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Análise: A estranha discrição saudita na crise Irã-EUA

14.set.2019 - Ataque com drones reivindicado por rebeldes iemenitas provocou incêndios em duas instalações petroleiras da gigante saudita Aramco, no leste da Arábia Saudita - AFP
14.set.2019 - Ataque com drones reivindicado por rebeldes iemenitas provocou incêndios em duas instalações petroleiras da gigante saudita Aramco, no leste da Arábia Saudita Imagem: AFP

Kersten Knipp e Emad Hassan

10/01/2020 13h57

Riad observa com preocupação o conflito entre Teerã e Washington, temendo as consequências de um acirramento na tensão. Entretanto, o regime iraniano também não tem interesse em envolver a Arábia Saudita.

As consequências do ataque ao general iraniano Qassim Suleimani no Oriente Médio são de difícil previsão. Depois dos ataques a duas bases militares internacionais nas quais também se encontram soldados dos Estados Unidos, a liderança política do Irã se expressou com ambiguidade.

"Os americanos levaram um tapa na cara", disse o líder supremo iraniano Ali Khamenei, em discurso televisionado. Já o "assunto vingança" pela morte de Suleimani é "outra questão": "Ações militares desse tipo não bastam."

Por sua vez, o ministro do Exterior do Irã, Mohammed Javad Zarif, disse que o uso de mísseis foi uma "medida de autodefesa" proporcional, ressaltando que o Irã não procura uma "escalada ou guerra", mas que "se defenderá de qualquer agressão".

Segundo a mídia estatal iraniana, as Guardas Revolucionárias descreveram os ataques como retribuição pelo assassinato de Suleimani. Também ameaçaram atacar Israel e "governos aliados" de Washington.

Essa ameaça também é direcionada implicitamente aos aliados dos americanos na Península Arábica, particularmente às principais potências locais Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos (EAU).

O governo da Arábia Saudita está ciente da situação delicada. Washington não contatou Riad antes do ataque a Suleimani, afirmou uma importante autoridade saudita, segundo relatos da mídia. Ao mesmo tempo, o ministro do Exterior saudita, príncipe Faisal bin Farhan al-Saud, pediu calma após o aumento de tensão "extremamente perigoso" entre o Irã e os EUA. "Esperamos que todas as partes tomem todas as medidas necessárias para evitar novas escaladas e provocações", apelou.

Até mesmo o rei Salman bin Abdulaziz se manifestou, pedindo políticas urgentes que possam ajudar a "aliviar as tensões", relatou a agência de imprensa saudita SPA. Uma delegação liderada pelo vice-secretário de Defesa da Arábia Saudita chegou a Washington na segunda-feira (6) para discutir medidas visando atenuar a escalada.

"É notável como o governo saudita tem se mostrado agora tão cauteloso e moderado", constata Stephan Roll, especialista para Oriente Médio e África do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP) de Berlim. "Nos últimos meses, escutavam-se tons completamente outros de Riad, convocando ao confronto e descrevendo o Irã como um inimigo."

"Esse tom mudou nas últimas semanas e meses", diz Roll.

No segundo semestre de 2019, a Arábia Saudita foi alvo de diversos supostos ataques iranianos. Um dos mais conhecidos ocorreu contra instalações de refinamento da estatal Saudi Aramco em setembro. Os Estados Unidos culparam o Irã pela agressão, mas Teerã rechaçou a acusação. Um navio-tanque saudita foi atingido por dois mísseis em outubro. O Ministério do Petróleo iraniano tornou público o incidente, mas não fez comentários sobre os possíveis responsáveis pelo ataque.

"Tenho a impressão de que a estratégia saudita mudou fundamentalmente após o bombardeio das instalações da Saudi Aramco", diz Roll. "Os sauditas agora perceberam claramente quão vulneráveis são e quanto têm a perder neste conflito - especialmente em termos econômicos."

Também para evitar uma escalada, a Arábia Saudita e o Irã planejavam manter conversações mediadas pelo Iraque, há algumas semanas. O primeiro-ministro iraquiano, Adel Abdul-Mahdi, disse que queria se encontrar com Suleimani exatamente no dia em que este foi morto. O general teria chegado a Bagdá com uma mensagem iraniana em resposta à Arábia Saudita. "Foram abertos canais que não existiam antes", afirma Roll. "E eles queriam continuar nessa direção."

Hussein Ibesh, cientista político do Instituto dos Estados Árabes do Golfo, em Washington, concorda. Ele observa que, embora Riad não lamente o assassinato de Suleimani, os sauditas não estão nada contentes com a atual crise. "Eles sabem que serão apanhados no fogo cruzado, em caso de guerra. É por isso que estão fazendo o possível para atenuar a crise."

Até agora, o Irã não se voltou explicitamente contra a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. No entanto, os houthis iemenitas, que combatem há cinco anos uma coalizão liderada pela Arábia Saudita, exigiram uma resposta ao assassinato de Suleimani.

"Essa agressão contra o Eixo da Resistência [aliança forjada pelo Irã, que inclui grupos no Iêmen, Iraque, Síria e Líbano] não pode ficar sem resposta", disse Muhammad al-Bukheiti, membro do escritório político do movimento Ansar Allah, fundado pelos houthis.

Para Roll, é concebível os houthis estarem particularmente motivados a atacar a Arábia Saudita, "mas um ataque implica que o Irã posicione essas milícias contra os Estados do Golfo".

Mas ele acha pouco provável que o governo de Teerã tenha interesse nisso, estando mais concentrado em demonstrar ao próprio povo a sua capacidade de ação. E "é questionável que a população vá aceitar como medida retaliativa um ataque a um alvo na Arábia Saudita, ao invés de ataques a instalações americanas".

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