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Opinião: A Espanha precisa de uma nova cultura política

Barbara Wesel

11/11/2019 16h44

Não é possível repetir votações até que haja uma maioria única e clara no parlamento. As formações de governo estão cada vez mais difíceis na Europa. A Espanha precisa aprender a arte do compromisso, opina Barbara Wesel.Trata-se de uma impertinência e tanto: quatro eleições gerais em quatro anos. E os eleitores espanhóis se mostraram notavelmente pacientes, pois ainda ao menos 70% deles compareceram às urnas no domingo (10/11). Mas o clima entre os cidadãos é inequívoco: os políticos precisam finalmente encontrar uma saída para o impasse político e um fim à omissão.

Parece que há alguns anos ninguém na Espanha olha para além do próprio umbigo político. Enquanto em quase toda a Europa o domínio das antigas constelações bipartidárias acabou, obrigando abordagens mais criativas para formar um governo, em Madri ainda vigorava o antigo estilo de oposição incondicional. Política como um duelo contínuo, no qual só há um vencedor e um vencido no final.

Mas também na Espanha houve mudanças no alicerce político. O parlamento está mais fragmentado do que nunca e, com 19 agrupamentos – menores e maiores – só é possível formar um governo por meio de coalizões flexíveis e criativas.

E neste aspecto, os eleitores querem que os partidos busquem a reconciliação de interesses e deixem de lado a teimosia ideológica. Justamente onde a legenda Podemos falhou miseravelmente. Considerado há alguns anos como uma nova esperança, o partido de esquerda despencou no interesse do eleitorado porque se mostrava inflexível e relutante a governar.

Mas os cidadãos não esperam que seus representantes deem grandes discursos no parlamento, mas que façam política em nome de seus interesses. Uma olhada na Holanda mostra como isso pode funcionar. Por lá se desenvolveu uma verdadeira arte, com a qual são construídas coalizões complexas, que geralmente até duram alguns anos e são capazes de sustentar governos bastante estáveis.

E os históricos políticos recentes na Áustria ou na Alemanha são uma prova de que grandes coalizões entre as duas principais forças partidárias podem funcionar, condicionadas ao fato de serem soluções temporárias. E, no caso de um impasse político, deveri-am ao menos ser levadas em consideração. Mas para isso os partidos da Espanha precisariam primeiro esquecer as inimizades enraizadas.

No entanto, o que não pode resultar disso é a total flexibilização para com a extrema direita, sem que seja analisado de perto com quem está se pretendendo unir forças. O Partido Popular (PP) tem demonstrado inclinação em trabalhar com a legenda ultradireitista Vox, apenas por acreditar que conservadores e extremistas de direita combinam melhor do que conservadores e social-democratas.

Mas será isso mesmo? O conservador PP quer apoiar um tipo de ressurgimento da ditadura de Franco ao tornar o Vox socialmente aceitável? O PP realmente quer reverter os direitos das mulheres e das minorias? O PP visa realmente declarar um estado de emer-gência na Catalunha para reprimir com força o movimento separatista? Esse debate não foi realizado entre os conservadores espanhóis, o que levantou a questão sobre quão responsáveis eles são politicamente.

O que o Brexit representa para o Reino Unido, a crise da Catalunha representa para a Espanha – divisão no país e promoção de um novo nacionalismo. Embora o movimento separatista na própria Catalunha tenha perdido popularidade, os ativistas têm recente-mente reacendido os ânimos na região. E em Madri, a política conservadora e de direita tem reagido nos moldes do binômio estímulo-resposta do condicionamento clássico de Pavlov: atacar é a única resposta.

No entanto, toda pessoa racional sabe que apenas uma ação política com paciência e bom senso pode levar a uma solução. O presidente do governo da Espanha, Pedro Sánchez, conseguiu alcançar com certo sucesso o equilíbrio necessário entre rigor e compromisso. Mas a absurda falta de compromisso da direita tem o colocado cada vez mais sob pressão.

A política da Espanha precisa de menos ideologia e emoção e de mais racionalidade prática. Os tempos em que a política podia ser vista como um jogo de tudo ou nada acabaram. Não há mais espaço para teimosias partidárias.

No entanto, até agora, há poucas evidências de que o país e sua política rompam com velhos maus hábitos. E se as pessoas encarregadas em Madri conseguirão gerenciar isso, está em aberto. Mas basicamente eles não têm outra chance. Caso eles transfiram novamente sua incapacidade aos eleitores, seria o maior desastre político possível.

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Autor: Barbara Wesel

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