal Atatürk.

Ele também se impressionou bastante com a Alemanha da República de Weimar, que conheceu em visitas de Estado. Sua esposa Soraya, que deixou de cobrir a cabeça com o véu islâmico, pressionava o monarca para avançar reformas profundas no país.

Hoje em dia, autoridades do governo adoram postar citações do rei nas redes sociais, nas quais ele enfatiza que os afegãos podem apenas definir seu futuro sob sua própria responsabilidade. Mas seria de fato Amunallah uma esperança e um exemplo para o futuro?

Aqueles que o aplaudem nos dias de hoje não devem se esquecer do fim amargo daquele período. O rei logo acabou sendo considerado um mero imitador do Ocidente e um traidor de sua própria cultura. Depois de uma revolta, ele teve que partir para o exílio. Seu sucessor reverteu as reformas, mas não se manteve no trono por muito tempo.

Ele foi seguido por reformistas, como o rei Zaher Shah, que manteve a paz no país durante muitos anos. Mas, ao final, ele e muitos dos que o sucederam acabariam assassinados ou removidos do poder. Esse período se encerrou com a invasão soviética em 1979, mas, uma década mais tarde, eles também acabariam deixando o país. Depois disso, nos anos 1990, o Afeganistão atravessou uma guerra civil e, mais tarde, viria o Talibã.

E o que virá após a intervenção militar dos EUA, em consequência dos ataques de 11 de setembro de 2001, além de duas missões da Otan, bilhões de dólares em ajuda e mais de uma década e meia de uma democracia constitucional?

Mito da invencibilidade

Parece que a montanha-russa afegã ruma, mais uma vez, ladeira abaixo. Os EUA perderam o interesse no país. Para promover uma saída que evite maiores constrangimentos, os americanos não temem chegar a um acordo com os extremistas do Talibã. A única condição é que o grupo prometa que não vai mais praticar o terrorismo. O que acontecer depois com o país não importa para os americanos.

A experiência do povo afegão, plenamente consciente de sua história, será, então, reafirmada: os poderes estrangeiros vêm ao país apenas para promover seus próprios interesses e valores.

É claro que outros povos também tiveram experiências semelhantes. Algumas delas levaram a soluções bastante criativas, como, por exemplo, no subcontinente indiano, aonde após o fim do período colonial britânico, também veio a independência.

Os Estados que então surgiram, a Índia, o Paquistão e Bangladesh – este último após a separação do Paquistão nos anos 1970 –, mantiveram algumas características benéficas das antigas forças de ocupação, como o sistema educacional, as Forças Armadas e até o idioma inglês como língua franca.

O mito afegão de sua própria invencibilidade, combinado com as tristes experiências com parceiros inconstantes, gera certo ceticismo quanto a ideias vindas de fora. Isso deixa o país vulnerável a extremistas que prometem evitar, ou até reverter, essas influências.

Os extremistas omitem o fato de que a cultura afegã, cuja "pureza" eles alegam defender, também resulta de muitas influências externas, seja da Arábia, Pérsia, Ásia Central ou do subcontinente.

Se essa capacidade de modificar influências políticas e culturais do país, maturadas durante milhares de anos, for reavivada, é possível que as reformas internas no Afeganistão não tenham mais que fracassar com a regularidade habitual.

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Autor: Florian Weigand

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