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12/04/2010 - 10h08

Ex-refugiado do Sudão contribui para reconstruir sul do país

José Miguel Calatayud.

Nairóbi, 12 abr (EFE).- Valentino Achak Deng, um dos "meninos perdidos" do Sul do Sudão, viu sua vida transformada em romance publicado nos Estados Unidos e, enquanto o diretor alemão Tom Tykwer prepara sua adaptação ao cinema, utiliza o dinheiro para levar esperança a seu país.

Achak e milhares de meninos percorreram centenas de quilômetros a pé por selvas e desertos durante meses para salvar suas vidas durante a guerra do Sul do Sudão, que iniciou em 1983 e durou duas décadas. Muitos deles acabaram morrendo no caminho.

"Durante nossa fuga tivemos que beber água parada porque era a única que havia, tivemos que comer qualquer coisa que se pudesse comer. Vi horrores, vi cadáveres, animais selvagens caçaram alguns dos meus amigos", relata Achak à Agência Efe em Nairóbi sobre sua fuga a pé de quatro meses e 1,2 mil quilômetros rumo à Etiópia.

Hoje, Achak promove a construção de institutos e a reconstrução de povoados no Sul do Sudão depois de sua vida virar romance "O Que é o Quê" e que Tom Tykwer, diretor de "Perfume" e de "Corra Lola, corra", tenha começado a preparar um filme sobre ele.

Entre 1983 e 2005, 2 milhões de pessoas morreram e 4 milhões se tornaram refugiadas por causa da guerra civil entre o Norte do Sudão, de maioria árabe-muçulmana, e o Sul do país, de maioria cristã-animista.

"O mundo não foi suficientemente informado na época. Não leram, viram ou ouviram o que estava ocorrendo, as atrocidades, os horrores, os massacres que aconteceram em minha região", comenta Achak, que viveu dos seis aos 21 anos em campos de refugiados na Etiópia e no Quênia.

Em 2001, os Estados Unidos começaram a acolher milhares desses "meninos perdidos" e Achak teve a sorte de lá conseguir se estabelecer, em Atlanta, onde chegou à conclusão de que a única coisa aproveitável que tinha era sua história e as experiências que tinha vivido.

Através da Lost Boy Foundation (Fundação Meninos Perdidos), ONG americana, conheceu o escritor Dave Eggers, com quem trabalhou durante anos para escrever "O Que é o Quê", um romance baseado nas experiências de Achak que narra a vida dos meninos que tiveram de fugir do Sudão.

O livro foi publicado em 2006 e, com o dinheiro que conseguiram, Eggers e Achak criaram a Fundação Valentino Achak Deng, que hoje se dedica a construir escolas no Sul do Sudão e a reconstruir os povoados destruídos pela guerra.

Segundo Achak, "o Sul do Sudão é um país muito pobre que está começando do zero. Por isso necessitamos educação para produzir médicos, parteiras, professores e cientistas".

O conflito entre o Norte e o Sul do país acabou em 2005 com a assinatura de um acordo de paz que deu autonomia ao Sul e onde se articula a realização de um referendo sobre a independência da região, previsto para janeiro de 2011.

Entre ontem e amanhã o Sudão realiza suas primeiras eleições gerais multipartidárias em 24 anos, tendo como favorito para o Executivo o atual presidente, Omar al-Bashir. O favoritismo do líder é um dos principais motivos pelos quais a maioria da oposição se retirou do pleito.

"Sim, já sabemos que, seja qual for o resultado real, al-Bashir vencerá. Mas os governantes vêm e vão, não estão aí para sempre. O que temos com que nos preocupar é que se respeite o acordo de paz que deu autonomia ao Sul do Sudão", ressalta Achak.

Em 2008, o Tribunal Penal Internacional emitiu um mandado de prisão contra al-Bashir, condenado por crimes de guerra e contra a humanidade pelo conflito da região de Darfur. Para Achak, no entanto, as vítimas têm em mente outros problemas.

"Se você pergunta aos refugiados eles responderão: 'sim, seria muito bom que o julgassem, mas isso não vai nos ajudar. O que quero é voltar para minha fazenda ou para meu trabalho, o que quero é farinha e panela para cozinhar'", conta.

Em sua opinião, para resolver um conflito "é preciso ouvir as vítimas" e por isso Achak continuará contando sua história.

"O que passou não deveria voltar a ocorrer, nem no Sudão nem em nenhum outro lugar do mundo. Se você conhece minha história e depois permite que algo assim volte a acontecer não ficaria vergonha de simplesmente se sentar com sua família na sala?", questiona-se Achak.

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