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A marginalização da mão de obra estrangeira na Alemanha Oriental

Melina Grundmann

08/11/2019 08h57

A República Democrática Alemã aliciou trabalhadores no exterior para desenvolver a economia. Deviam ficar invisíveis e, após a Reunificação, sair do país. Alguns ficaram até hoje, como a vietnamita Huong Trute.Huong Trute sobe as escadas para seu restaurante na pequena cidade de Wernigerode, na região do Harz, no estado de Saxônia-Anhalt. Na entrada, há uma fotografia dela com a chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel.

Em um painel de discussão, Trute teve a oportunidade de debater com a chefe de governo da Alemanha o papel dos chamados "trabalhadores contratuais" (Vertragsarbeiter), trabalhadores estrangeiros temporários contratados para trabalharem na então República Democrática Alemã (RDA).

Trute, de 62 anos, veio em 1976 do Vietnã para a Alemanha Oriental – um ano após o fim da Guerra do Vietnã e o ano em que concluiu o ensino escolar. Mas o país asiático estava destruído, quase sem perspectivas.

"Quando foi dito que eu poderia fazer uma formação profissionalizante na Alemanha, concordei imediatamente. Mas eu não sabia no que estava me metendo", recorda Trute. Como parte de um programa de solidariedade entre a RDA e o Vietnã, ela fez uma capacitação profissional em usinagem. Em seguida, formou-se em engenharia pedagógica.

Apesar de estarem alojados em dormitórios separados e não tivessem muito contato com a população, Trute e seus colegas estrangeiros inicialmente se sentiram bem-vindos na Alemanha Oriental. Os vizinhos traziam flores e frutas frescas para os jovens vietnamitas.

Mas, quando concluiu o programa em 1981, Trute teve que voltar ao Vietnã. No entanto, devido à crescente escassez de profissionaisqualificados, a RDA dependia cada vez mais de mão de obra estrangeira – a Alemanha Oriental acabou fechando outros acordos com o Vietnã e outros Estados socialistas, permitindo, portanto, que mais e mais vietnamitas viessem ao país.

Ambiente de exclusão

Em 1987, Trute recebeu a oportunidade de retornar à RDA como trabalhadora contratual. em hesitar, ela aceitou a oferta. Mas, desta vez, a receptividade foi diferente.

"As pessoas nos evitavam. Sempre que íamos às compras, recebíamos olhares realmente desaprovadores das vendedoras. Elas nos olhavam como se tivéssemos vindo da selva. A calorosa cordialidade havia sumido", recorda Trute.

Ela e os outros contratados estrangeiros que trabalhavam com ela numa fábrica de roupas se sentiam marginalizados. O governo da RDA ainda os ameaçou com deportações, caso tentassem entrar em contato com a população. Integração? Nem um pouco desejada.

Quando em 1989 cai o Muro de Berlim e a Alemanha imergiu num estado de euforia, não estava claro o que aconteceria com os trabalhadores estrangeiros, com contratos temporários de trabalho. Ninguém os informou, ninguém se importou com eles. Muitos perderam seus empregos da noite para o dia – e, consequentemente, suas residências. A incerteza se alastrou rapidamente.

"Eu estava tão desesperada. Não sabia o que estava acontecendo, pensei que tudo estava acabado. Havia um sombrio clima de final dos tempos", relata Trute.

Acordos de repatriamento

Nos anos seguintes, o governo alemão tentou enviar os trabalhadores contratados pela República Democrática Alemã de volta aos países de origem por meio de acordos de repatriação. Como muitos outros, Trute não queria deixar o país. Ela se casou com um alemão e ficou na Alemanha.

Isso não agradou a todos, e Trute percebeu rapidamente. Logo depois da chamada Wende, o processo completo da mudança do socialismo para uma economia de mercado capitalista na Alemanha Oriental, Trute se encontrou com um médico, que tratava os trabalhadores contratuais. O médico a questionou sobre o que ela ainda fazia no país. Afinal, ela não era mais necessária porque a RDA não existia mais.

O ódio contra estrangeiros culminou em 1992 nos ataques de Hoyerswerda e Rostock-Lichtenhagen: residências e veículos dos ex-trabalhadores temporários vietnamitas foram atacados por extremistas de direita. Trute acompanhou os ataques na televisão. "Meu marido chorou. E eu lhe disse que seria difícil para nós e que, talvez, eu tivesse que deixar o país", lembra.

Mas Trute decidiu desafiar a hostilidade e permaneceu em Wernigerode. Ela abriu um restaurante vietnamita-japonês e fundou uma parceria entre cidades alemãs e vietnamitas, com a qual organiza o intercâmbio de trabalhadores qualificados entre o Vietnã e a Alemanha.

Ela diz se sentir bem, mas que também vê paralelos entre o presente e o passado. "Estou observando com preocupação os desdobramentos neste país, mas espero que as pessoas que me querem bem sejam maioria, para que não haja perigo para nós. Eu desejo muito isso. Mas é necessário que cada um de nós seja aberto e não tenha medo de estranhos. Porque nós, estrangeiros, trazemos o sal para a sopa desta sociedade."

Trute conta que manteve seu passaporte vietnamita, mas que só volta ao Vietnã em caso de emergência.

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Autor: Melina Grundmann

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