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O Brasil na imprensa alemã (15/07)

15/07/2020 15h05

O Brasil na imprensa alemã (15/07) - A apropriação de símbolos nacionais pela direita radical, a forma política como Bolsonaro explora sua infecção por covid-19 e a tática do presidente de se apresentar como vítima dos europeus foram destaques na Alemanha.Süddeutsche Zeitung – Amarelo como o ódio (15/07)

Atualmente, a mesma imagem se repete quase todo fim de semana no Brasil: multidões de pessoas se formam no calçadão da praia ou andam pelas ruas comerciais gritando, agitando bandeiras e, em sua maioria, vestidas com as camisas verde-amarelas da seleção brasileira. Estrangeiros podem pensar que o Brasil ganhou novamente a Copa do Mundo ou, pelo menos, uma partida importante da fase de grupos. Mas a maioria dos brasileiros sabe que não são os torcedores que estão comemorando, mas a direita radical. Com Jair Bolsonaro na presidência, eles tomaram o poder no gigante latino-americano, mas também se apossaram de um velho símbolo brasileiro: a amarelinha.

Em 2015, centenas de milhares de brasileiros protestaram contra a então presidente de esquerda, Dilma Rousseff. Tratava-se de corrupção, mas também de poder e velhas ressalvas contra o PT. A cor do partido é vermelha e é também por isso que os opositores de Dilma Rousseff gostavam de usar amarelo durante as manifestações. O futebol e as bandeiras também expressavam patriotismo.

Num julgamento mais do que questionável, Rousseff foi finalmente destituída em 2016 e, dois anos mais tarde, Jair Bolsonaro venceu as eleições. As celebrações pela vitória dele se assemelhavam às imagens de uma fan zone: camisas verde-amarelas para onde quer que se olhasse. Torcedores moderados dizem que a camisa foi usurpada pela direita. Para evitar serem associados aos inimigos da democracia, muitos vestem o modelo reserva da equipe nacional, de cor azul em vez da amarela. Outros tentam reconquistar a amarelinha para si próprios: há ações na internet e, recentemente, um grande jornal brasileiro pediu que as pessoas usassem amarelo nas manifestações pró-democracia.

Die Welt – A tática inteligente de Bolsonaro contra os críticos europeus (14/07)

O presidente Jair Bolsonaro também entendeu: a imagem do Brasil no exterior "não é particularmente boa" em termos de política ambiental, afirmou recentemente o populista de direita no lançamento de um novo canal de televisão sobre agronegócio, com o nome bastante sugestivo de AgroMais. Segundo Bolsonaro, porém, a culpa não é do desmatamento na Amazônia, mas de uma campanha de desinformação no resto do mundo. O presidente do Brasil vê-se a si mesmo e as suas políticas como vítimas da "imprensa mentirosa internacional".

Há muito tempo, as relações dos europeus com Bolsonaro têm sido enxergadas como arrogantes por parte do presidente. No ano passado, o presidente francês Emmanuel Macron chegou a introduzir uma espécie de intervenção europeia na floresta tropical ameaçada pelo desmatamento. E Bolsonaro sabe como tirar proveito disso.

[...] No entanto, a política europeia de apontar o dedo tem feito até agora pouco sucesso na América Latina, a exemplo de Venezuela e Cuba. Quando Bolsonaro fala agora de uma campanha de desinformação dos meios de comunicação internacionais contra seu país, faz lembrar das declarações anteriores de Caracas e Havana – e dá uma ideia de quem poderá vir a ser o inimigo do Brasil no futuro. É provável que a tática de Bolsonaro de se apresentar como uma vítima inocente convença muitos brasileiros.

Die Welt – Para Bolsonaro, não se trata só de sua saúde (09/07)

Mesmo no dia em que precisou dar a humilhante notícia [de que está com covid-19], o presidente populista de direita do Brasil, Jair Bolsonaro, minimizou o perigo. "Em comparação a ontem, estou muito bem", afirmou Bolsonaro numa entrevista às emissoras de televisão CNN Brasil, Record e TV Brasil, pouco depois de sua infecção pelo coronavírus se tornar conhecida.

[...] Nesse dia, a mensagem mais importante que seus aliados queriam passar era: o presidente pode continuar governando, tudo continua normal, não está tão ruim assim. No entanto, quem acredita que o chefe de governo brasileiro vai repensar suas políticas após a infecção pelo Sars-Cov-2, julga mal Bolsonaro e seu clã familiar.

Logo que a notícia veio a público, o homem de 65 anos mergulhou na próxima batalha contra a medicina convencional, a virologia e a ciência. Bolsonaro disse que seria tratado com hidroxicloroquina, medicamento antimalárico cujos testes clínicos para o tratamento da infecção por coronavírus foram suspensos devido a preocupações de segurança. E que Bolsonaro, assim como seu grande exemplo americano Donald Trump, acredita ser a solução na luta contra o coronavírus. Se isso não é apenas uma brincadeira, é uma dança perigosa na corda bamba.

Aparentemente, Bolsonaro quer provar a todos que o caminho dele é o caminho certo, custe o que custar. Esse tem sido o caso desde o início da pandemia, que ele inicialmente banalizou como "gripezinha", mas que agora assola o país e já custou a vida de mais de 65 mil pessoas [até 9 de julho; hoje já são mais de 74 mil mortos].

[...] Para o presidente e seus aliados, a infecção, portanto, equivale a uma humilhação. Mesmo para seus fanáticos apoiadores, torna-se cada vez mais difícil defender sua controversa política sobre o coronavírus. Por isso Bolsonaro obviamente depende da hidroxicloroquina. Se for curado em alguns dias ou semanas, ele se referirá com orgulho ao efeito da droga previsto por ele. No entanto, se a estratégia der errado, a vida do presidente está em jogo. Isso se os diagnósticos e resultados dos testes divulgados, bem como o tratamento, forem de fato verdadeiros, e não uma ficção.

[...] Para o paciente com coronavírus Bolsonaro, há muito mais em jogo do que a saúde de um homem mais velho: trata-se de qual interpretação da pandemia prevalecerá na sociedade brasileira. E para o próprio presidente, trata-se de sobrevivência física e política.

Frankfurter Allgemeine – Apenas uma gripezinha? Como Bolsonaro usa a infecção por coronavírus para sua missão política (09/07)

Bolsonaro dá dois passos para trás. Depois, ele tira sua máscara e sorri para as câmeras. "Eu estou bem", diz ele aos jornalistas. As cenas em frente ao palácio presidencial não indicam uma mudança de opinião por parte do presidente brasileiro. Pelo contrário: Bolsonaro parece estar usando sua infecção para apresentar o vírus como uma "gripezinha", como ele já o havia chamado no início da pandemia.

O fato de Bolsonaro estar explorando sua própria infecção de forma política desperta desconfiança. Não são apenas os teóricos da conspiração que perguntam se tudo isso não é apenas encenado. Nas redes sociais, a "milícia digital" de Bolsonaro vem tentando, desde terça-feira [7 de julho], exigir solidariedade pelo presidente.

Entretanto, após o anúncio do resultado do teste, inúmeros brasileiros celebraram o coronavírus no Twitter e no Facebook, e muitos desejaram que o vírus vencesse a luta contra Bolsonaro. Tais mensagens testemunham o clima político envenenado no Brasil e tornam mais fácil para Bolsonaro retratar seus oponentes como radicais e como um perigo para o país.

FC/ots

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