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01/03/2010 - 16h11

Karadzic diz que causa dos sérvios da Bósnia era "justa e sagrada"

Por Lara Malvesí Haia, 1 mar (EFE).- O ex-líder servo-bósnio Radovan Karadzic assegurou hoje que a causa dos sérvios da Bósnia era "justa e sagrada" em seu depoimento inicial no julgamento que enfrenta no Tribunal Penal Internacional para a Antiga Iugoslávia (TPII).

O réu, cuja ausência no início do julgamento em outubro forçou o adiamento do processo até hoje, afirmou que os sérvios da Bósnia nunca quiseram deixar a Iugoslávia e que queriam "viver com os muçulmanos", mas "não sob um regime que não respeitasse os direitos fundamentais".

Karadzic, também ex-líder do Partido Democrático Sérvio (SDS), iniciou sua defesa afirmando que não tinha comparecido à corte "para defender a si próprio", mas para defender sua "pequena grande pátria".

O acusado, que voltou a denunciar uma "conspiração" internacional para levá-lo ao banco dos réus em Haia, explicou que nunca quis a cisão bósnia da Iugoslávia e falou de "legitima defesa" no marco de uma guerra civil. Ele ressaltou que não é "um monstro" e que não há provas contra ele.

Ele também afirmou que "queríamos prevenir o caos, introduzir a ordem. Mas, uma vez instaurado o caos, foi impossível tê-lo sob controle".

Karadzic é acusado de 11 crimes de genocídio e crimes de guerra pela guerra civil da Bósnia-Herzegovina de 1992-95. As duas acusações de genocídio procedem do massacre de mais de 7 mil homens e jovens muçulmanos na cidade de Srebrenica (1995) e o assédio de Sarajevo que durou durante todo o conflito, e que causou mais de 10 mil mortos.

Para sua defesa, ele mencionou uma conversa da ex-promotora do TPII Carla Del Ponte. Segundo Karadzic, nessa conversa, Del Ponte assegura que a investigação indicava que de fato existiu a promessa de imunidade por parte dos Estados Unidos dentro dos acordos de Dayton de 1995, que encerraram o conflito.

Para justificar os conflitos após o desmembramento da ex-Iugoslávia, Karadzic também culpou o reconhecimento internacional "prematuro" da independência de Croácia, Eslovênia e Bósnia por parte dos países europeus e dos EUA.

O acusado disse que nunca recomendou "as trocas de população" - em aparente referência às deportações forçadas de croatas e muçulmanos da Bósnia. Ele acrescentou que defender um território "não é um crime".

Dentro de sua estratégia de transferir a culpa aos líderes bósnio-muçulmanos, Karadzic citou uma conversa telefônica que teve em 1991 com o então presidente iugoslavo Slodoban Milosevic (morto em 2006). Karadzic afirmou ter dito a Milosevic que o líder opositor muçulmano e mais tarde primeiro presidente da Bósnia-Herzegovina, Alija Izetbegovic, impôs a divisão do país.

Como parte de sua defesa, Karadzic apresentou alguns extratos da Declaração Islâmica de 1970, na qual Izetbegovic afirmava que "a Bósnia deveria ser um estado islâmico regido por leis islâmicas" e que "não pode haver paz nem coexistência entre a comunidade islâmica e as instituições não-islâmicas".

Karadzic também acrescentou que preveniu os bósnios muçulmanos de que seria melhor evitar um conflito civil, já que "não tinham a possibilidades de se proteger, não tinham outra saída a não ser se renderem".

Por isso, ele afirmou que são os líderes muçulmanos como Izetbegovic, morto em 2003, os que deveriam ser acusados e levados ao banco dos réus do TPII.

Entre os culpados da "conspiração" que afirma existir contra ele, Karadzic acusou a imprensa, por "criar e divulgar rumores". Ele explicou que algumas reportagens publicadas durante o conflito "foram de filmes", o que torna "incrível" que tenham sido apresentadas como provas ao tribunal.

Karadzic assegurou que seu depoimento era "a verdade absoluta" e reiterou seu pedido de contar com mais tempo para sua defesa e que sejam desclassificados todos os documentos que pediu durante a instrução.

Seguro e sereno, o réu se defendeu a si mesmo com a assessoria do advogado britânico Richard Harvey - nomeado de ofício pelo tribunal - em um depoimento de quase cinco horas que teve que ser interrompido até cinco vezes pelos tradutores, que pediam a ele para falar mais devagar.

Karadzic, de 65 anos e psiquiatra de profissão, foi detido quando se fazia passar por curandeiro em Belgrado em 21 de julho de 2008 e foi levado então ao TPII nove dias depois.

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