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01/08/2010 - 06h11

Conflito curdo volta a esquentar após ano de esperança

Andrés Mourenza.

Hakkari (Turquia), 1 ago (EFE).- Se 2009 foi o ano da esperança na solução do conflito curdo na Turquia, 2010 é o contrário: os combates aumentaram, os atentados do grupo armado Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) são mais frequentes e violentos e o Exército turco perdeu mais de 80 soldados.

Hakkari, a província mais a sudeste da Turquia, é um dos principais palcos desta guerra não declarada - que causou 45 mil mortes desde 1984 - já que os rebeldes curdos utilizam a montanhosa fronteira para infiltrar-se em território turco desde suas bases no Iraque.

Trata-se de uma região tão isolada que os jornais não chegam à cidade até as três da tarde. A zona é tomada pelas forças de segurança, que patrulham noite e dia em veículos blindados.

"A 'iniciativa curda' (um plano do Governo de Recep Tayyip Erdogan para solucionar o conflito curdo) gerou muitas esperanças, mas ficou provado que as medidas não eram suficientes. Além disso, o Exército continua atacando. O povo está descontente, e por isso o PKK retomou os combates", disse um morador que pediu anonimato.

O vice-presidente provincial do Partido da Justiça e o Desenvolvimento (AKP), Adnan Hatiboglu, reconhece que a 'iniciativa curda' está praticamente morta.

Para Hatiboglu, a responsabilidade é da Justiça, que ordenou a detenção de centenas de representantes eleitos e declarou ilegal o partido nacionalista curdo, após afirmar que ele mantém laços com o proscrito PKK.

"O Partido da Paz e Democracia (BDP, nova legenda dos nacionalistas curdos) também deveria ter nos apoiado mais", lamenta.

Do exterior, um furgão policial armado com uma metralhadora vigia a sede do partido, cujas janelas e paredes mostram os buracos de balas de um ataque do PKK. Nem a administração local nem o BDP condenaram o atentado.

"Os habitantes de Hakkari não colaboram conosco porque têm medo do PKK ou porque simpatizam com ele", se queixa um oficial de Polícia.

Ignorando o fato de Turquia, Estados Unidos e União Europeia considerarem o PKK um grupo terrorista, no jardim da Prefeitura de Hakkari soam canções e gritos de apoio ao grupo armado: "Guerrilha! Guerrilha!".

Outra fonte que pediu anonimato lembra o que passou em Yüksekova, uma comarca da província de Hakkari: "Nesta margem do rio a Polícia torturava na década de 1990. Esta casa foi atacada por soldados. Desta um foi levado preso e os demais fugiram para o Iraque", relata.

São afrontas, abusos e mortes que os habitantes destas montanhas não esquecem facilmente. Só Yüksekova, de pouco mais de 60 mil habitantes, deu três mil mártires - como são chamados os falecidos em combate - ao PKK.

"Aqui podem te matar em qualquer momento caso você entre em uma zona militar. As detenções são arbitrárias, e eles controlam todos nossos movimentos", denuncia Bedirhan Alkan, membro da Associação de Direitos Humanos (IHD) de Yüksekova.

Ismail Akbulut, também da IHD, acusa o Exército de mutilar os cadáveres dos militantes do PKK antes de devolvê-los a seus familiares, o que aumenta a raiva e rebeldia dos jovens.

"Nos últimos meses aumentou a tensão. Tememos que a Turquia volte à época dos anos 90, e voltem os assassinatos por parte do Exército e da Polícia", explica.

Em recente entrevista à rede televisiva britânica "BBC", o comandante do PKK, Murat Karayilan ofereceu o desarmamento em troca de maior autonomia para os curdos da Turquia. Em 2009, outro dos comandantes do PKK, Bozan Tekin, assegurou à Efe que se dariam por satisfeitos com um modelo autônomo similar ao espanhol.

A maioria dos dirigentes políticos turcos reconhece que o conflito curdo não pode ser resolvido exclusivamente pela via militar, mas o Governo se nega a "negociar com terroristas".

Enquanto isso, em Hakkari, este cantinho tão afastado dos corredores políticos de Ancara, os soldados e os membros do PKK continuam matando uns aos outros.

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