Transtornos mentais são sequeles menos visíveis no conflito Israel-Palestino

Daniela Brik.

Hebron (Cisjordânia), 26 ago (EFE).- Batidas, violência e humilhações fazem parte do dia a dia em parte da Cisjordânia, com um impacto psicológico para sua população palestina que a ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) tenta minimizar com um programa de saúde mental.

Trata-se de um projeto destinado a oferecer ajuda psicossocial a palestinos afetados por transtornos cujas causas derivam diretamente do conflito com os israelenses.

Muitas vezes, esses problemas psicológicos passam despercebidos ou parecem pequenos se comparados com as lesões mais visíveis e as duras condições de vida enfrentadas pelos moradores de cidades como Hebron, foco de constantes atritos.

"Os sintomas mais comuns são medo, isolamento, agressividade, distúrbios do sono", diz à Agência Efe Itziar De Miguel, uma espanhola encarregada de coordenar a atividade da MSF em Hebron.

Itziar revela que 53% dos 314 pacientes atendidos no primeiro semestre de 2012 eram menores de idade, na maioria com idades compreendidas entre os 12 e 16 anos.

No programa intervêm psicólogos, assistentes sociais e médicos que desenvolvem tratamentos individuais ou em grupo, projetos de sensibilização e promoção, assim como de prevenção.

A principal fonte de difusão do projeto é o boca a boca, embora os profissionais digam que não são poucos os afetados que devem superar o tabu que representa o pedido de ajuda psicológica em uma sociedade tradicional, na qual os transtornos relacionados com a saúde mental podem ser encarados como um estigma.

Os tratamentos são geralmente curtos, com no máximo 15 sessões, e os pacientes são atendidos em consultórios e também em seus domicílios pelo menos uma vez por semana.

O programa começou a mais de uma década em Hebron, uma das cidades palestinas mais marcadas pelo conflito. Nela vivem cerca de 600 colonos judeus cercados por uma população de mais de 130 mil palestinos e protegidos por mais de mil soldados.

Entre as moléstias mais comuns estão ataques de ansiedade, pânico, estresse pós-traumático, depressão, distúrbios do sono, micções noturnas em crianças e agressividade.

Miriam Qabas é uma assistente psicossocial integrante do projeto, que a cada semana supervisiona um grupo de mulheres na população de Yata, ao sul de Hebron.

"Cada semana escolhemos um tema para que as mulheres expressem seus problemas", diz junto do grupo que aborda a definição de violência para tratar a agressividade nas crianças.

Miriam ressalta que grande parte dos homens costumava trabalhar em Israel antes da última Intifada e hoje está sem trabalho, o que aumenta o desânimo, assim como episódios de ira, frustração e agressividade no âmbito familiar.

Na aldeia de Susia, ao sul do distrito, pelo menos 14 famílias enfrentam ordens de demolição de suas casas, tendas rústicas levantadas no meio de uma árida montanha sem as condições mais básicas de vida.

Em geral, os moradores não podem dormir, sofrem ansiedade, as crianças começam a chorar quando vêem soldados israelenses e a depressão é o pão de cada dia.

Muhamad Nuaja, de 22 anos, foi atendido pela ONG após manifestar agressividade e distanciamento como consequência da detenção e humilhação sofrida por soldados israelenses diante da sua família.

As mulheres da aldeia sentem "verdadeiro pânico" pelo assédio reiterado de colonos quando ficam a sós no cuidado do gado, explica Alia Muhamad, de 45 anos.

Para Yamila Hassan Shalalda, de 47, divorciada e mãe de três filhos, a situação não é muito diferente.

Vizinha da rua Shuhada, uma das principais do setor H2 de Hebron, sob controle militar israelense e onde estão incrustados quatro assentamentos judaicos, foi brutalmente agredida por colonos e sofreu incursões de soldados israelenses em sua casa.

Das 80 famílias palestinas que viviam em sua rua hoje só restam sete.

Os psicólogos trataram a família, em particular, suas filhas que se mostraram retraídas e receosas durante anos, um tratamento que ela deseja retomar.

"Minha casa é uma verdadeira prisão", lamenta, sob o pátio coberto por uma grade que a protege de objetos e lixo atirados pelos colonos judeus.

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