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30/07/2008 - 17h38

Para analistas brasileiros, fracasso na OMC põe Mercosul em risco

(corrige declarações atribuídas ao negociador argentino no terceiro parágrafo) Eduardo Davis Brasília, 30 jul (EFE).- O fracasso da Rodada de Doha, combinado aos problemas na agricultura da Argentina e à crise mundial de alimentos, gerou temores no Brasil sobre o futuro do Mercosul e as dificuldades do bloco na busca de acordos bilaterais.

Os últimos movimentos do Brasil nas negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) não foram suficientes para impedir o naufrágio da Rodada de Doha e levaram o país a aceitar algumas propostas de Estados Unidos e União Européia (UE), rechaçadas taxativamente por seus parceiros do Mercosul.

A atitude do Brasil levou o negociador argentino, Alfredo Chiaradía, a admitir que se criou uma "tensão" no Mercosul, também integrado por Uruguai e Paraguai, mas fontes da delegação argentina que não foram identificadas chegaram a falar em Genebra de uma "traição".

Sobre as fissuras observadas no bloco durante as negociações, o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, disse que a grande lição para o Mercosul é a necessidade de ter "uma posição negociadora única", o que não foi conseguido por "fatores relacionados à história".

"Temos que passar de um nível de coordenação para um nível de integração verdadeira. Muitos dos problemas que tivemos aqui foram causados por isto", explicou Amorim.

O dano que o fiasco da Rodada de Doha causa ou pode causar ao Mercosul no futuro imediato também foi reconhecido por muitos analistas brasileiros.

O vice-presidente da Associação Brasileira de Comércio Exterior (Abracex), José Augusto de Castro, disse que o único caminho para os países em desenvolvimento ampliarem seu comércio agrícola será a busca de acordos bilaterais com EUA e UE.

No caso do Brasil, Castro diz que o país "está preso ao Mercosul", cujas normas impõem que os acordos bilaterais devem ser negociados em conjunto pelos quatro membros, que tomaram posições variadas nos últimos momentos da negociação da Rodada de Doha.

As negociações do bloco para um acordo de livre-comércio com os EUA estão estagnadas há quatro anos, enquanto um pacto com a UE dependeria do resultado da Rodada de Doha, o que criou uma incógnita, concordam outros analistas.

Segundo Castro, ficou claro que "o Brasil e seus parceiros do Mercosul têm interesses diferentes, inclusive pelas diferenças de tamanho de suas economias".

Esses interesses diferentes no comércio global afundam com a crise no campo argentino e se agravam ainda mais com a alta dos preços dos alimentos no mundo, distorcendo o comércio agrícola, disseram à Agência Efe fontes da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil.

Fontes políticas consultadas pela Efe admitiram que o fim da Rodada de Doha pode causar problemas no Mercosul, cujo Parlamento aprovou na segunda-feira uma moção que exige a manutenção da unidade do bloco, em uma mensagem clara à posição do Brasil em Genebra.

O Governo brasileiro acredita que, se existem problemas, serão solucionados diretamente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se reunirá na segunda-feira em Buenos Aires com a chefe de Estado argentina, Cristina Fernández de Kirchner.

A visita de Lula estava prevista para antes das negociações em Genebra, mas segundo porta-vozes do Governo, "adquire mais relevância agora, pois sem dúvida servirá para limar as asperezas que possam ter surgido" em Genebra.

Para outros analistas, as conseqüências do fracasso na OMC podem ir, no caso do Brasil, além do próprio Mercosul.

"De forma imprevista, o país cedeu mais que seus parceiros, e isso prejudicou um dos principais objetivos da diplomacia brasileira: representar os países emergentes", disse João Augusto de Castro Neves, analista da empresa CAC Consultoria.

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