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24/07/2010 - 15h32

A difícil reconciliação no Afeganistão

Agus Morales.

Cabul, 24 jul (EFE).- Com a guerra em um de seus períodos mais intensos desde seu início, em 2001, o Governo afegão alcançou na recente Conferência de Cabul o apoio internacional a seu "plano de reconciliação", um diálogo com os grupos insurgentes ainda cheio de incerteza política.

O presidente afegão, Hamid Karzai, prevê aplicar nos próximos cinco anos US$ 784 milhões provenientes de ajuda estrangeira para "reintegrar" 36 mil insurgentes e beneficiar quatro mil comunidades de 220 distritos, situados em 22 das 34 províncias do Afeganistão.

O "plano de reconciliação", segundo a descrição oficial, terá três fases: uma de negociações em nível local, uma de desarmamento e outra de "consolidação da paz".

O Governo afegão admite que há várias "camadas" destes grupos armados que ainda devem ser incluídos no processo.

Será feito um esforço para incluir no diálogo os comandantes inferiores e líderes locais que formam 'o grosso' da insurgência, mas há outro processo, "complexo e muito sensível", que se centrará na cúpula fundamentalista.

No entanto, muitos ainda não têm certeza sobre o rumo deste plano.

"Karzai fez deste processo uma das estrelas de seu mandato presidencial, mas não sabe o que fazer", disse à Agência Efe o analista Haroon Mir.

O especialista lembrou que um dos "contatos" de Karzai, o "número dois" dos talibãs afegãos, o mulá Abdul Ghani Baradar, foi detido pelo Paquistão este ano.

Neste sentido, se mostrou cético sobre a possibilidade de que os insurgentes aceitem negociar agora e desligar-se da rede terrorista Al Qaeda.

Já o clérigo Arsalan Rahmani, antigo vice-ministro de Educação durante o regime talibã (1996-2001), tem uma opinião diferente.

"Os talibãs insistiram mais (que o Governo) em participar em processos de paz e dialogar. O único caminho rumo à reabilitação é a paz", disse Rahmani, em entrevista à Efe.

Rahmani se exilou no Paquistão após a invasão americana, em 2001, e voltou ao Afeganistão em 2004. Hoje em dia é senador.

Segundo ele, em 2001 - com o movimento talibã desarticulado -, os insurgentes queriam abrir negociações. Nove anos depois, a situação se deteriorou e tanto o Governo de Karzai quanto os EUA "se arrependem" de tê-las descartado na época.

"A paz não significa que os talibãs tenham necessariamente um lugar no Governo, mas tenham uma boa relação com ele", disse o clérigo.

Mir, por sua parte, falou sobre a dificuldade de que os talibãs se unam ao Executivo de Karzai e disse que buscam "um acordo político" com a participação dos EUA.

Por enquanto, o Governo afegão propôs aos insurgentes, entre outros aspectos, a libertação de presos e a exclusão de alguns fundamentalistas da "lista negra" das Nações Unidas, que inclui não só talibãs, mas outros "grupos opositores armados", como membros da organização Hizb-e-Islami ou a rede fundamentalista Haqqani, responsável por violentos ataques terroristas nos últimos anos.

Os talibãs continuam apoiados nos redutos que o levaram ao poder em 1996, como Kandahar, seu berço espiritual; a vizinha Helmand, onde é cultivado o ópio que atualmente financia suas atividades, e outras províncias do sul, como Uruzgan, onde nasceu seu líder, o mulá Mohammed Omar.

No sudeste afegão, particularmente em Paktia, Paktika e Khost, a rede Haqqani, que faz parte da órbita talibã, mas tem certa autonomia, controla amplas regiões adotando uma estratégia de vassalagem tribal e ideológica, com sua base de operações na demarcação paquistanesa do Waziristão do Norte.

"Os EUA são categoricamente contra negociar com a rede Haqqani", ressaltou Mir.

O que parece mais embarcado no processo é o grupo Hizb-e-Islami, do ex-mujahedin Gulbuddin Hekmatyar, com presença no nordeste e em algumas partes do oeste afegão.

"Têm muitas possibilidades no processo. Já têm muitos membros no Governo, como o ministro da Educação Farooq Wardak", disse Rahmani.

O "plano de paz" também tem seus críticos ferozes, sobretudo fora do universo pashtun (etnia majoritária no Afeganistão e à qual pertencem os talibãs, assim como o próprio Karzai), como Amrulah Saleh, ex-chefe dos serviços secretos afegãos e antigo comandante tadjique.

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