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08/03/2006 - 12h44

Bachelet assumirá país livre das sombras do regime de Pinochet

Nelson Sandoval Díaz Santiago do Chile, 8 mar (EFE).- Michelle Bachelet será a partir de 11 de março a primeira presidente do Chile e seu Governo será o primeiro desde 1990 livre da sombra deixada pela ditadura de Augusto Pinochet, reduzida hoje ao âmbito judicial.

Sem nenhum prestígio e sob processo, o ex-ditador já não é uma ameaça para a democracia chilena. Mesmo seus ex-partidários o deixaram de lado, empenhados numa liberalização que os transforme em opção de direita politicamente aceitável para as maiorias.

Os Governos da transição democrática que surgiram após a ditadura (1973-1990) foram acompanhados por um murmúrio militar e, embora um certo ranço autoritário ainda persista na estrutura institucional, existe um clima propício para eliminá-lo definitivamente.

As Forças Armadas chilenas se submeteram ao poder republicano e um exemplo da sua modernização é a participação ativa em operações de paz das Nações Unidas.

O general Juan Emilio Cheyre, que deixa o comando do Exército na próxima sexta-feira, é talvez quem melhor encarna o processo de subordinação dos militares ao poder civil, após o processo de modernização em que procurou construir "um Exército do século XXI".

Cheyre, numa de suas últimas aparições públicas, ressaltou a colaboração que a instituição prestou aos tribunais nos julgamentos por violações aos direitos humanos e rejeitou, de forma taxativa, a idéia de impunidade.

Assegurou também que seu sucessor, Oscar Izurieta, não terá que carregar o peso do passado, quando as instituições armadas estiveram a serviço do poder ilimitado e onipresente de Augusto Pinochet.

Para avaliar a distância entre o Exército atual e o que durante 25 anos (1973-1998) foi comandado pelo ex-ditador vale lembrar a declaração de Pinochet ao término de seu regime de fato: "o dia que tocarm um dos meus homens, acabará o Estado de Direito".

Ao fim, o próprio ex-governante caiu nas redes da Justiça e hoje, aos 90 anos e com um estado de saúde precário, está sendo processado por violações aos direitos humanos e pelo crime de corrupção, enquanto dezenas dos seus colaboradores cumprem penas de prisão ou estão sendo processados pelos crimes cometidos durante a ditadura.

A descoberta de que Pinochet manteve uma fortuna em contas secretas no exterior, que cometeu fraudes tributárias, apropriou-se de dinheiro público e supostamente recebeu comissões por vendas de armas, acabou afastando seus últimos partidários.

Seguidores que justificaram durante anos os crimes de sua ditadura, não aceitaram que o líder tenha usado o poder para benefício pessoal.

A última eleição presidencial refletiu fielmente essa realidade: Joaquín Lavín, candidato da União Democrata Independente (UDI), que sustentou politicamente a ditadura e que guarda as últimas reminiscências do "pinochetismo", perdeu no primeiro turno para o representante de uma nova direita: Sebastián Piñera.

Integrante do Partido Renovação Nacional e próspero empresário, Piñera ganhou não só por representar uma direita liberal, moderna e democrática, mas pela distância que estabeleceu sobre Pinochet, e por sua oposição ao regime ditatorial no que se refere aos direitos humanos.

Na própria UDI pós-eleitoral os ventos de mudança sopraram quando Gonzalo Cornejo, prefeito do município da Recoleta, disse que a renovação do partido deve começar com o afastamento "dos dirigentes vinculados à ditadura".

É a primeira vez que um dirigente da UDI usa o termo "ditadura" para referir-se ao regime de Pinochet.

Para muitos analistas, a figura da socialista Michelle Bachelet foi determinante nas mudanças ocorridas nas Forças Armadas e, em geral, no quadro político chileno.

De acordo com os analistas, a nova presidente do Chile é um exemplo da superação dos ódios do passado e do espírito de reconciliação, o que significou, no plano eleitoral, atrair o voto feminino, tradicionalmente conservador neste país.

Nesse contexto, o "pinochetismo" como expressão política, marcha aceleradamente em direção à extinção, com o amém inclusive dos que em uma época o glorificaram.

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