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31/03/2010 - 06h10

Irmãos Muçulmanos são tema de polêmica novela no Egito

Heba Helmy Cairo, 31 mar (EFE).- Os Irmãos Muçulmanos, grupo com grande influência religiosa na sociedade e na política do Egito, são os protagonistas de uma novela que será transmitida na televisão egípcia no próximo Ramadã (mês sagrado islâmico) e que já é polêmica.

"Chegou a hora de as pessoas conhecerem a realidade dos corruptos e dos que lucram com a religião", disse à Agência Efe Wahid Hamed, roteirista de "Al Jama'ah" (O Grupo), a primeira novela egípcia sobre os Irmãos Muçulmanos.

O roteirista, conhecido por suas posturas contra os movimentos islâmicos, assegurou que a obra "revela os que se aproveitam do país e se escondem atrás das máscaras da religião ou da política".

Hamed demorou dois anos para escrever o roteiro desse projeto "tão sensível", conforme o descreve. Assim que os Irmãos Muçulmanos se inteiraram sobre a novela, criticaram-na por medo de serem difamados.

Apenas alguns meses antes de milhões de telespectadores assistirem à novela, da qual já foram gravadas sete horas, os Irmãos Muçulmanos denunciaram o roteirista e pediram à Justiça que proíba sua exibição.

Embora os Irmãos Muçulmanos estejam proibidos desde 1954, são muito influentes na sociedade, na economia e na política egípcia, pois têm importantes empresas e um quinto das cadeiras do Parlamento, a cujas eleições se apresentam como independentes.

"Dirijo essa novela aos jovens para que saibam quem são os Irmãos, o que eles querem e se eles são corretos ou não", explicou Hamed.

Para o roteirista, a telenovela de 21 horas, não se opõe ao grupo islâmico, mas conta a realidade dele, descoberta por ele após muita pesquisa e encontros com dirigentes do movimento islâmico.

"Al Jama'ah" começa com um desfile militar realizado em 2006 por estudantes membros dessa organização na Universidade do Cairo, vestidos como os milicianos palestinos.

O desfile foi motivo para que a Polícia egípcia intensificasse sua habitual campanha de detenções contra membros do grupo, algo relatado telenovela seguindo as atividades dos Irmãos desde então até a atualidade.

Paralelamente a esse enfoque recente, a série narra a história do grupo desde sua criação em 1928 até o assassinato de seu fundador Hassan al-Banna, em 1949.

Célebres atores egípcios e jordanianos encarnam Hassan al-Banna, o rei Farouk - que em 1941 proibiu as reuniões do grupo - e a Al-Noqrashi Pachá, um ex-primeiro-ministro egípcio assassinado em 1948 por um membro dos Irmãos.

A obra termina com uma frase de al-Banna na qual ele reconhece que, se pudesse voltar no tempo, optaria apenas pela ligação com Alá, o que, segundo Hamed, demonstra que o líder do grupo se deu conta que "a política estragou a Irmandade".

"No início da telenovela digo que quem odeia os Irmãos os odeia até a morte. Já quem gosta deles está disposto a sacrificar a vida por eles", assinalou o roteirista.

"Por isso, sei que se vai a suscitar uma polêmica sobre toda a telenovela, e não só algumas partes", acrescentou Hamed, também roteirista do famoso e polêmico filme "O Edifício Yacoubian", no qual se atreveu a falar de homossexualidade no Egito, um tabu para o país.

A telenovela, que não conta nada sobre a vida familiar dos Irmãos nem mostra suas mulheres ou filhos, foi aprovada pela censura egípcia.

No entanto, a novela foi rejeitada pelo filho do fundador do grupo, Ahmed Seif el Islam Hassan al-Banna, porque a considera insultante, embora nunca tenha lido o roteiro.

"Queríamos ver o roteiro para saber se os fatos que relata são verdadeiros ou não e para corrigir qualquer erro que possa conter", disse à Agência Efe al-Banna.

Mesmo assim, al-Banna, que trabalha como advogado, processou o roteirista Hamed na Justiça.

"Temos o direito de defender nossa fama, nossos ideias e nosso líder antes que milhões de espectadores assistam a novela", insistiu o filho do fundador dos Irmãos.

Em oposição à série de Wahid Hamed, os Irmãos Muçulmanos estão preparando outra produção sobre o grupo.

"Nossa telenovela, que ainda não tem nome, conta fatos reais e está bem documentada", assegurou al-Banna, que não quis dar detalhes.

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