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EUA abrem caminho para ofensiva da Turquia na Síria

07/10/2019 07h55

Forças americanas começaram a se retirar do nordeste da Síria. Guinada política possibilita operação militar turca contra milícias curdas, que vinham atuando como aliadas dos EUA na luta contra o Estado Islâmico.Os Estados Unidos iniciaram neste domingo (07/10) a remoção de suas tropas no noroeste da Síria ao longo da fronteira com a Turquia, numa mudança radical das políticas adotadas por Washington que abre o caminho para uma ofensiva turca contra milícias curdas na região.

Autoridades militares americanas confirmaram que seus soldados se retiraram de dois postos de observação na fronteira e avisaram os comandantes da milícia Forças Democráticas Sírias (SDF), liderada pelos curdos, que não iriam defendê-los no caso de uma ofensiva das tropas turcas. Os EUA justificaram a medida em razão da derrota do grupo extremista "Estado Islâmico" (EI) no território sírio.

"A Turquia prosseguirá em breve com sua operação há muito planejada no norte da Síria", afirmou a Casa Branca em comunicado, após conversa por telefone entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e seu homólogo turco, Recep Tayyip Erdogan.

"As Forças Armadas dos Estados Unidos não apoiarão e não estarão envolvidas na operação; as forças americanas, tendo derrotado o 'califado' territorial do EI, não estarão mais nas imediações", dizia a nota do governo americano.

A Turquia vinha defendendo a criação de uma "zona segura" de 32 quilômetros ao longo da fronteira, sob controle de suas forças, forçando a remoção da milícia síria-curda Unidades de Proteção Popular (YPG) da região. O YPG, a maior força dentro da aliança que forma as SDF, é considerado por Ancara como uma organização terrorista e uma ameaça à sua segurança nacional.

Os Estados Unidos apoiaram o YPG no combate ao EI na Síria e vinham buscado um "mecanismo de segurança" conjunto na região, com o envolvimento da Turquia, para atender às exigências de Ancara, sem, no entanto, gerar ameaças às SDF.

Nesta segunda-feira, as SDF acusaram Washington de renegar apoio ao grupo aliado que liderou o combate ao EI na Síria e alertou que a medida deverá gerar impactos negativos na luta contra os jihadistas. "Apesar de nossos esforços para evitar uma escalada militar com a Turquia [...] as forças americanas não cumpriram os compromissos firmados", disse o grupo em comunicado.

"As forças dos EUA nos demonstraram que não é dessa forma que se valoriza a amizade e a aliança", disse um porta-voz da SDF no Twitter. Ele avalia que a decisão do presidente americano deve "arruinar a confiança e a cooperação entre as SDF e os EUA construídas durante a luta contra o EI. Alianças se constroem com base na confiança mútua".

A uma TV árabe, o porta-voz também descreveu a mudança de postura dos EUA como uma “punhalada nas costas”. "Havia garantias dos Estados Unidos de que o país não permitiria operações militares turcas na região", disse o porta-voz Kino Gabriel. "A declaração (dos EUA) foi uma surpresa e podemos dizer que é uma punhalada nas costas das SDF".

As SDF afirmam que perderam 11 mil soldados nos cinco anos de combates contra o EI. O grupo é considerado por Washington como o mais eficiente no combate aos jihadistas. A Casa Branca transferiu para a Turquia a responsabilidade pelos prisioneiros do EI capturados em combate, que atualmente se encontram em instalações das SDF.

A nota do governo americano chamou a atenção para os aliados europeus, que Washington insiste para que assumam suas responsabilidades e repatriem os extremistas provenientes desses países. "Os Estados Unidos não vão mantê-los pelo que poderá ser um período de muitos anos, com grandes custos aos contribuintes americanos", dizia a nota da Casa Branca.

O porta-voz de Erdogan, Ibrahim Kalin, afirmou que a zona segura proposta por seu país deve preservar a integridade territorial da Síria. Segundo afirmou no Twitter, os objetivos seriam "dar segurança à nossa fronteira ao remover elementos terroristas e possibilitar o retorno de refugiados de maneira segura".

Ao comentar a decisão americana, Erdogan não mencionou uma provável ofensiva militar na região, mas disse que seu país está determinado a deter o que considera como ameaças por parte dos combatentes sírio-curdos.

O país, que acolhe em torno de 3,6 milhões de cidadãos da Síria que fugiram da guerra civil em seu país de origem, iniciada em 2011, tem como objetivo reassentar 2 milhões de refugiados sírios na zona segura.

Na conversa com Trump, Erdogan expressou sua frustração com o fracasso dos EUA em implementar um acordo negociado entre os dois países. A criação da zona de segurança havia sido acordada entre os dois aliados na Otan em agosto, mas Ancara se queixava de que os EUA agiam com demasiada lentidão e ameaçava lançar por conta própria uma ofensiva na região.

As relações bilaterais foram abaladas recentemente com a aquisição por parte de Ancara de sistemas russos de defesa de mísseis S-400 e com processos legais contra funcionários consulares americanos na Turquia.

Após o telefonema, a Casa Branca afirmou que os dois líderes planejam se encontrar em Washington em novembro.

RC/rtr/dpa/ap

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