UOL Notícias Notícias
 
24/08/2010 - 06h07

Viajar à Jordânia se torna uma humilhação para milhares de palestinos

Ana Cárdenes.

Jerusalém, 24 ago (EFE).- O verão transforma o cruzamento da Ponte Allenby, fronteira entre Cisjordânia e Jordânia, em um inferno, onde a cada dia milhares de palestinos sofrem com as aglomerações, calor, esperas intermináveis e um tratamento humilhante.

A celebração do mês sagrado muçulmano do Ramadã e as viagens de peregrinação a Meca triplicam nestas datas o tráfego na fronteira, tornando o desafio de atravessá-la ainda mais angustiante.

Cerca de sete mil palestinos fazem a cada dia um trajeto de mais de 12 horas entre Ramala e Amã, um percurso que poderia ser feito em uma hora e meia, explica a organização palestina "Karama" (Dignidade), que trabalha para que os viajantes sejam tratados com respeito no que consideram "uma humilhação para o povo palestino".

Allenby, que do lado jordaniano recebe o nome de Ponte Rei Hussein, em sua parte localizada na Cisjordânia está sob o controle do Exército israelense, que ocupa os territórios palestinos desde 1967.

A ponte é a porta de saída ao mundo para mais de dois milhões e meio de palestinos, que não podem deixar a Cisjordânia por nenhum outro ponto.

O trajeto de qualquer cidade palestina até Amã "parece uma corrida de obstáculos", diz à Agência Efe Hazen Kawasmi, diretor da Karama.

Durante o percurso, de mais de cem quilômetros, os palestinos têm que trocar seis vezes de ônibus, passar por meia dúzia de postos de controle e ser continuamente revistados, explica.

Dezenas de homens, mulheres e crianças fazem longas filas em um terminal onde o calor e a falta de serviços e cadeiras tornam a espera interminável.

Além disso, a experiência não é precisamente barata.

"Custa mais de US$ 100 chegar a Amã, quase tudo pelo pagamento de taxas, enquanto trajetos mais longos como ir à Jordânia da Síria, Arábia Saudita ou Egito não custam mais de US$ 10 ou US$ 15", assegura Kawasmi.

Para as famílias da Cisjordânia, com uma média de cinco filhos, o custo final é enorme.

A maioria dos palestinos não viaja para Jordânia por prazer, mas por negócios, estudos, para receber atendimento médico ou ver seus parentes, já que cerca de dois milhões de refugiados palestinos vivem no país, onde são um terço da população.

Cada ano, cerca de um milhão e meio de pessoas atravessa a fronteira, 99% de palestinos e 1% de turistas ou trabalhadores estrangeiros.

Antes da ocupação israelense na Cisjordânia em 1967, os palestinos podiam fazer o percurso de carro, mas agora só israelenses e estrangeiros podem entrar na Jordânia com seus veículos.

Segundo a Karama, as dificuldades para os palestinos começam na cidade de Jericó, onde há instaladas três estações por onde os viajantes devem atravessar antes de se dirigir a Allenby, onde continuarão com os empurrões, aglomerações e tentativas de conseguir todos os papéis e entregá-los aos poucos oficiais que operam o posto.

Por volta das três da madrugada, os ônibus carregados com passageiros começam a chegar a Jericó porque sabem que, se não tiverem tempo de sobra, não conseguirão atravessar, ainda que, desde o ano passado, Allenby esteja ficando aberto até a meia-noite.

A pior parte costuma ser a volta, que inclui esperas de horas dentro de um velho ônibus que aguarda seu turno em uma terra de ninguém entre o lado jordaniano e o cisjordânio.

"É horrível. Esperamos até quatro horas presos em um ônibus. E às vezes, após seis ou sete horas de espera, os israelenses fecham a porta nas nossas caras e dizem para voltarmos no dia seguinte", disse à Efe Abu Imad, morador de Ramala.

Segundo Kawasmi, "a espera dentro dos ônibus, que não têm ar condicionado e funcionam mal, pode chegar a seis horas, nas quais não é possível sair para comprar água ou comida, nem ir ao banheiro. São horas fechados, com crianças, idosos e doentes sendo sufocados. Se o soldado israelense está em um bom dia, deixa o ônibus passar logo, se não, é preciso esperar".

Procuradas pela Efe, as autoridades palestinas e israelenses não quiseram falar sobre o problema.

A Karama considera que a situação "não é aceitável no século XXI" e pede que Allenby "fique aberto 24 horas e tenha condições humanas adequadas".

Enquanto isso não acontecer, "atravessar a fronteira continuará sendo sinônimo de um dia inteiro de humilhação para o povo palestino", opina Kawasmi.

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,13
    3,270
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,51
    63.760,94
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host